Quinta-feira, 08/07/2010, 17h20

Há vinte anos morria Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza. O "menino do Rio" entrou para história da música popular brasileira como o rebelde-zona-sul que compôs belas canções e rasgou a garganta em rocks desvairados. Nascido no Rio de Janeiro em 4 de abril de 1958, o pequeno Cazuza teve uma infância e uma adolescência aconchegantes sob a proteção sempre atenta da mãe Lucinha Araújo.
HISTÓRIA
Rebelde e contestador, Cazuza era um típico garotão de Ipanema. Entre fins de tarde no Arpoador, bebedeiras no Leblon e rachas na Lapa, o menino passou de fotógrafo profissional à ator, poeta e, por fim, cantor de garagem. Foi Léo Jaime quem o levou para o teste com a banda de Roberto Frejat no início da década de 1980. Era apenas o início do que se chamou na imprensa de Brock, ou o rock Brasil.
O primeiro disco do Barão Vermelho saiu em 1982 com pequena tiragem e vendagem muito ruim (apenas sete mil cópias). No vinil, uma sonoridade visceral inspirada em bandas como Rolling Stones e Deep Purple. Os blues rasgados "Ponto Fraco", "Bilhetinho Azul" e "Down em Mim" tinham um importante contraponto na balada rock "Todo Amor que Houver Nessa Vida". Foi essa que chamou a atenção de Caetano Veloso, num show do Canecão, a estrela baiana se apropriou da balada e fez dela uma bela canção MPB.
INFLUÊNCIA
Aliás, foram as boas amizades da família que ajudaram a levantar a bola do Barão Vermelho. João Araújo, pai de Cazuza, era produtor executivo da Som Livre, um selo muito atuante no mercado de então. Mas a história conta que foi preciso muita insistência de Ezequiel Neves – o produtor musical que tinha descoberto e adotado o Barão – para convencer o diretor da gravadora a contratar o grupo. Anos antes, ainda garotinho, Cazuza – acompanhado do então colega de escola Pedro Bial – foi encaminhado a casa de Vinícius de Moraes para fazer um trabalho de língua portuguesa sobre a poesia brasileira. Um telefonema do paizão colocou o menino Agenor e seu amigo Pedrinho diante daquele que seria responsável pelo primeiro porre de ambos. Vinícius empurrou wishky nos meninos de apenas onze anos enquanto prozeavam.
As relações próximas com o meio de grandes compositores impulsionou Cazuza. Como letrista, ele dependia de harmonistas para formar as canções que gravaria. Com a saída do Barão Vermelho em 1985 – depois de três Lps e uma apresentação memorável no Rock In Rio – Cazuza recorreu a compositores de renome para ampliar sua lista de parceiros que, nunca deixaria para trás o camarada Frejat. Leoni, George Israel, Nilo Romero, Lobão e Ritchie eram nomes da cena roqueira, mas Gilberto Gil, Renato Ladeira, Dé Palmeira, João Rebouças, e até uma parceria inusitada com Cartola na "Canção Azul "e "Amarelo" adoçaram as letras de Cazuza com acordes dissonantes e levadas sambistas.
Além disso, gravações com o violonista virtuose Rafael Rabello, Gilberto Gil, Bebel Gilberto engrossam o rol de parceiros importantes. São raras as composições assinadas só por Cazuza, como é o caso em O Assassinato da Flor e Boas Novas, ambas do disco Ideologia, de 1988, um dos mais bem sucedidos do cantor.
Cazuza e Barão Vermelho no Rock In Rio 85: Mal Nenhum
CRÍTICA
A rebeldia tresloucada de Cazuza talvez não sustentasse a dureza da indústria musical de hoje. Na biografia escrita por Lucinha Araújo e Regina Echeverria em 1997 (Editora Globo), a mãe do cantor conta que cuidou de suas finanças escondendo as situações de déficit. Quando ele quis de todo jeito comprar uma cobertura no Leblon, Lucinha providenciou a “intera” sem que Cazuza soubesse que não dava conta do imóvel sozinho. Nos canhotos dos cheques que ela pegava para fazer a cotabilidade do filho, ele rascunhava como itens pagos “pó”, “galera”, e coisas do gênero.
Cazuza foi um adolescente impulsivo e grande parte de sua poesia refletiu isso. Diferente de Renato Russo, seu contemporâneo que, que apesar do alcoolismo e consumo de heroína, encarou a carreira de roqueiro com o profissionalismo e esclarecimento que a indústria suscita, devorou volumosa literatura poética e política, e colecionou quatro mil discos de Beethoven a The Clash, Cazuza apenas levou a vida e escreveu o que sentia com gente sempre disponível para cuidar do que precisasse ou paparicar seus caprichos.
O último álbum, Burguesia, de 1989, veio duplo, recheado do material que Cazuza acumulava em casa, escrevendo às pressas enquanto a morte não vinha. Ele foi pioneiro ao assumir publicamente a Aids numa época em que a doença era rodeada de mistério e preconceito. Foi aos Estados Unidos diversas vezes para se tratar; experimentou o coquetel AZT logo no início, quando ainda era uma novidade cheia de esperanças. Cazuza se expôs e se tornou uma cobaia não só para os testes clínicos, mas principalmente para a sociedade. A imprensa caiu de pau. Na capa da Veja de 26 de abril de 1989, a traição que levou Lucinha Araújo à redação da revista para tirar satisfação. A matéria que deveria revelar a luta do cantor o expôs moribundo: “uma vítima da Aids agoniza em praça pública”, dizia na capa.

No dia 7 de julho de 1990, a Legião Urbana estava se apresentando no Jockey Clube do Rio de Janeiro, e Renato Russo dedicou a canção Soldados ao amigo falecido naquela manhã, antes da letra original, uma citação de Faz Parte do Meu Show. No livro de Lucinha, o primeiro capítulo começa exatamente no amanhecer daquele dia. Chamada pelos enfermeiros para ver o filho morto, ela conta que o abraçou pela última vez e sentiu como se o devolvesse ao útero. Só as mães são felizes, diria ele.
Na homenagem de Renato Russo, um desabafo solidário de alguém que ainda ia travar a mesma batalha: “Mas agora a coragem que temos no coração, parece medo da morte, mas não era então... Quem é o inimigo, quem é você?... Somos soldados pedindo esmola, e a gente não queria lutar”.
MORTE DO PARCEIRO
Hoje, vinte anos depois, foi Zeca Jagger, o Ezequiel Neves, parceiro de Cazuza, mais na vida do que na arte, que perdeu uma batalha. O co-autor de Codinome Beija-Flor faleceu no mesmo dia do amigo, por falência múltipla de órgão decorrente de um câncer, aos 74 anos. Foi ele quem amparou Cazuza no dia em que recebeu o exame que confirmava o HIV, e foi ele quem o acompanhou até o fim, nas bebedeiras e nos hospitais. Então hoje estão mais vivos do que nunca. Tudo azul, completamente blue, assim diz uma letra pouco conhecida, mas tão bela:
“Como é estranha a natureza / Morta dos que não têm dor / Como é estéril a certeza / De quem vive sem amor, sem amor”.
Cazuza no Caneção, 1988: Completamente Blue, canção pouco conhecida.
Texto: colaboração de Marcello Gabbay
Músico e Doutorando em Comunicação e Cultura pela UFRJ
Editor do Bomgá da Matá
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