Quarta-feira, 07/04/2010, 08h31
O primeiro mérito a ser reconhecido em “Chico Xavier’’ é o sexto sentido do público de cinema, que, como provam as bilheterias em fins de semana de estreia, tem tido boa intuição para os filmes dos quais vai gostar mais e conseguido fugir daqueles vendidos como imperdíveis ou obrigatórios -como a cinebiografia do presidente Lula, que não se mostrou nenhuma das duas coisas. E isso no mercado de filmes nacionais, em que os trailers ajudam pouco na escolha e ainda precisam encontrar seu Daniel Filho.
As reações dos espectadores durante a exibição e, especialmente, na saída dela, mostram que o contrato “você vai rir e se emocionar’’, oferecido em muitos blockbusters de primeira ou quinta categoria, é assinado aqui com honestidade.
No primeiro item, “Chico Xavier’’ é também um filme de momentos (poucos, mas precisos) muito engraçados, com ao menos duas cenas anotáveis para a antologia cinematográfica nacional: 1) aquela em que o protagonista é levado pelo pai a um bordel e 2) outra em que viaja de avião.
Na subida dos créditos do filme, uma jogada do diretor dá credibilidade a essa segunda cena (e também a outros momentos do filme). É quando aparecem relatos do próprio Xavier, em imagens antigas de TV, e aquilo que parecia meio surreal, meio danielfilhismo, se mostra praticamente documental. Então, o espectador ainda incrédulo diante de qualquer coisa produzida pela Globo Filmes, pronto para dizer que gostou da fita “apesar’’ de sua excessiva liberdade poética, leva um balde de pipoca fria na cabeça.
No campo dramático, o filme é ainda mais sincero, porque esse sentimento ali vem menos do drama mostrado em cada personagem, mas de algo que o espectador trouxe consigo. São as possibilidades que o filme levanta, ao retratar a mediunidade, que se tornam arrebatadoras para as pessoas que choram largado durante o filme e por um bom tempo depois -as lembranças das pessoas queridas que não estão mais aqui.
O filme respeita também a grandeza do personagem -grande por praticamente qualquer ponto de vista, até pelo da incredulidade- ao não forçar a barra, em momento nenhum, para que alguém aceite seus dons como verdade, como fraude ou como loucura. A diversidade das situações deixa possível qualquer tipo de leitura e também a de todas ao mesmo tempo, porque qualquer delas se torna coerente diante dos elementos apresentados.
De novo, aí, o fato de o filme ser amarrado pela dramatização de uma entrevista concedida pelo médium, em que ele é colocado em xeque por diversas vezes, e trazer ao final cenas reais da entrevista, só colabora para a credibilidade da história.
O filme tem lá seus problemas, como se tornar um pouco arrastado quando se aproxima da metade, mas quando a historia deslancha isso é facilmente esquecível. Claro, nosso cinema é falível, especialmente se você fizer uma lista de itens a criticar, mas diante da satisfação do público, qualquer das lamentações cinéfilas brasileiras (como “o cinema argentino é muito melhor, blá blá blá...’’) soam em “Chico Xavier’’ apenas como pura mesquinharia. (Folhapress)
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