Diário do Pará Online

Pistolagem,terror e impunidade em Tomé-Açu

Nos últimos cinco anos, o cemitério de Tomé-Açu registrou algo em torno de 750 sepultamentos. Desse total de mortes, cerca de 40% foram assassinatos. Na quase totalidade, de homens, a maioria entre os 18 e 30 anos. Para uma população aproximada de 65 mil pessoas, os números impressionam. No município, ser pistoleiro ainda é uma profissão rentável e de poucos riscos, já que o clima de impunidade é uma das poucas coisas que ainda sobrevivem em Tomé-Açu.

Pistoleiros criam fama na cidade. Alimentam e são alimentados por uma rede de violência que à boca pequena se atribui a alguns políticos locais. Mas ninguém na cidade fala nada abertamente. No presídio de Tomé-Açu, que estranhamente funciona no centro da cidade, quase ao lado da prefeitura, o próprio diretor evita até se identificar como tal. Ao DIÁRIO, ele diz que o diretor já foi embora, enquanto fecha o portão. De dentro ouve-se um funcionário chamá-lo pelo nome. No presídio de segurança mínima estão pistoleiros como Fernando, que no dia 27 de maio tentou colocar mais um crime em uma lista que já seria imensa. A vítima foi o empresário Francisco José Matos Neves, conhecido na cidade como “Chico Doido”.

“Chico Doido” é recorrente em ameaças de morte. Já escapou de quatro tentativas. Por conta disso, tem passado os dias recluso na própria casa, no distrito de Quatro Bocas, distante dez quilômetros de Tomé-Açu. Durante a semana, o empresário seria o alvo de mais um crime de pistolagem. O intermediário Raimundo Araújo da Silva, o “Paragominas”, foi preso com R$ 8 mil em mãos. Seria uma parte do pagamento a um pistoleiro para eliminar “Chico Doido”. O delegado Alberto Teixeira disse que o valor do crime seria R$ 60 mil. A acusação de mandante caiu sobre o vereador José Aldomário Zani (PSDB).

A Polícia Civil teria uma lista com 14 nomes, a quem seria pedida a prisão preventiva por estarem envolvidos de alguma forma com a pistolagem. A lista faz parte de um dossiê chamado “Faroeste Caboclo”, que relata a teia de crimes que assola Tomé-Açu. Efetivá-la pode ser um problema maior. O delegado Albero Teixeira, por exemplo, se divide entre as delegacias de Apeú, Castanhal e Tomé-Açu. Encontrá-lo em uma delas nem sempre é tarefa fácil. Em Quatro Bocas, o delegado Paulo Henrique trabalha numa sala que mais parece um muquifo, de tão pequena, escura e sem as mínimas condições de uso.

“Houve uma diminuição no número de crimes depois da morte do Raimundo Sampaio”, diz Henrique. Segundo ele, é como se houvesse um antes e depois na escalada da violência em Tomé-Açu. Sampaio foi assassinado no dia 15 de outubro de 2008, pouco depois de ter sido eleito como o vereador mais votado do Estado. Os dois pistoleiros que o executaram nunca foram presos. Muito menos os mandantes.

Para muitos, Sampaio era quem comandava uma espécie de grupo de extermínio em Tomé-Açu. “Quando o ex-prefeito assumiu, ele mandou matar 27 mendigos. Foi a forma de ele limpar a cidade”, diz um morador. Sampaio também costumava comprar dívidas de pessoas. A cobrança era violenta. “Ele era o chefe da pistolagem aqui. Agora, tem outras pessoas que pretendem assumir o lugar dele”, diz um funcionário da prefeitura.

>> Disputa política está entre os estopins de Tomé-Açu

Silêncio é o que se obtém da maioria das pessoas quando se quer falar sobre os crimes na cidade. Até para informações prosaicas o clima é de desconfiança. “Eu não vou dizer onde ela mora porque os homens são da pesada”, diz um transeunte ao ser perguntado onde mora Fátima Tesh, viúva de Sebastião José Tesh, o ‘Alemão’, assassinado sob uma saraivada de balas no último dia 15 de julho. A casa dela ficava a dez metros. “Eu não quero falar nada. Eu sou neutra. Fico calada porque não há nada que eu possa fazer. Só entregar na mão de Deus. Meu estado ainda é de choque”, diz ela.

“Alemão” foi um importante aliado do atual prefeito durante a campanha. Foi eliminado. Assim como Adão Lima Silva, morto - coincidentemente ou não - no dia 15 de dezembro do ano passado. “Eu queria saber por que essas mortes só acontecem no dia 15”, diz Maria Neide Silva, a “Socorro”, viúva de Adão. O assassinato do aliado do prefeito foi uma mostra da insanidade que atinge a violência em Tomé-Açu. Ele foi morto com 21 tiros, a maioria na cabeça, que ficou esfacelada. Tudo diante do filho de 12 anos. Em frente à própria casa. Ninguém foi preso.

Sete meses depois, Socorro ainda não se libertou do trauma. A empresária, dona de lojas, tenta reconstruir a vida, mas tem medo de sair e de deixar os filhos saírem sem segurança. Quando se pergunta por ela, sempre responde que é outra pessoa. Não dorme direito, toma remédios. “Isso atrapalha até meu trabalho”, diz ela.

Em Tomé-Açu, o pistoleiro Lalá está foragido, com a prisão preventiva decretada. Lalá foi um dos protagonistas de uma cena que retrata o faoreste caboclo em que se transformou o município. Embriagado, viu “Chico Doido” chegando em casa e, como já havia sido contratado para matá-lo, saiu disparando contra o empresário pelas ruas da cidade. Nesse clima, nem a polícia do município escapa. Na viatura em Quatro Bocas, as oito marcas de bala atestam que a lei do mais forte ainda prevalece em Tomé-Açu.

>> Lista já teria 23 ‘marcados para morrer’

Os servidores da prefeitura de Tomé-Açu vivem num clima de medo. Recentemente surgiu um boato na cidade de que havia uma lista de 23 pessoas marcadas para morrer. Quase todas ligadas de uma forma ou de outra ao atual prefeito Carlos Vinícius (PMDB). “A prefeitura tem feito o possível para ajudar, cedendo combustível e alimentação para a Polícia Civil”, diz o procurador municipal Paulo Bentes.

A fama de cidade violenta incomoda o poder público. Com a implantação de duas usinas de dendê para biodiesel, espera-se que um novo ciclo de desenvolvimento surja para Tomé-Açu. Isso minimizaria o caso da atividade madeireira, que gerou desemprego no município. Só o fim da atividade carvoeira representou um pequeno exército de três mil desempregados. Nesse cenário, a violência pode lançar sementes à vontade.

A cidade ainda não possui uma instalação adequada para o Fórum, destruído pelos moradores quando do assassinato de Raimundo Sampaio. “Os três principais acusados de liderarem a manifestação foram liberados rapidamente. Têm ligação com uma pessoa influente”, diz o procurador. Em Tomé-Açu, a juíza Marinês Catarina Arraes não foi encontrada no município pelo DIÁRIO na quarta-feira à tarde. Os dois promotores que atuam em Tomé-Açu respondem também por Bujaru e Concórdia do Pará. “Tomé-Açu é um pouco desassistida pela Justiça”, diz Bentes. (Diário do Pará)