Domingo, 05/02/2012, 09:54h

Série traz crônicas do tímido Mário Couto

“Mário Couto escritor? Cronista? O senador?” É capaz de o leitor repetir, ao abrir esta página, o espanto que diversas vezes se estampou, na maioria das pessoas, ao ver que Mário Couto estava entre os nomes que sele-

cionei para fazer parte da coleção “Pará de Todos os Versos, de Todas as Prosas”. Quando lhe citava o nome como um dos autores da série, mesmo amigos de considerável quilometragem como leitores o confundiam com o encrencado senador do PSDB, denunciado pelo Ministério Público do Estado de integrar, quando presidente da Assembleia Legislativa, um esquema de fraudes em licitações de obras.

O escritor e jornalista Mário Couto não merecia tal sorte póstuma. Mais de 25 anos depois de sua morte, se poucos lhe lembram o nome, bem menos são capazes de lhe recordar a obra, os escritos. E no entanto, ele foi um dos nossos mais inventivos cronistas, tendo semeado de verve e inteligência, por muitas décadas, as páginas da imprensa local. Conviveu com a geração literária mais brilhante de Belém - escritores e jornalistas como Ruy Barata, Mário Faustino, Haroldo Maranhão, Benedito Nunes, Francisco Paulo Mendes -, e dela teve o reconhecimento merecido.

O mestre de tantas gerações, formidável professor e notável crítico literário Francisco Paulo Mendes, o “fazedor de poetas”, disse ser um fato constatado por vários dos nossos críticos e historiadores que a crônica na literatura brasileira ocupa lugar de relevo como gênero, ao contrário do que se registra nas literaturas estrangeiras, onde ela não ocorre com frequência. E a crônica é um gênero - que muitos ainda teimam de chamar de menor, contrastando com a grandeza dos que a praticaram e praticam - que encontrou seu hábitat na página de jornal.

“De Machado de Assis e João do Rio, no final do século XIX e começo do XX, ao Modernismo, com Mário de Andrade, Alcântara Machado e Álvaro Moreyra e, depois, com Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, entre outros, o gênero crônica tem sido, até hoje, superiormente praticado por alguns dos nossos mais ilustres escritores”, acentua Mendes. “Em nenhuma outra literatura contemporânea, como em nossa, esse gênero alcançou aspectos tão atraentes e conteúdo tão variado.” Em seguida à citação desses luminares da crônica, o professor não hesita em incluir, “sem dúvida”, Mário Couto “entre os seus melhores cultores”.

ÚLTIMA DO PAPAGAIO

A exemplo de tantos que vêm desaguar no estuário da crônica jornalística - e os acima listados por Chico Mendes ilustram essa esquadra -, Mário Couto era um literato em gestação que encontrou no jornal um meio de ganhar algum dinheiro com a sua “queda” para as letras.

Sua atividade literária iniciou-se dos 17 para os 18 anos de idade, tendo sido contista e teatrólogo de primeira hora. Já no distante ano de 1942, o jovem Mário Couto seria responsável, como autor das peças “Toque a Serenata de Schubert” e “Boneca Ressuscitada”, pelo melhor da temporada daquele ano do Teatro do Estudante do Pará. A primeira, uma comédia, chegou a ser encenada pela professora Margarida Schivasappa, no Teatro da Paz. Sobre a peça, assinalou o escritor Dalcídio Jurandir: “Mário Couto é um dos nossos mais interessantes ‘conteurs’. Agora faz

teatro. ‘Toque a Serenata de Schubert’, sua peça de estreia, apresenta, além daquelas virtudes que os seus contos já denunciavam, muitas outras. Mário Couto nos dá uma peça leve, mas rica de intenções e de subentendimentos. E, na verdade, não se pediria mais para um estreante de teatro”. Na literatura, duas de suas primeiras influências foram o romancista Charles Dickens, autor de “David Copperfield”, entre tantos outros títulos memoráveis, e a contista neozelandesa Katherine Mansfield.

Paralelamente à entrada em cena no palco das letras, Mário Couto debutava na boemia. O Café Central, que funcionava no térreo do Hotel Central, na Presidente Vargas, fazia às vezes de salão iluminista para esses intelectuais públicos (hoje em extinção), que ali discutiam a cidade, democratizando a informação e o conhecimento haurido nos livros. Como alguém já disse, naquele ambiente a conversa ia de Verlaine à última anedota do papagaio. Com o passar do tempo, cada vez mais enredado no jornalismo, portador de notícias fresquinhas aos companheiros de mesa, Mário fazia dos bares um ponto obrigatório de passagem entre a redação e a rua. E, com o passar dos anos, mais frequentemente, como ponto de permanência.

