Quarta-feira, 12/05/2010, 09h42
Artista plástico abre hoje instalação em que define o tecnobrega como tortura aos ouvidos
Gosto não se discute e ponto. Sobre música, então, adentra-se na perigosa e íntima seara dos sons que tocam os ouvidos. E é aí que reside boa parte da polêmica sobre “gostar ou não” do tecnobrega. Declaradamente contra o ritmo, por considerá-lo “pequeno”, o artista plástico Jocatos abre hoje a exposição “Poltrona para Assistir a Máquina do Som!... Toque, Meus Discos...”, no Museu Casa das Onze Janelas, em que pretende incomodar quem ouve e quem produz esse tipo de música.
Morador do bairro do Guamá, Jocatos acorda diariamente ao som de carros com equipamentos sonoros no mais alto volume e que anunciam as festas de celebração ao brega com batidas tecno. E não gosta nem um pouco disso. Além do incômodo despertar cotidiano, ele fica inquieto com o momento em que o tecnobrega se encontra, com superexposição midiática. Para ele, isso acaba resultando na incompreensão quando ao real valor das músicas.
“É uma cultura pequena. É um tipo de diversão que junta marginalidade. Essa é a minha opinião”, declara.
Polêmicas à parte, é basicamente esse incômodo que ele mostra na exposição “Poltrona para Assistir a Máquina do Som!... Toque, meus discos”. “É uma maneira de dizer para as pessoas: ‘Ei, se toque para este tipo de música’. Música também é estudo, mas hoje é só apertar o botão”, dispara.
Para conseguir mostrar seu desconforto com a sonoridade paraense e desconfortar os visitantes, Jocatos montou um cenário pouco convidativo e irônico. Entre os vinis que foram usados como suporte para exibir gravuras, está uma cadeira de tortura, “uma piniqueira”, como ele define.
O artista buscou ainda outras fontes para compor o cenário satírico – para além das tradicionais gravuras – com referências da literatura. Perto da poltrona existe uma gravação em áudio de um trecho do romance “Confissões de Ralfo (uma autobiografia imaginária)”, de Sérgio Sant’Anna, em que o autor escreve sobre o período dos “anos de chumbo”. A escolha do trecho foi intencionalmente feita para casar com a ideia da poltrona, da musica tecnobrega e da “ditadura da informação”. “Alguém tem que falar, focar contra essa música que a mídia impõe”, diz.
Para a curadora da exposição, Marisa Mokarzel, o artista – que desenvolve pesquisas sistemáticas sobre suportes e materiais para impressões de gravura em metal e xilogravura (como caixas de feira e latas de manteiga) – agora “vem desenvolvendo projetos experimentais que expandem a concepção desta tradicional categoria de arte”. Desta vez, a exposição conta com 21 gravuras em discos de vinil e CD.
Marisa Mokarzel observa que “a poltrona criada por Jocatos cercada pelos discos de vinil, assume este estado experimental entrecortado de sarcasmo, no qual um personagem imaginário sofre a tortura de um disparato interrogatório que o artista atualiza, deixando-nos refletir sobre uma contemporaneidade muitas vezes absurda, constituída por valores díspares que nos desestabilizam e podem gerar instáveis caminhos”.
IDEIA
O começo do trabalho que envolve artes plásticas e música teve início durante uma visita ao ”Engenho de Cachaça Pacheco”, em Abaetetuba, quando Jocatos viu em cima de uma antiga máquina de costura, uma caixa de som bem rudimentar. A visualização daquela inusitada cena gerou a seguinte constatação: “Eis a máquina de som”. E assim, como toda a engrenagem da máquina de costura e do som, fervilharam metáforas e intertexos artísticos para a consolidação da instalação que será apresentada hoje.
A exposição é resultado do Edital Prêmio Secult de Artes Visuais 2009/2010, da Secretaria do Estado de Cultura (Secult), Sistema Integrado de Museus e Memoriais (SIM) e Museu da Casa das Onze Janelas.
SERVIÇO
Abertura da exposição “Poltrona para Assistir a Máquina do Som!... Toque, Meus Discos...”, hoje, às 19h30, na Sala Gratuliano Bibas. A exposição ficará até o dia 13/06 na Sala Valdir Sarubbi, também no Museu Casa das Onze Janelas, com visitação de terça a domingo, das 10h às 16h. Entrada franca.
OUTROS PROJETOS SELECIONADOS
“Razões do Corpo”, de Elieni Tenório
“A Pele do Invisível”, de Pablo Mufarrej e Ricardo Macêdo
“Mais Rapidamente para o Paraíso”, de Luciana Magno
“Margem”, de Marconi Moreira
“Antes de Ver, Reveja”, de Nailana Thiely
“Revanche”, de Laerte Ramos
“Obrigação do Horizonte 2”, de Bruno Vieira
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