Diário do Pará Online

Conheça uma lista para fazer render seu dinheiro

Todo dia 25 do mês é dia de a aposentada Maria Lourenço fazer pesquisa nos supermercados de Belém. Sabendo que o dinheiro que recebe da aposentadoria será depositado quatro dias após a pesquisa, ela se programa para ir ao supermercado que estiver oferecendo os melhores preços naquele mês. “Já cheguei a economizar R$200 num mês fazendo isso”, afirma.

A economia de quem, assim como Maria, pesquisa antes de fazer a compra do mês nos supermercados foi confirmada por uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Defesa do Consumidor em pontos de venda de 20 municípios brasileiros. De acordo com a análise, é possível economizar até R$ 2 mil ao ano se o consumidor comparar, já que a variação nos preços de um mesmo produto pode chegar a 200%.

Mesmo sem ter conhecimento da pesquisa, a aposentada conta com a experiência para abastecer todo mês uma família de 16 pessoas. “Eu vou a vários supermercados e, quando sai o dinheiro, eu já vou no certo para comprar mais barato”, explica a matriarca. “Se não fizer isso, não dá”.

LÓGICAS DO CUSTO

De acordo com o economista e vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon), Oberdan Duarte, a pesquisa é a melhor estratégia para quem pretende economizar. Segundo ele, a diferença pode estar entre os supermercados de uma mesma cidade, dependendo de sua localização. “Tem supermercado que oferece um conforto maior que o outro e isso implica em custo”, explica. “Um supermercado de periferia, em relação ao do centro, tem diferença no preço. Geralmente não dão muito conforto, mas o preço é mais acessível”.

Além de identificar que marca é mais barata, o economista - que lançou neste mês o guia ‘A Cartilha da Educação Financeira’, com dicas de como poupar - também orienta como deve ser realizada a pesquisa de preços em diferentes pontos de venda. “Procure anotar os preços de todo produto e a cada mês vá a um supermercado diferente”, ensina. “É bom fazer essa lista com os mesmos produtos e fazer o comparativo entre os supermercados. Assim, você já começa a fazer economia”.

Encostadas em um carrinho de supermercado, antes de começarem a enchê-lo, as irmãs Perla Santa Rosa e Laíra Santa Rosa pensavam na melhor maneira de fazer o salário render no final do mês. Na folha de caderno, a listagem dos preços dos produtos comprados do mês anterior. “Assim a gente tem um controle dos gastos”, informa Perla.

A escolha do supermercado em que as duas fazem as compras do mês também sofre influência da necessidade de economizar. O ponto de venda concentrado em um imenso galpão sem ar condicionado deixava clara a causa do menor preço. “Aqui a gente compra só o básico, porque é mais em conta. Já a carne e o frango a gente compra em outro supermercado porque não tem aqui”, explica a estudante. “Dá mais trabalho, mas temos que usar essas estratégias se quisermos economizar”, completa Laíra.

ESTOCAR?

No mesmo local, a estratégia do pastor Rui Guilherme era outra. Com o carrinho cheio de compras, ele aproveitava o preço de produtos vendidos em grande quantidade. “Eu sempre levo duas caixas com 24 unidades de lata de leite”, explica. “Isso ajuda a economizar.

Porém, para o economista Oberdan, essa tática não é muito válida quando a ideia é diminuir os gastos. “Não é vantagem comprar em grande quantidade porque os preços não estão se modificando muito”, afirma. “Estoque só tem que ser feito em período de guerra ou de hiperinflação”.

Segundo ele, de acordo com seus estudos, nem as promoções são tão vantajosas. “Para economizar, a melhor saída é a pesquisa. A promoção é estratégia de marketing dos supermercados”.

Sabendo disso, a doméstica Demérita Silva não costuma comprar por impulso. A paciência e a lista dos produtos necessários estão sempre com ela quando vai ao supermercado. “Eu compro tudo o que realmente preciso, vendo o que for mais barato e no final vejo se sobra algum dinheiro para comprar outras coisas que não são tão necessárias”, ensina. “Gosto de poupar”.

