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Domingo, 04/07/2010, 09h36

Quem poderá salvar os filmes de ação?

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Filmes no estilo “Duro de Matar” amargam prejuízo nas bilheterias do mundo inteiro

Quem poderá salvar os filmes de ação?

Sob o comando de Sylvester Stallone, a horda de brucutus reunida no filme “Os Mercenários” (“The expendables”), agendado para 13 de agosto em todo o planeta, terá pela frente uma missão que, aos olhos de críticos e analistas do mercado exibidor, parece... impossível: salvar o cinema de ação. Corre especial perigo o formato delineado nas décadas de 80 e 90, estrelado por “exércitos de um homem só”, tipo “Máquina Mortífera” (1987), “Duro de Matar” (1988) ou “A Força em Alerta” (1992). Seus astros hoje já não são mais capazes de atrair multidões, vide o recente fiasco de “O Fim da Escuridão” (“Edge of darkness”), com Mel Gibson.

No mês passado, o fracasso comercial de “Esquadrão Classe A” — raro exemplar do gênero a ser saudado, quase com unanimidade, com resenhas elogiosas — serviu de argumento a favor de uma tese, “O Ocaso do Filme-adrenalina”, defendida pelo livro “Yippe ki-yay moviegoer — Writings on Bruce Willis, badass cinema and other important topics” (Titan Books), recém-lançado nos EUA. Seu autor, chamado apenas de Vern, consagrou-se no site “Ain’t it cool news” como um dos mais lidos analistas da arte pop na internet.

No livro, Vern viaja de “Comando para Matar” (1985) a “300” (2007) para afirmar que a correção política acabou com “um filão dominado por bárbaros, criativos apenas nas técnicas para matar”.

“Nos anos 80, John McClane, personagem de Bruce Willis em ‘Duro de Matar’, virou uma espécie de James Bond para pessoas como eu, ou seja, acostumadas com a pobreza e não com o refinamento de 007. E nenhum outro filme do gênero foi tão influente. Mas tudo o que se fez depois remete àquele longa. Não saímos dele”, defende Vern.

Ele ainda não viu “Os Mercenários”, rodado por Stallone parcialmente em Mangaratiba — onde, segundo más-línguas, deixou muitas dívidas —, mas já supõe que o projeto vá sofrer do mesmo mal que sucateou carreiras como as de Jean-Claude Van Damme e Chuck Norris, a quem trata como piada.

Vern e toda uma safra jovem de críticos americanos acreditam que, após o 11 de Setembro, a mídia associou heróis onipotentes como o John McClane de “Duro de Matar” a uma imagem predatória perigosa frente às instabilidades políticas deixadas pela era Bush. Vigilantes que antes encaravam terroristas de revólver em punho perderam a credibilidade frente às imagens dos aviões que se chocaram contra o World Trade Center.

Para complicar, o conservadorismo assumido e praticado por Arnold Schwarzenegger (o maior de todos os astros do ramo) como governador da Califórnia associou ainda mais os ícones dos anos 80 à intolerância. — Não acho que foi o politicamente correto que contribuiu para isso. Essa nova moral funcionou mais para o faroeste: como continuar a torcer para a eterna matança de índios? — questiona Paulo Sérgio Almeida, do Filme B, site que analisa o mercado cinematográfico nacional. — Fica ainda mais difícil hoje torcer para o bandido, agora confundido com terroristas, exceto em casos mais sofisticados como o de Coringa versus Batman.

Está claro para o mercado que “Os Mercenários”, de Stallone, chega com um apelo forte para os fãs de ação. Para fazer a produção de US$ 80 milhões emplacar — e reerguer o filão que o consagrou —, Stallone uniu todos os seus concorrentes famosos. Já no trailer, a sequência em que o eterno Rambo — cujo quinto filme foi cancelado por falta de crédito comercial dos financiadores — contracena com Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger entusiasma. A trama sobre um grupo de soldados obrigados a salvar uma república latino-americana de um ditador congrega ainda o chinês Jet Li, o sueco Dolph Lundgreen, o americano mestre em artes marciais Randy Couture e o inglês Jason Statham, tido como o único herdeiro dos ícones da ação das décadas passadas.

