Terça-feira, 22/06/2010, 09h16
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega hoje ao Pará e logo pela manhã será recebido em Altamira, sob protestos dos movimentos sociais e do grupo de indígenas que prometem radicalizar a manifestação contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte.
Às 5h de ontem, centenas de representantes de entidades da região do Xingu, interditaram a BR-230, mais conhecida como Rodovia Transamazônica, no trecho entre Altamira e Vitória do Xingu, os dois municípios que serão mais atingidos pela obra da usina, planejada para gerar 11.233 MW de energia em potência máxima.
Os manifestantes protestaram contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte e a demora do governo federal em asfaltar a rodovia, que já completou 30 anos, mas a maior parte continua sem pavimentação. Apesar de impedir o tráfego dos veículos na rodovia, a manifestação foi pacífica e houve vários momentos em que os manifestantes aceitaram desobstruir o local para que veículos como ônibus, carretas e carros particulares pudessem passar, principalmente por causa de doentes que precisavam ser transportados para o hospital de Altamira.
O presidente Lula vem a Altamira para lançar os projetos de asfaltamento da Transamazônica, o programa Luz para Todos e a usina de Belo Monte. Mas, além de movimentos contrários à usina, também será recebido por grupos pró-Belo Monte, principalmente os comerciantes e empresários da região. O evento será realizado no estádio municipal da cidade, mas os integrantes dos movimentos sociais vão se reunir logo cedo, desta vez se concentrarão na Praça do Matias, em frente ao cais da cidade, localizada às margens do Xingu.
Em toda a cidade, inúmeras faixas estão expostas dando apoio à visita do presidente e à hidrelétrica. A população se divide entre apoio à obra e contra o que eles chamam de belo monstro. No Km 18 da Transamazônica, onde os manifestantes se reuniram para protestar, os inspetores da Polícia Rodoviária Federal tiveram que negociar a passagem de veículos coletivos e os que transportavam doentes para os hospitais. A interdição prosseguiu até as 18 horas.
“Repudiamos a visita do presidente Lula a Altamira. Essa visita é uma afronta ao povo do Xingu, que depois de 20 anos lutando contra esse projeto maléfico para os agricultores, ribeirinhos e povos indígenas, o presidente de forma arbitrária e provocante vem aqui nos empurrar esse monstro que é Belo Monte”, afirmou a coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre, Antônia Melo.
Franciléa Nogueira da Costa, 51, vive de plantar cacau, milho, feijão e arroz em uma área de 2 hectares de terras na Volta Grande do Xingu. Ela conta que trabalha na roça desde os oito anos e que não sabe o que fazer se for mesmo obrigada a sair do lugar onde nasceu e vive até hoje. “A gente vive feliz aqui. Tem água, terra para plantar e tá todo mundo adaptado à roça. Não sei o que fazer com essa indenização. Eu não quero dinheiro, quero permanecer onde é meu lugar”, lamenta a agricultora, que durante o protesto na Transamazônica se responsabilizou em preparar a alimentação de crianças e adultos.
Do outro lado da rodovia, inúmeros veículos esperavam pacientes pela desobstrução. O caminhoneiro Wilson da Silva, contou que transportava uma carga de carne de Belém para Altamira, chegou às 6h no local do protesto e até às 10 h não conseguia passar.
Já o agricultor Romant Pereira, é uma das pessoas pessimistas quanto ao êxito das manifestações. Ele preferiu não se juntar ao grupo, achando que é perda de tempo. “Não adianta nada disso. Tudo já foi decidido lá em Brasília. O povo daqui não tem direito à voz”.
REIVINDICAÇÕES
Um grupo de indígenas de diversas aldeias às margens do rio Xingu vai tentar entregar ao presidente Lula um documento, contendo uma lista de reivindicações, que serão uma espécie de condicionantes para que apoiem a construção de Belo Monte. Os indígenas se reuniram ontem na sede da Funai, em Altamira, para elaborar o documento. Os líderes indígenas alegam que até hoje não têm conhecimento sobre o projeto de Belo Monte e que as audiências realizadas não esclareceram nada. “Até hoje a gente não sabe até que ponto as aldeias serão afetadas. Como a inundação da barragem vai atingir nossa área”, afirma o líder Raimundo Guruté. (Diário do Pará)
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