Diário do Pará Online

Abutres: liberdade sob duas rodas

A buzina toca e não demora o portão abre para olhares desconfiados. De cima, como um soldado, um homem vigia. Pede para o visitante se identificar. O visual assusta o desavisado. Jaquetas pretas de couro. Muitas tatuagens.  Logo na entrada, faixas, banners e uma imensa ave de rapina feita de pedaços de engrenagens de motos. Ao fundo, a trilha sonora passeia por AC/DC, Scorpions e... Coldplay. É o território dos Abutres, um dos mais antigos clubes de motociclistas do Brasil. Em Belém já existe desde 1989.

O clima se torna mais ameno assim que as apresentações são feitas. Por trás do visual que lembra os roqueiros do final dos anos 70 estão amigos que, mesmo obedecendo a uma rigorosa disciplina interna, estão mais para o ideário paz, amor e um tanque de cervejas do que para arruaças e confusões, como muitas vezes são discriminados.  Muitas vezes chegamos em balneários ou localidades do interior do Estado e percebemos que o comércio fecha as portas ou que as pessoas começam a se retirar. É uma ideia antiga, a de que motoqueiro, como eles chamam, são arruaceiros”, diz Galalau, 30 anos, o diretor da facção dos Abutres em Belém.

Nada mais falso. Os integrantes dos Abutres são trabalhadores. Há advogados, seguranças, microempresários, professores, economistas. Uma galera do bem, que se reúne todas as quintas-feiras, na sede do grupo, um espaço alugado no bairro do Tenoné, para ouvir música, tomar cerveja, jogar sinuca, trocar ideias.  A identificação é feita por apelidos. Galalau, Assombrado, Formigosa, Sapão, Susto, Riscado...

Galalau, por exemplo, é professor de História. Já Assombrado é economista. Formigosa, microempresário. Em comum, a paixão pelas motos.  Grandes, pequenas, incrementadas, simples. Não importa. “O que importa não é a moto; é quem está sobreela”, diz Formigosa, o mais velho membro dos Abutres em Belém, já entrando nos 54 anos de idade. A paixão pelas motocicletas começou em 1976, com uma mobilete. Foi mudando de cilindradas até chegar ao triciclo que usa atualmente.

Formigosa busca enfatizar a cadeia hierárquica que caracteriza o grupo. Quemquisersetornar um abutre deve passar por várias etapas. Na primeira, o candidato é um “próspero”. Não tem direito a usar o símbolo “Abutre” nas costas da jaqueta e deve manter lealdade e obediência aos que estão nos níveis acima da facção. Depois estão os semiescudados. Estes não usam o símbolo nas costas, mas já possuem as primeiras identificações. Por fim, há os escudados, que têm o direito de usar o símbolo. São pelo menos três anos até chegar a essa categoria. Acima deles estão os diretores da facção.

“Recebemos pessoas das mais diversas origens sociais. Somos rígidos quanto à aceitação, porque a pessoa precisa mostrar que está disposta a seguir as regras. Quem chega aqui e não se sente bem ao servir as outras pessoas, não tem as características que são necessárias”, diz Galalau.

Um exemplo disso está na própria criação da facção Belém dos Abutres. Foi trazida por um sargento que veio de São Paulo, onde integrava a facção paulista do clube. Esse militar era secundado por um capitão, ou seja, se no quartel tinha de obedecer as ordens do capitão, no clube os papéis se invertiam.

Uma vez por ano, em setembro, os integrantes de todas as facções se reúnem em São Paulo. São encontros que chegam a juntar cinco mil pessoas numa grande confraternização. “É uma grande irmandade que tem na motocicleta um sinônimo para vida e a liberdade”, resume Galalau.

(Diário do Pará)