Domingo, 16/05/2010, 09h02
Estudo atesta que em sete anos pelo menos 500 jovens irão morrer
Entre o café da manhã e o almoço deste domingo, um jovem terá participação em algum ato de violência na Região Metropolitana de Belém. Na maioria dos casos, vítima de assassinato, mas também participando de roubos, assaltos e sequestros ou agindo como homicida. Um levantamento feito pelo DIÁRIO nas páginas do caderno de Polícia apenas no mês de abril mostra que aproximadamente 55 jovens foram assassinados na RMB e que outros 70 tiveram participação em algum tipo de crime. Pelo menos 25 cometeram um homicídio no mês passado.
É uma violência que já se ‘entranhou’ no cotidiano da cidade. Em fevereiro, quando o Índice de Violência Juvenil foi divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Ministério da Justiça, Belém era uma das cidades de maior risco para adolescentes e jovens. Belém ficou em segundo lugar entre as capitais onde ser jovem é estar mais próximo da morte. Na ocasião, o estudo estimou que nos próximos sete anos, pelo menos 500 mortes de jovens são esperadas na cidade. “Aqui, pelo menos 90% dos crimes, como assassinatos e roubos envolvem adolescentes”, diz uma delegada.
No início de abril, Belém viveu uma guerra. Era um morto a cada duas horas. Gente como Erick Góes, 20 anos, morador do Distrito Industrial, morto com dois tiros. A mulher dele é intimidada a não falar nada.
Na Cabanagem, Josiel da Silva, 21 anos e Cláudio Guilherme, 22, trocam tiros com a polícia. Morrem na hora. No Marco, Jefferson dos Santos, 16 anos, é executado com dois tiros por desconhecidos. No bairro de Fátima, Marcelo Brito, 20 anos, recebe quatro tiros. Ambos são assassinados na rua.
No Distrito Industrial, Denis Felipe, de 14 anos, dorme no sofá da sala. A casa dele é invadida e ele é executado ali mesmo, com vários tiros. No Tapanã, o assaltante Darlison, é perseguido por desafetos. Cai, levanta e se benze antes de receber três tiros num acerto de contas que não aceita trégua ou perdão. “Eu tentei tirar ele dessa vida, mas ele não quis”, diz a mãe, Regina Rodrigues.
Os pais perdem os filhos. A troco de nada. Na última sexta-feira, de madrugada, João Carlos Assis, teve de ir até uma delegacia na Cidade Nova. O filho Adailson, 16 anos, havia sido morto com um tiro na cabeça. Outro na costela. “Eu estava deitado quando me avisaram. É muito sofrimento pra um pai”, desabafava.
70% dos presos do Pará são jovens
Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Pará (SEGUP), cerca de 70% da população carcerária do Estado é composta por jovens entre 17 a 20 anos. Isso quer dizer que Belém está perdendo a guerra. E as maiores vítimas são os jovens. “Não há política pública para os jovens. Por isso eles só aparecem como estatísticas de crimes”, diz a jornalista cultural Márcia Carvalho.
O sociólogo Jaime Luís Cunha diz que a violência que temos hoje expressa em grande medida o tipo de sociedade em que vivemos. “Uma sociedade que ao mesmo tempo em que criou novas formas de colocar as pessoas em contato, por intermédio dos meios de comunicação e mais recentemente pela tecnologia informacional, também pulverizou as referências éticas e morais que exerciam um certo controle sobre o comportamento das pessoas e sobre a violência, a qual passou a estar difusa e acessível a qualquer um”, diz ele.
Segundo Cunha, as pessoas eram cobradas para que situassem seu comportamento dentro de parâmetros minimamente aceitáveis socialmente. “As referências eram sociais, ou seja, eram construídas e cultivadas socialmente. O respeito e a autoridade, antes de serem execrados e depreciados como valores retrógrados, formavam a base desse sistema de controle social informal que impunha certos limites aos desregramentos comportamentais”, avalia.
“Essa corrosão dos controles sociais informais, e principalmente com a diminuição drástica da importância da cobrança dos parentes, dos amigos, dos vizinhos, dos familiares, dos professores e até mesmo dos estranhos, e sua substituição por uma noção de que se tem muitos direitos mas que ao mesmo tempo não se reconhece nenhum dever, fez com que o recurso à violência de forma indiscriminada, e sem nenhum limite, se transformasse a forma preferencial de as pessoas se relacionarem com o mundo e com as pessoas”, complementa o sociólogo.
A violência assusta pela banalidade. Crianças são expostas a ela até quando não estão diretamente envolvidas. É só observar as fotos nos cadernos de Polícia. A quantidade de crianças curiosas olhando cadáveres impressiona. “Eu evito olhar de forma demorada”, diz a repórter policial Bruna Lima. “As imagens acabam grudando na minha cabeça”.
Para a polícia o efeito parece ser diferente. Depois de uma troca de tiros com um grupo de quatro jovens que assaltou uma churrascaria no Umarizal, os policiais pareciam tranquilos. “Já me acostumei. No começo tinha medo das balas zunindo. Eu era novinho. Hoje depois de algo assim, eu chego em casa ‘light’. Fico estressado é quando não prendo ninguém”, diz um cabo da PM em frente à Seccional do Comércio.
“A violência entre os jovens é também consequência da desestruturação da educação familiar e também da mídia. Dá a impressão de que se tem liberdade para tudo, que não há limites”, avalia o antropólogo Petrônio Potiguar.
Histórias que se repetem em roteiro violento cotidiano
Marcus Paulo Gaia, 19 anos, está numa praça na Marambaia. Tenta escapar de quem o persegue. Não consegue. É esfaqueado e morre. “Minha vida acabou também”, chora a mãe. Gaia poderia ser jogador de futebol. Era sub-20 do Remo.
“Meu filho querido, meu filho querido”, murmura a mãe de Everton Sampaio, 19 anos, na rua Santa Fé, em Ananindeua. Três tiros mataram o adolescente.
Na Pedreira, Rafael Ferreira, 19 anos, agoniza. “Me acudam, por favor”, suplica. Não adianta. Os tiros são fatais. A mãe de Edielson dos Santos, 24 anos, tenta se conformar. “Eu sabia que isso ia acontecer’, diz Maria da Conceição Dias. Edielson tentara assaltar uma van. Levou um tiro de um dos ocupantes do veículo.
A prisão de Davison Correa, 21 anos, espanta. Conhecido por ‘Abacate’, ele é acusado de ter cometido 19 homicídios. A morte de Franklin Leitão, 20 anos, também impressiona. Foram 29 facadas dadas por um grupo de adolescentes num acerto de contas, na Marambaia.
Na Delegacia da Cidade Nova, R. N., 18 anos, sorri ao ser fotografado. Havia sido preso por porte ilegal de arma. Estava com um Taurus 38, quando foi abordado pela polícia. No braço direito a tatuagem resumia a própria filosofia de vida: ‘vida loka’. “É a vida que eu levo”, disse, antes de ser levado à cela. (Diário do Pará)
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