JORNALISMO

Mário Couto trabalhou e publicou suas crônicas nos principais jornais de sua época, como “A Província do Pará”, “Folha do Norte” e “O Liberal”. Acorrentado às exigências cotidianas dos compromissos jornalísticos para suprir as contingências da vida, o autor, se no entremeio do exercício da profissão encontrou na crônica um derivativo para seu talento de ficcionista, sua verdadeira vocação, esta foi represada pelos muros desse consumir-se diário em papel de jornal, que cobra, nesse moer de ossos, os projetos literários sonhados, malogrados. Numa conversa que tive com o professor Mendes, muitos anos atrás, ele então lembrou o “caso” de Mário Couto, que teria tido seu desenvolvimento literário brecado pela dedicação ao jornalismo.

Esse já lendário conflito entre literatura e jornalismo - e Hemingway, que esteve de cada lado do front, dizia que “o trabalho no jornal não prejudicaria um escritor jovem e poderia auxiliá-lo, se saísse fora a tempo”, enquanto Bernard Shaw garantia que “o jornalismo diário, estando além da força e da tolerância humanas, treina os homens de letras para traírem sua obra” - em Mário Couto maturou-se em ressentimentos, em amarguras que ele não deixou de destilar, obviamente, em crônicas jornalísticas, como “Nasce um jornalista”, “O poder da imprensa” e “Das atribuições de um jornalista”, onde fala, com intimidade, do ofício que abraçou, nos bons e maus momentos, como num casamento.

MESTRE E ALUNO

Se - como já deve ter percebido o leitor - os nomes de Mário Couto e de Francisco Paulo Mendes muitas vezes se cruzam neste texto, essa interseção se deve ao fato de que a vida de ambos muitas vezes coincidiu. Começou pelas salas de aula, no final da década de 1930, quando o aluno Mário Couto, que terminava o curso secundário no Colégio Estadual Paes de Carvalho, encontrou à lousa o professor Francisco Paulo Mendes, que ingressava no magistério ministrando a matéria Literatura Universal. O mestre reconheceu no aluno “uma esplêndida inteligência e um total desprezo pelo vulgar e pelo medíocre”, além de “dotado de invulgar aptidão literária”.

Continuaram a se encontrar ao longo da vida, como no Teatro do Estudante, de que Chico Mendes era orientador, nas mesas do Café Central, nos circuitos literários. Mais tarde, os correspondentes afazeres os afastaram do convívio diário. O reacender dessa amizade literária teve um último capítulo, póstumo, quando Mendes organizou e prefaciou o livro “A Grande Viagem”, coletânea de crônicas editada por iniciativa do então governador Hélio Gueiros, que assim pagou uma dívida editorial com Mário Couto, companheiro de redação.

O prefácio de Mendes é a melhor informação que temos sobre a vida e os escritos daquele que foi seu exuberante aluno. Nota que as crônicas de Couto “refletem a época em que foram escritas, suas preocupações, seus anseios, suas expectativas e suas decepções”; “constituem fragmentos críticos de determinado momento de nossa sociedade”; registram aspectos da cidade de Belém, “os pitorescos e típicos dos nosso bairros e subúrbios”, assim como referências “a pessoas pertencentes aos nossos meios sociais e artísticos”.

Reporta-se ao valor literário dessas crônicas, em que se revela o conhecimento da língua portuguesa, “a par de um singular poder narrativo e descritivo”. Os dissabores, o desolamento pelos ideais não realizados (as ilusões perdidas balzaquianas), se traduzem numa boemia dilacerada, dolorosa, solilóquios na solidão de um bar mortiço. Um dos porres mais terríveis já narrados numa crônica está exposto, por exemplo, em “Astronauta e orador advertido pelo espelho”. Mas há também notas de um lirismo tão pungente quanto desconcertante, páginas em que, de certa forma, à Machado de Assis, o cronista maduro reata-se com aquele primeiro Mário exuberante de vida e de inteligência. Reúnem-se, afinal, no Mário que, “quando não estava no trabalho, só tinha dois vícios: ou lia, lia, lia ou bebia, bebia, bebia”, como diz Hélio Gueiros na apresentação do referido volume. Restou-nos, como conclui Paulo Mendes, sob a aparência de ousadia e de coragem, o que Mário era na verdade: “um tímido e um sentimental”.

É este notável cronista e homem, que merece ser lido, relido, descoberto, reavaliado, que o leitor encontrará no nono e penúltimo volume da coleção Pará de Todos os Versos, de Todas as Prosas, com textos selecionados, por sua vez, daquele volume póstumo, de 1991, “A Grande Viagem”, que empresta seu título ao atual livro da série do DIÁRIO.