— Statham é o novo Stallone — define o pesquisador Antônio Manuel Lopes Amaral, dono de um dos maiores acervos de cinema do Rio. — Revelado em produções europeias, como “Carga Explosiva”, ele agrada não só por seu domínio de artes marciais, mas por parecer gente como a gente. Por mais mirabolantes que sejam as perseguições em seus filmes, eles não dependem de efeitos especiais. O excesso de efeitos quebrou a identificação do público com os heróis de ação.

No Filme B, Almeida não aposta tanto em Statham, já que nenhum de seus filmes virou blockbuster aqui. Para ele, os filmes de ação se esgotaram pela repetição de uma fórmula (“Se você assiste a um, assiste a todos”). Editora do site “Contracampo”, referência de crítica na internet, Tatiana Mossa endossa:

— O cinema de ação abriu mão de certos exageros, sobretudo em violência e caracterização dos embates, que o tornavam um reduto do “fantástico verossímil”, para se apoiar mais em grafismos e planos-sequência mirabolantes proporcionados pela computação gráfica. Isso faz com que os filmes medianos tornem-se todos muito parecidos e, pior, insossos. Falta o talento de um bom artesão, que dirija menos para a bilheteria e mais pelo prazer.

Tudo começou com “A Supremacia Bourne”

— Quem deu o tiro de misericórdia nos filmes de ação foi Paul Greengrass, ao dirigir “A Supremacia ourne”, em 2004. Ele associou ação e realismo, ligou uma aventura escapista a discussões políticas e sociais — diz o carioca Vicente Amorim, que, em 1992, foi assistente de direção da produção americana “Kickboxer 3”, com Sasha Mitchell, um pseudo-Van Damme. — A gente já não levava o filme a sério, mesmo trabalhando com seriedade, pois vimos que não passava de um veículo para Sasha exercitar socos e pontapés.

Produtor de “Besouro” (2009), um filme de artes marciais brasileiro, e diretor do aguardado thriller “Corações sujos”, Amorim diz que a adrenalina em Greengrass faz mais do que anestesiar o público:

— Quem só quer ver porrada vai se satisfazer com o Bourne de Greengrass. E quem quer alguma coisa a mais vai ter ali um estilo quase documental de filmar, que influenciou até o novo 007. Os dois últimos filmes de James Bond, com Daniel Craig, trocaram a mirabolância por elementos mais realistas.

Mas nem Greengrass é infalível. Seu último trabalho, “Zona Verde”, filmado com Matt Damon e lançado aqui em abril, foi um fracasso, mesmo seguindo a estética da série “Bourne”: custou US$ 100 milhões e faturou apenas US$ 35 milhões. Resultados semelhantes tiveram “Miami vice” (2006) e “Inimigos Públicos” (2009), longas recentes de Michael Mann, cineasta definido pela crítica como um midas da ação.

— Falamos de Bourne, mas a gente esquece que, na TV, Jack Bauer, na série “24 horas”, também redefiniu a ação, salvando o mundo com um revólver e um celular — lembra Lopes Amaral. — Quem criou o cinema de ação como a gente conhece foi Hitchcock. Se James Bond é um sucesso, ele deve muito a “Intriga internacional”. O próprio “Bourne” remonta a “O Homem Errado”, que Hitchcock rodou com Henry Fonda. O que aconteceu nos anos 80 é que houve um grande diretor, hoje menosprezado, chamado John McTiernan, que importou para os filmes de ação um princípio hitchcockiano: a claustrofobia. Tanto o primeiro “Duro de matar” quanto “A Caçada ao Outubro Vermelho” confinavam a gente a espaços fechados que se agigantavam nas telonas dos extintos cinemões de rua. Hoje o cinema foi para os shoppings, e esses espetáculos feneceram. (Ag. O Globo)

Comentários Recentes

  • Iury disse: Comentário postado em 17/07 Sábado às 11:01h "Adorei a matéria, realmente acho que o gênero de Ação perdeu sua idêntidade, principalmente por ter perdido seus ícones. Hoje temos que nos contentar em ver Heróis como Sam Worthingon e Shia Labeoulf, que não sabem brigar, não tem músculos e não chamam a atênção de ninguem, são ofuscados pela tecnologia, grande parte da culpa é dos diretores que esqueceram o que realmente é ação."
  • João disse: Comentário postado em 04/07 Domingo às 10:37h "Bourne é "The best!""
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