Segunda-feira, 03/05/2010, 09h55
Marina Monarcha sempre teve o sonho de cantar e conquistou o que queria, com muito louvor, diga-se de passagem. Ao longo de seus quase 77 anos de vida, colecionou apresentações memoráveis, reconhecimento, homenagens e premiações. Mas, na verdade, essa exímia professora de canto lírico, uma das mais importante na história da música erudita paraense, sempre vai achar que está faltando alguma coisa. Isso porque, após chegar aonde sempre desejou, ela passou a acreditar e a realizar o sonho dos outros. Assim descobriu e aprimorou talentos hoje respeitados e, ao longo das décadas de 70 e 80, foi uma das maiores incentivadoras do canto lírico no Estado.
Esse é o resumo da importância dessa jovem senhora de jeito simpático e tranquilo, mas que em poucos minutos de conversa mostra toda a sua inquietação musical, qualidade típica dos grandes artistas. A maior inquietação dela, a propósito, é fazer e disseminar a música.
Mas vamos começar do início e voltar à Belém dos anos 30, quando a menina Monarcha adorava participar da reuniões de família, onde todos cantavam e tocavam instrumentos musicais, sobretudo nos natais e outras datas especiais. “Era tradicional na minha família o canto pastoril. Meu pai, João Monarcha, tocava violino e os demais também encenavam as músicas”, lembra Marina. Numa turma animada como esta, era impossível não ser contaminada pelo vírus da arte, que costumava naquele tempo dividir os Monarcha entre músicos e advogados. Eles tinham um cartório de registros e o objetivo sempre foi mantê-lo por gerações de seus descendentes. “Por muito tempo dividi as duas tarefas, mas acabei optando pela música, a minha maior paixão”, conta Marina Monarcha, que durante grande parte de sua vida foi escrevente do cartório, antes de decidir estudar música e se profissionalizar.
Aliás, uma das maiores inspirações de Marina foi uma de suas tias paternas. Judith Monarcha era seu nome. Assim como o maestro Waldemar Henrique, ela foi aplicada aluna do também maestro, de origem italiana e apaixonado pela música paraense, Ettore Bósio. Quando o maestro e compositor carioca Heitor Villa-Lobos enviou ao Pará a pianista e atriz Margarida Schivasappa, entre os anos 40 e 50, para implantar o ensino do Canto Orfeônico nas escolas públicas, Judith foi ser secretária dela, tamanha era seu envolvimento com a arte musical. Por ironia do destino, hoje Marina Monarcha ocupa na Academia Paraense de Música a cadeira que foi de Margarida Schivasappa, a mestra de sua tia.
Já na juventude, Marina se apresentava a partir do apredizado de canto lírico e piano adquirido informalmente com a família, sobretudo com Judith. Quando foi trabalhar no cartório, onde permanceu até 1982, era comum ela levar as roupas dos espetáculos na bolsa. Ao final do expediente, saía às pressas, quase pronta, para soltar a voz no Theatro da Paz.
Estudou canto e foi professora no Conservatório Carlos Gomes, além de integrante do movimento musical que deu origem à Escola de Música da Universidade Federal do Pará (EMUFPA), no início dos anos 70, onde também deu aulas de canto até se aposentar no fim da década de 1990. Aliás, o ingresso efetivo de Marina Monarcha no ensino da música marcou o seu trabalho pela valorização do canto no Pará. Organizou recitais, apresentações de ópera e das famosas “Noites de Canto Lírico”, dentro do Festival de Música da UFPA, nos anos 80. Nas óperas, contava com o apoio do professor Paulo Santana na preparação dos atores e de Clara Pinto nos balés, enquanto isso ela se dedicava à parte musical dos eventos.
Ao longo de sua carreira e, principalmente, nos tempos em que foi mestra no Conservatório Carlos Gomes e na Escola de Música da UFPA -durante um bom tempo foi a única professora de canto dessas duas instituições -, descobriu centenas de talentos musicais. São paraenses que hoje se destacam na música nacional e internacional, como as cantoras Alba de Oliveira, Adriana Queiroz, solista do Teatro de Ópera de Berlim; Patrícia de Oliveira, Dione Colares e Helena Leão; além dos cantores Ossiandro Brito, Reginaldo Pinheiro, hoje professor de canto numa universidade da Alemanha; e o regente Vanildo Monteiro, fundador do Coral Marina Monarcha. “Trabalhei muito para descobrir talentos porque vi que o Pará era celeiro deles”, comemora a artista. De tanto procurar talentos, ela ganhou um presente divino: sua filha Carmen Monarcha é hoje uma das maiores vozes brasileiras na música lírica mundial.
No início da década de 80, ela fez Mestrado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (foi a primeira aluna paraense a ganhar uma bolsa do governo federal para estudar música fora do estado), onde também deu aulas como professora substituta por dois anos. Atualmente, Marina está em São Paulo, onde mora há dez anos e de onde acompanha a carreira da filha radicada na Holanda. Está fora dos palcos, mas sua colaboração inestimável para a música lírica do Pará nunca vai cessar. Será eterna.
Grato à mestra que o incentivou a cantar, o regente Vanildo Monteiro resolveu criar, há 12 anos, o Coral Marina Monarcha. Ligado à Escola de Música da UFPA, ele é formado por cerca de 50 integrantes, entre homens e mulheres de diversas faixas etárias e de vozes entre soprano, contralto, tenor e baixo. São tradicionais suas apresentações natalinas e durante festas populares como o Círio de Nazaré.
Um das atuações memoráveis do Coral Marina Monarcha foi a participação do CD ‘Um Réquiem para Waldemar’ (2005), em comemoração aos dez anos da morte do maestro; e de oito DVDs, projetos esses da Secretaria de Estado de Cultura, além de atuar em pelo menos 14 óperas de festivais realizados no Theatro da Paz, com destaque para Macbeth, A Viúva Alegre, A Flauta Mágica, Carmen, O Barbeiro de Sevilha, Madame Butterfly, Bug-Jargal, entre outras.
Por que se orgulhar?
Marina Monarcha é professora de canto lírico, responsável pelo descobrimento de gerações de cantores talentosos que hoje levam o nome do Pará para o Brasil e para o mundo. Foi também uma das grandes -quiçá a maior - incentivadoras dessa arte no Estado entre os anos 70 e 80, e em muito colaborou para a valorização da nossa cultura. Hoje, um dos mais importantes corais paraense leva seu nome, como homenagem ao seu trabalho.
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