Diário do Pará Online

Reviravoltas na disputa pelo governo do Pará

Para quem andou reclamando que as eleições deste ano estavam monótonas, o segundo tempo da disputa ao governo do Estado reservou algumas surpresas surgidas a partir da disputa por apoios. Anunciado o resultado das urnas no primeiro turno, Ana Júlia Carepa e Simão Jatene iniciaram uma corrida por declarações de votos de lideranças políticas do Estado. O objetivo é enfraquecer o time adversário e atrair eleitores indecisos que podem ser influenciados por nomes como o do ex-governador Almir Gabriel e o candidato do PMDB, Domingos Juvenil, terceiro colocado no primeiro turno, com cerca de 11% dos votos.

Aliás, o ex-governador Almir Gabriel protagonizou a grande reviravolta destas eleições, firmando uma aliança que deve entrar para a história política do Estado. Após anos de intensa rivalidade com o PT, Gabriel pulou de mala e cuia na campanha de Ana Júlia. Tem aparecido nos programas de rádio e TV e até participado de caminhadas em Belém, onde aparece sorridente e de mãos dadas com a candidata para quem perdeu as eleições em 2006.

Gabriel contou que o apoio foi sendo amadurecido após uma série de conversas com petistas do Pará e a decisão foi sacramentada durante encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com a candidata petista à Presidência da República, Dilma Rousseff, na base aérea do Estado, após um comício em Ananindeua. Almir, que rompeu com Simão Jatene após as eleições de 2006, tem usado adjetivos como preguiçoso para se referir ao ex-pupilo e tenta convencer seus eleitores de que Ana Júlia é a melhor

alternativa.

O inusitado da aliança é que Almir sempre foi visto como a face mais dura do PSDB do Pará, acusado pelos petistas de ser responsável pela morte de 19 trabalhadores rurais sem-terra em confronto para desobstrução de uma rodovia no sul do Estado em 1996, quando era o governador do Estado. Outro ponto de discordância entre o ex-tucano e os petistas foi a privatização da Centrais Elétricas do Pará, feita por Almir e duramente criticada pelo partido de Ana Júlia.

A candidata ao governo diz que as diferenças estão mantidas, mas justifica a aliança dizendo que tem em comum com Almir a mesma preocupação com o desenvolvimento do Pará. Petistas ouvidos pela reportagem comparam a eleição a uma luta de boxe, em que a vitória não acontece por nocaute, mas por pontos. Por isso, dizem, é preciso ir dando golpes que, se não derrotam completamente o adversário, o fazem perder pontos. “Trazer o Almir para nosso lado foi acertar o fígado do adversário”, diz um petista.

Simão Jatene reagiu e, para isso, contou com o apoio do PMDB, partido coligado nacionalmente a Dilma Rousseff e que até pouco tempo fazia parte da base aliada de Ana Júlia no Pará. O presidente da legenda no Estado, Jader Barbalho, liberou os partidários para decidirem apoiar individualmente Ana Júlia ou Simão Jatene, contrariando a cúpula petista que, até o final da semana passado, ainda trabalhava por uma declaração de apoio formal do PMDB a Ana Júlia.

A decisão de Jader jogou no colo da campanha tucana os principais nomes do PMDB, que mantinham com o governo de Ana Júlia relações já esgarçadas após quatro anos em que acusam a governadora de não cumprir acordos com a base aliada.

PROGRAMA

O apoio mais cintilante do PMDB foi o de Domingos Juvenil, que disputou o governo. Juvenil diz que a opção foi tomada porque Jatene aceitou sua participação nos ajustes do programa de governo, especialmente na área de segurança. O tucano promete implantar, caso eleito, as Unidades e Política Pacificadora (UPPs). Após duas semanas de negociação, o resultado é que Almir e Juvenil, que estavam juntos no mesmo palanque, se separaram e Ana e Almir, que durante quase uma década trocaram acusações públicas, agora andam de mãos dadas.

Jatene conseguiu atrair para seu lado também nomes como Simone Morgado, Parsifal Pontes, José Priante e Wladimir Costa, todos lideranças importantes do PMDB.

Para revidar, a campanha de Ana Júlia tem valorizado o apoio de cada prefeito do partido que chega para engrossar suas fileiras. Os números da “Acelera Pará”, coligação da petista, são de que metade dos prefeitos do PMDB estaria com ela.

Não só PMDB e Almir dividiram os holofotes neste segundo turno. PTB e PV, partidos coligados a Ana Júlia Carepa, também ajudaram a dar alguma emoção à campanha. Os dois partidos se dividiram entre Ana Júlia e Jatene. O PTB de Duciomar Costa continua aliado a Ana Júlia, mas os deputados eleitos pela legenda estão com Jatene. O diretório estadual chegou a anunciar que faria reunião para avaliar uma possível expulsão, mas a deliberação foi adiada.

O mesmo ocorreu com o PV, que divulgou nota reiterando apoio a Ana Júlia, mas viu lideranças suas na propaganda de Simão Jatene. A “Acelera Pará” tem entrado na Justiça para impedir que lideranças de partidos aliados apareçam no programa de Jatene.

Lideranças políticas com “ativo de poder” no Estado

O cientista político Roberto Corrêa diz que a disputa por apoio não é por acaso. Segundo ele, há lideranças que têm o que ele chama de “ativo de poder”. Cita como exemplo o caso do deputado federal Jader Barbalho que, segundo ele, por já ter sido presidente do Congresso, ministro, governador, dentre outros cargos, teria esse ativo. Num estudo feito para uma multinacional, Corrêa diz ter constatado que 65% do adicional de votos de Ana Júlia no segundo turno das eleições de 2006 vieram de votos de Jader. Ele diz, contudo, que o mesmo não se aplicaria ao deputado estadual Domingos Juvenil, também do PMDB, que, diz o cientista, ainda não teria o “ativo de poder”.

Para o presidente do PV, José Carlos Lima, a transferência de votos depende da liderança. Ele diz não acreditar que alguns nomes do PV que declararam apoio a Jatene possam ter influência na transferência de votos. Mesmo assim, tomou a precaução de impedir judicialmente que essas lideranças apareçam no programa eleitoral do tucano. “O problema aí é que elas podem confundir o eleitor, que pode achar que o PV está apoiando o candidato e não é isso. São posições individuais”. Uma liderança petista que não quis se identificar afirma que a adesão de Almir Gabriel teve mais o objetivo de “desconstruir” Jatene que de atrair os eleitores do ex-tucano para Ana Júlia. “Essas alianças têm muito a ver com coerência. No caso do Almir, o apoio foi importante porque ele conviveu com Jatene e está colocando em xeque a capacidade

dele de governar”. (Diário do Pará)