Terça-feira, 20/04/2010, 08h39
O ano era 1998 e Makiko Akao precisava entregar a antiga locação do Bar 3x4, que ficava na Praça Coaracy Nunes, em Batista Campos, e que durante bons anos das décadas de 80 e 90 reuniu fotógrafos, artistas plásticos, atores e diretores de teatro. Chegava a hora de encontrar outro espaço para alojar um novo projeto, em parceria com Miguel Chikaoka: a agência de fotografias Kamara Kó. Juntos, passaram a visitar algumas casas. Um ano se passou e nada. E olha que eles procuraram, visitaram residências por quase toda Belém. E foi na Campina, um bairro espremido entre Nazaré e Batista Campos, ali pertinho do comércio, que eles encontraram a casa que até hoje é sede da agência. Na travessa Frutuoso Guimarães, um casarão antigo e abandonado foi a melhor opção de espaço para o projeto.
O que para muitos poderia significar dor de cabeça, com um sem-número de reparos e consertos a serem feitos, para Makiko foi a constatação de que não haveria lugar melhor. “Quando fui ver a casa, amei!”, relembra ela, cheia de entusiasmo. “Apesar de ter ficado muito tempo fechada e ter perdido um pouco de vida, decidimos comprá-la”. Foi necessário mais um tempinho para as reformas estruturais. A instalação da Kamara Kó acabou ocorrendo de fato no ano seguinte.
O clima de bairro pequeno, de pessoas que sentam na porta de casa, que se conhecem e se chamam pelo nome, foi tão acolhedor que na mesma rua ela encontrou outro imóvel para fixar sua residência. Miguel Chikaoka também foi morar lá. É comum vê-lo pedalando sua bicicleta pelas ruas estreitas da Campina e Makiko indo para algum lugar perto dali sem precisar tirar o carro da garagem. “É perto de tudo, e dá pra fazer muitas coisas a pé”, diz.
Makiko e Miguel foram os primeiros, entre pessoas envolvidas com arte em Belém, a se mudarem para o bairro. “Depois eu comecei a perceber que vários amigos estavam vindo pra cá. Foi a Paula Sampaio, o Mariano Klautau, a Wlad Lima, o Antar Rohit, o Armando Sobral. Eu acho isso muito legal. Morar aqui é maravilhoso”, delicia-se. O casario das travessas estreitas e por vezes tortuosas não admite, no entanto, qualquer morador. É necessário apreciar um estilo de vida diferente: ser simples, sereno, boêmio e contemplar o centro histórico como parte orgânica da cidade. Regalias e luxos domésticos não devem ser prioridade, afinal, é preciso não se importar com eventuais goteiras ou dificuldades para instalar um ar condicionado, só para citar alguns exemplos.
Campos Sales, Frutuoso Guimarães, Riachuelo – a conhecida Riachuelo –, Padre Prudêncio, General Gurjão, Aristides Lobo, Ferreira Cantão, entre tantas outras ruazinhas, são hoje endereço de muitos artistas, produtores culturais e pessoas ligadas à arte em Belém. Os casarões que antes ficavam fechados, reclusos no tempo e relegados ao descaso, agora já começam a ser vistos com janelas e portas abertas, e passaram a conferir um clima vivo ao bairro, antes muito soturno e desgastado.
Para Makiko, viver na Campina não tem preço. É algo que mistura sentimento e história, aconchego e conforto. “Hoje tenho um apego muito grande por este espaço. Mesmo sabendo que nesse período de chuva sempre tem uma goteira aqui, outra ali, gosto muito da minha casa, me sinto bem, confortável”, avalia.
Makiko lembra, porém, de alguns detalhes que não são motivo de alegria na Campina, e enfatiza que falta consciência entre os próprios moradores quanto à preservação patrimonial e também em relação a questões de saneamento. “Sei que nós, moradores, ainda precisamos nos conscientizar, ter mais cuidado, preservar o bairro. É esgoto a céu aberto, calçada quebrada, caminhão passando por aqui... chega a dar dó. Isso me angustia. As calçadas com pedras portuguesas quase não existem mais... é uma pena”, lamenta.(Diário do Pará)
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