Sexta-feira, 16/04/2010, 08h15
Uma das características mais fortes dos trabalhos é a diversidade de linguagens e suportes

No sangue que verte sobre o asfalto e ganha as manchetes dos cadernos policiais diariamente, o artista visual Flávio Araújo buscou inspiração para compor ‘Head Pixel’, série de pinturas que trazem a referência da fotografia para discutir a banalização da violência. O trabalho recebeu menção honrosa no Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia e integra a grande mostra em cartaz até o dia 30 deste mês, no Museu da UFPA.
Se ao público em geral causa estranhamento a escolha de um conjunto de pinturas em um prêmio voltado à linguagem fotográfica, para o curador geral do projeto, o fotógrafo Mariano Klautau Filho, a seleção do trabalho foi um processo muito natural. O impacto trazido pela qualidade da pintura e o diálogo contundente e direto com a fotografia impressionaram a comissão julgadora, composta pelo curador e os fotógrafos Cláudia Leão e Eder Chiodetto.
“‘Head Pixel’ resulta de imagens fotográficas e trabalha criticamente a fotografia aplicada ao jornalismo, ao cotidiano, à morte, ao crime. Foi extremamente tranquila e natural a seleção do trabalho”, afirma Klautau. Segundo ele, uma das características mais fortes do conjunto de trabalhos selecionados é a diversidade de linguagens e suportes. “São muitos os diálogos.”
Em uma sequência de três imagens, cores escuras dão forma a um corpo abandonado sobre o chão: rosto manchado de sangue negro e olhos escondidos por mosaicos.
Segundo Flávio, que é formado em Educação Artística, com habilitação em Artes Plásticas, pela Universidade Federal do Pará (UFPA), a intenção é provocar uma discussão sobre como se tornou trivial se deparar todos os dias com a morte nas páginas impressas.
“Venho trabalhando e pesquisando as questões da pintura há alguns anos, e nesse processo o corpo surgiu como elemento de grande interesse, principalmente em função das imagens reproduzidas nas mídias impressas e em particular aquelas que ilustram os cadernos policiais, devido ao modo direto e estranhamente trivial com que as imagens são exibidas”, explica.
Este interesse originou a série “Mil Palavras”, que ele desenvolveu ao longo de 2008, por meio da Bolsa de Pesquisa, Experimentação e Criação Artística, do Instituto de Artes do Pará (IAP). No mesmo ano, o trabalho foi mostrado ao público paraense em exposição realizada no Laboratório das Artes da Casa das Onze Janelas, e também aos paulistanos – já que com a série Flávio foi selecionado pelo Programa Rumos Artes Visuais 2008-2009 e participou da exposição “Trilhas do Desejo”, no espaço do Itaú Cultural em São Paulo.
“No fotojornalismo, a exposição das imagens é abrangente, cotidiana. Penso no trabalho artístico como uma espécie de relevo da vida comum, mas com uma nova perspectiva e densidade”, considera.
Como escreveu o artista visual Armando Queiroz, no texto de apresentação da série para o Rumos: Sangue no asfalto: tinta na superfície de PVC: eis a frase que poderia estampar, em letras garrafais, a capa de qualquer jornal sensacionalista que explora violência e morte.
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