Geografia também afeta preços praticados no Pará

Superior à diferença percebida entre supermercados da Região Metropolitana de Belém está a variação nos preços dos produtos comercializados em Belém com relação aos comercializados em outros municípios do interior do Estado. Por causa da distância dos pontos de venda do interior, o valor de um mesmo produto pode ser até 50% mais caro do que o vendido na capital, de acordo com a Associação dos Supermercados do Pará (Aspas).

De acordo com o vice-presidente da associação, José Oliveira, o frete cobrado para transportar os produtos comercializados no interior do Estado é um dos fatores que mais influem sobre essa diferença. “Hoje o transporte tem um peso muito grande no preço da mercadoria. Cerca de 5% a 20% do custo final do produto é proveniente do frete”.

Ainda assim, segundo ele, além do transporte, a distância dos comerciantes do interior das grandes distribuidoras contribui para o aumento dos preços. “Aqui [em Belém] nós compramos direto das indústrias, então temos uma maior negociação”, afirma. “No interior, eles não conseguem negociar com os fornecedores. Têm que comprar em menos quantidade e é mais caro”.

Os preços encontrados em Marabá, por exemplo, para os alimentos básicos, como arroz, feijão, carne, manteiga e tomate, podem surpreender os moradores da própria capital, acostumados a pagar pelo conforto, serviços e até mesmo o luxo das lojas das grandes redes varejistas.

No comparativo com os preços de produtos da cesta básica praticados na Região Metropolitana de Belém, a maioria dos valores de supermercados marabaenses ficou acima do verificado pelo Dieese. Para comprar o feijão, por exemplo, os marabaenses desembolsam, em média, R$ 3,79, enquanto que em Belém esse valor é de R$ 2,96. O arroz no sudeste do Estado também é ofertado com um valor acima do praticado em Belém. Em Marabá, em média, se paga R$ 1,97 pelo quilo do produto, R$ 0,56 acima do que é vendido na capital.

A telefonista Sílvia Nascimento, 27 anos, afirma que todas as vezes que vai ao supermercado tem uma surpresa com o preço dos produtos que compõem a cesta básica, que estão sempre mais caros. “Toda vez que eu venho aqui subiu alguma coisa”, confirma, ressaltando que os preços de hortifrutigranjeiros são muito caro nas feiras marabaenses.

Silvia disse ainda que, como a mãe é diabética, se alimenta mais de legumes, frutas e verduras. Por isso, a telefonista tem que se virar para comprar os produtos. “Tenho que economizar na parte de roupa e de eletrodomésticos, pois a alimentação básica é fundamental”.

A servente Maria Betânia Nascimento Beliche, 42 anos, já morou em Brasília (DF) e acredita que a cesta básica em Marabá é muito cara. “Tudo é mais caro”, resume, completando que arroz, açúcar, café, feijão, leite, bolacha e óleo pesam muito no salário.

Consultado para falar sobre o elevado preço da cesta básica em Marabá, o economista Paulo Lopes, presidente do Sindicato do Comércio de Marabá, informou que os produtos chegam caro no município e região porque não há rodovias. Além disso, ele explica que os caminhões vêm carregados e que poucos retornam com carga. “A pessoa vai pagar a carga de ida e de volta, porque o caminhoneiro não tem perspectiva de retorno com frete”. Também se contribui para o encarecimento da carne, segundo o economista, porque não há plantações no município. “Ninguém planta e tudo vem de fora”, esclarece.

ENTENDA

200% é a variação que os preços de um mesmo produto podem alcançar no país, de acordo com pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Defesa do Consumidor. Ao todo, o estudo verificou preços praticados em pontos de venda de 20 municípios brasileiros.

R$2 mil é o que é possível economizar ao ano se o consumidor pesquisar os preços, variando de produtos e supermercados.

50% é a diferença até a qual podem chegar os preços praticados no interior e na capital do Estado do Pará.

5% a 20% do custo final do produto é proveniente do frete, apontam dados da Associação Paraense de Supermercados (Aspas).

(Diário do Pará)