Quinta-feira, 06/05/2010, 11h32
Lantejoulas que brilham por entre quatro pernas e brincantes em volta de um astro principal, que não lembra em nada o ser humano. Manifestação folclórica encontrada em diversos Estados do Brasil, e até mesmo em outros países, o Boi-Bumbá pode ser visto em mais da metade dos municípios paraenses. É no mês de junho que é feita a maioria das apresentações em terras papa-chibés desde a sua formação original. Aliás, talvez seja essa a palavra perfeita para definir a variação deste movimento cultural no Pará, que conseguiu fugir à regra e inventar o Boi-Tinga, conhecido também como boi de orquestra ou boi de duas pernas.
É provável que a trama venha das histórias nascidas com o ciclo do gado, em meados do século XVII, quando a vida girava em torno da criação do boi. Conta-se que na cidade de Belém da segunda metade do século XIX, o Boi-Bumbá reunia negros escravos em um folguedo que misturava, ao ritmo forte, a representação de um motivo surpreendente para a época: a luta de classes dentro da sociedade colonial. Por conta disso, o boi acabou tornando-se uma das manifestações mais autênticas da cultura paraense.
O enredo é quase sempre o mesmo. Um boi foi comprado para a festa de aniversário da esposa do fazendeiro. Quando o animal chega, o feitor recebe a ordem para tratá-lo bem. Ao lado dessa fazenda morava uma família composta por Francisco, sua mulher Catarina, seu compadre Casumba e sua mãe Guiomar. Catarina, grávida, deseja comer língua ou coração de um boi. Pai “Chico” então resolveu procurar um e matou o primeiro que encontrou. Só que, antes que Catarina realizasse seu desejo, aparece o dono do boi falando que o bicho era de estimação e que desejava seu boi vivo. A partir daí todos saem à procura de um pajé para ressuscitar o boi, que consegue viver novamente por conta do curandeiro.
Maria da Glória resolveu criar um boi, o Brilho da Noite, há nove anos, no bairro da Cabanagem. “Eu comecei a brincar com a minha família, é uma forma de se divertir pra gente. O boi já existia e eu investi nele. Hoje possui cerca de 40 brincantes do bairro. Sempre tive contato com o boi-bumbá desde criança. É uma tradição passada de pai para filho no meu meio”, ressaltou.
Boi-Tinga: tipicamente paraense
José Guilherme dos Santos Fernandes oferece a sua contribuição sobre as pesquisas do boi no Estado com “O boi de máscaras: festa trabalho e memória na cultura popular do Boi-Tinga de São Caetano de Odivelas, Pará”. A obra é o resultado da sua tese de doutorado em Literatura Brasileira, defendida no ano de 2004, na Universidade Federal da Paraíba, e publicada pela Editora da Universidade Federal do Pará.
De acordo com a sua pesquisa, o Boi-Tinga, que completa 73 anos em 2010, não é só o mais antigo em atividade no município de São Caetano de Odivelas, mas é também o único que se mantém regularmente e que não deixou de sair às ruas em nenhum ano, como acontece frequentemente com outros bois. E, como costuma acontecer com muitas manifestações populares, ele igualmente deixou de ser apenas uma tradição de família para se tornar tradição de uma comunidade. Além disso, possui influências até mesmo europeias em suas apresentações.
Tamanha popularidade influenciou Maria do Socorro Correa, que há 16 anos criou o Boi Veludinho, no bairro do Guamá. “Tive a ideia após a criação do ‘Rei do Campo’, o boi de máscara voltado pra adultos, há 20 anos, em São Caetano de Odivelas. A família do meu marido é de lá e por isso resolvemos criar um parecido em Belém. O Veludinho é diferente porque mistura criança com adulto. É uma espécie de preparação pro ‘Rei do Campo’. Hoje em dia não abrange só pessoas do bairro, tem gente do Tapanã e Telégrafo. O nosso boi se apresenta o ano todo, em qualquer época. Significa muito pra mim, as crianças gostam da brincadeira. É um incentivo para não ficarem na rua à mercê da violência”.
“O nosso Boi-Bumbá e parecido com os demais, mas o Boi-Tinga é genuinamente paraense. Este último é uma festividade. Reza a lenda que tem a sua origem através de pescadores de São Caetano de Odivelas que acharam uma cabeça de boi. Eles a trouxeram da pesca e fizeram as fantasias com pedaços de pano e toalhas. Atualmente, caracteriza-se pela orquestra e pelos cabeções. Independente do tipo de boi, estes são patrimônios culturais do Pará e por isso devem ser olhados com carinho e cultuados pelo nosso povo”, ressaltou o diretor de Cultura da Secretaria de Estado de Cultura do Pará (Secult).
Por que se orgulhar?
O Boi-Bumbá e o Boi-Tinga são manifestações fortes do Pará e por isso fazem parte do nosso patrimônio cultural. Porém, o último merece destaque por ser o único da região. É original e genuinamente paraense.
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