Quarta-feira, 12/05/2010, 09h40
Polêmica, insatisfação e a quase total ausência de Hollywood marcam a 63ª edição do festival
Há dois anos, já ocorrera um fenômeno parecido com o da semana passada e outra ressaca produziu uma onda que invadiu a Croisette, destruindo parcialmente a decoração do festival que começa hoje. Houve alarme. O pequeno tsunami colocaria em risco a 63ª edição do maior evento de cinema do mundo? Um comunicado dos organizadores colocou fim às especulações. O Festival de Cannes de 2010 estava assegurado e hoje estende o tapete vermelho para a première mundial de Robin Hood. O épico de Ridley Scott com Russell Crowe no papel do herói - e Cate Blanchett como Lady Marian - estreia simultaneamente nos EUA e na Europa. Em Paris, os ingressos vendidos com antecedência autorizam a expectativa de um grande êxito. No Brasil, o filme entra em cartaz na sexta (14).
O pequeno tsunami causou estragos superficiais, mas, segundo os comentários de bastidores, outro tsunami, muito maior, agita os bastidores de Cannes. Os patrocinadores não estão nada satisfeitos com a seleção do diretor artístico Thierry Frémaux. Nunca o tapete vermelho de Cannes foi tão “alternativo”, pelo menos nos últimos anos.
A seleção oficial reduziu ao mínimo a participação dos EUA na competição. Os suspeitos de sempre - Woody Allen e Oliver Stone, entre outros - vão animar as sessões especiais, mas com reduzidos astros e estrelas de Hollywood participando da competição, o brilho e o glamour das sessões de gala estão ameaçados. Cannes é um grande evento midiático, é como uma Copa do Mundo sem Ronaldo nem Ronaldinho.
Thierry Frémaux está tranquilo. Diz que a seleção de 2010 põe na disputa pela Palma de Ouro o que de mais importante foi oferecido, ou pôde ser garimpado, entre as centenas de títulos oferecidos, de todos os lugares do mundo. França, Itália e Alemanha vão representar a Europa, Coreia e China garantem a representação asiática e a América Latina envia à Croisette uma de suas estrelas - o mexicano Alejandro González- Iñárritu, que mais uma vez concorre à Palma de Ouro, agora com “Biutiful”. Na verdade, tudo não passa de conjeturas - o festival ainda nem começou, mas a Croisette já fervilhava ontem, como poucas vezes se viu.
POLÊMICA
A dose de polêmica já está garantida, por antecipação. O governo da Itália, leia-se o primeiro- ministro Silvio Berlusconi, já fez saber que a seleção de 2010 ofende o povo italiano por haver escolhido o novo documentário de Sabina Guzzanti. “Draquilla, L’Italia Che Trembla”, usa o tremor de terra que atingiu a cidade de Aqui la, no centro da Itália, no ano passado, para mostrar que o verdadeiro terremoto que aflige o país é a corrupção política que floresce sob os auspícios de Berlusconi. Sabina é polemista profissional, como sabem os espectadores que viram “Viva Zapatero!”, de 2005.
Polêmica, insatisfação, muito espaço para o cinema alternativo à dominação de Hollywood, tal parece ser o perfil do 63.º festival. Pela primeira vez, um filme do Chad, país da região central da África, faz história participando da competição - “L’Homme Qui Cri”, de Lahamat Saleh Haroun. Três vencedores da Palma, Abbas Kiarostami, com “Copie Conforme”, Mike Leigh, com “Another Year”, e Ken Loach, que concorre com “Route Irish”, escalado de última hora, e já ganhou em 2006, tentam bisar o prêmio que receberam, respectivamente, por “Gosto de Cereja”, “Segredos e Mentiras” e “The Wind that Shakes the Barley”.
O russo Nikita Mikhalkov traz uma sequência, “O Sol Enganador 2 - Exodus”, 16 anos depois que o original perdeu a Palma para o Quentin Tarantino de “Tempo de Violência” (“Pulp Fiction”), que em 2001 presidia o júri que atribuiu prêmio especial a “Mal dos Trópicos”, de Apichatpong Weerasethakul.
Tarantino, explicando o prêmio, disse que Weerasethakul era a grande reserva de seu júri. Nem todo mundo gostava de seu filme, mas quem gostava fez barulho. Ele volta com “Uncle Boon Who Can Recall His Past Lives”. “Cahiers du Cinéma” já dedicou páginas e páginas à filmagem, mas a revista é pé-frio. Tradicionalmente, suas apostas caem no vazio.
As seções paralelas prometem. Um Certain Regard parece mais atraente que a própria competição, com novos filmes de Manoel de Oliveira (“O Estranho Caso de Angélica”), Jean-Luc Godard (“Film Socialisme”), Jia Zhang-ke (“I Wish I Knew”), Lodge Kerrigan (“Rebeccah, Return to the Dogs”) e Pablo Trapero (“Carancho”). Cannes Classics vai mostrar as versões restauradas de “Tristana”, de Luis Buñuel - em presença de Catherine Deneuve -; “Boudu Salvo das Águas”, de Jean Renoir, acrescido de uma cena cortada na época; “Uma Aventura na África”, de John Huston; “Psicose”, de Alfred Hitchcock; “La Bataille Du Rail”, de René Clément; e “O Leopardo”, de Luchino Visconti. Até dia 23, Cannes será a principal vitrine do cinema no mundo.
>> Cannes e a presença brasileira
Em 1985, “O Beijo da Mulher Aranha”, que Hector Babenco adaptou do romance de Manuel Puig, valeu a William Hurt o prêmio de melhor ator em Cannes. No ano seguinte, o ator recebeu o Oscar da Academia de Hollywood. “O Beijo” completa 25 anos e Cannes festeja a data exibindo a versão restaurada do cult de Babenco na mostra Cannes Classics. É o Eldorado dos cinéfilos. Só obras-primas restauradas. O festival promete a presença da equipe, Babenco incluído, na exibição do filme.
Aqui começa a participação brasileira em Cannes, neste ano. Nenhum filme brasileiro vai disputar a Palma de Ouro, mas Cacá Diegues, além de jurado da Cinéfondation, veste-se de gala com a turma jovem de “Cinco Vezes Favela” (“Agora Por Nós Mesmos”), a nova versão do filme dos anos 1960, peça importante na deflagração do Cinema Novo. “Cinco Vezes Favela” ganha sessão especial. Agora, são os jovens da favela que contam suas histórias para o público mais cosmopolita do mundo - Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cacau Barcelos, Luciana Bezerra e Nana Carneiro (quatro deles assinam dois episódios, conjuntamente
A Quinzena dos Realizadores possui a fama de ser a seção ‘ousada’, pela experimentação da linguagem, de Cannes. É nela que Marina Melchiade e Felipe Bragança vão apresentar seu longa “A Alegria”. O próprio selecionador da Quinzena, Frédéric Boyer, anuncia seu coup de coeur da programação - “La Casa Muda”, um primeiro filme uruguaio assustador. Na Semana da Crítica, um curta brasileiro, “A Distração de Ivan”, de Cavi Borges e Gustavo Melo, participa da competição. Mesmo sem Palma de Ouro, o Brasil terá seus momentos na Croisette, em 2010. (AE)
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