Chuvas mil de abril em maio

Decidiram as chuvas mil de abril cair nas tardes de maio, estendendo-se pela noite, e ninguém teve peito para formular protestos contra essa incoerência da natureza. Nem mesmo os colunistas sociais fizeram qualquer alusão ao fenômeno, restringindo-se às informações de rotina, nos dando conta de viagens e aniversários, de noivados e ‘délivrances’, sendo que estes últimos acontecimentos continuam sendo definidos como visitas da cegonha, o que, convenhamos, é de muito bom gosto e oportunidade nesta época de censura rigorosa.

Na Câmara Municipal, felizmente, não passou em branco a anormalidade, tanto que um vereador, de visão e bom senso, ardoroso defensor dos interesses das populações da Estrada Nova e Terra Firme, apresentou proposição pedindo abertura de crédito especial para aquisição de capas impermeáveis a serem distribuídas pelos edis, a fim de que se não verificasse falta de quórum nas sessões extraordinárias que porventura viessem a ser convocadas no decorrer do inverno não programado, ao qual nenhuma alusão é feita no Almanaque.

Registraram-se três mortes por afogamento em uma avenida e em duas das mais importantes artérias da cidade. Os corpos de duas vítimas foram retirados dos bueiros por escafandristas mas, para a retirada do terceiro, em conta se levando a profundidade do buraco, foram especialmente contratados nos Estados Unidos homens-rãs de muita experiência e responsabilidade, os mesmos que procederam ao salvamento da nave do Apolo 13 no Pacífico. Estes mergulhadores especializados foram festivamente recebidos pela municipalidade, tendo-lhes sido entregues as chaves simbólicas da capital, a primeira para o acesso pelo Entroncamento, trecho da Belém-Brasília, outra pelo aeroporto internacional de Val-de-Cans e a terceira pela Praça Pedro Teixeira, ou se quiserem pelo galpão Mosqueiro e Soure. No ensejo, um dos ilustres visitantes, fazendo uso do verbo, revelou que o desejo de todos os americanos era conhecer a eficiência e rapidez dos elevadores do edifício “Manoel Pinto da Silva”, ouvir as reportagens radiofônicas do Paulo Ronaldo, tomar tacacá e provar a Pepsi regional. No que mereceu um aparte de seu companheiro que afirmou ter especialmente recomendado o maracujá com cachaça do Central.

A chuva diminuiu sensivelmente o número de casamentos no mês das flores, declarou peremptoriamente a Imprensa o escrivão do cartório especializado em matrimônios. Muita gente maldava, pensando que o motivo era outro. E como as águas desciam violentas não houve flagrantes de adultério, as senhoras sensatas suspenderam o tratamento dos dentes e o jogo de pontinho com as amigas. Mas veio a epidemia, a gripe inevitável, corpos doloridos na umidade da noite sem boêmios esperando a madrugada. E a corrida às farmácias em busca de antibióticos, muito mais aos botecos para consumir cachaça com limão, bebida muito rica, afirmam os entendidos, em vitamina C.

       [crônica do livro “A Grande Viagem”]

A COLEÇÃO ORGULHO

1 “Antilogia”, de Ruy Barata

2 “O Touro Passa?”, de Alfredo Oliveira

3 “Bailado Lunar & São Benedito da Praia”, de Bruno de Menezes

4 “Crônicas da Cidade Morena III”, de Edyr Augusto Proença

5 “Sertão: A Palavra e a Imagem”, de Eidorfe Moreira

6 “Crônicas a Sangue Frio”, de Elias Ribeiro Pinto

7 “Jornadas do Conto Popular Paraense”, de Vicente Salles

8 “H’Era e Anti-Retrato”, de Max Martins

9 “A Grande Viagem”, de Mário Couto

10 “A Asa e a Serpente e Manifestos Curau”, de Vicente Cecim.

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Com a coleção “Pará de Todos os Versos, de Todas as Prosas” você terá semanalmente acesso a grandes obras da literatura paraense. São 10 autores em um livro inédito a cada semana. Recorte os selos publicados durante a semana e cole no cupom publicado no jornal sempre aos domingos. O primeiro já sai na edição

de hoje. Ao completá-lo, é só trocar pelo livro “A Grande Viagem”, de Mário Couto.

(Diário do Pará)

Acesse aqui o blog do Orgulho do Pará. Notícias, informações e bastidores da campanha.

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Diário, Orgulho de ser do Pará - Trailer 1
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