Terça-feira, 06/04/2010, 08h32
Fotografias dos moradores foram impressas, por meio da serigrafia,em lençóis,cortinas e mosquiteiros

O conviver diário, entre abraços e conversas ou um café e um almoço; a arte de observar o cotidiano à espreita; tentar apreender o comportamento do outro. Processos de pesquisa como estes são muitas vezes aleatórios e não intencionais, mas tornam-se fundamentais para que o artista visual Alexandre Sequeira possa tatear algo novo. E não se trata de uma condição ou algo imposto, forçado a resultar numa “obra de arte”. A lógica não é essa. São relações de afeto que dificilmente conseguem ser definidas ou explicadas. Também não podem ser esclarecidas com racionalidade, mas com o tempo acabam se transformando em trabalhos permeados por sentimentos fraternos, familiares ou amistosos.
Na produção recente de Alexandre – seja em fotografias ou gravuras, ou na utilização e experimentação de suportes diferentes (a exemplo das séries “Espaços do Afeto”, de 2006, e “Imagem Calcinada”, de 2003), – a carga afetiva das imagens revela um artista disposto a ouvir, a conversar, a estabelecer uma relação de criação baseada na troca de experiências com um interlocutor comum.
No começo dos anos 2000, o artista frequentou um vilarejo de pescadores chamado Nazaré de Mocajuba, com pouco mais de duas centenas de moradores. A partir de 2004, foram diversas idas à vila já com o projeto em mente.
Conversas, cafés, bolachas de água e sal. E conversa daqui, faz uma foto ali. Conversa mais um pouco, conhece mais pessoas, entra na casa de outro, até que o trabalho começa a se consolidar de fato. E com ajuda do destino. A prática de fotografar, um processo banal que parece estar ao alcance de todos, ali se fazia ausente. Na ocasião das idas ao vilarejo, os moradores pediam para ser fotografados. Mas não era pretexto para exibicionismos. A foto serviria simplesmente para que eles pudessem provar serem eles mesmos em um documento. “Certa vez fui solicitado a fazer essa foto. E depois, outras pessoas começaram a pedir também. Deixei correr a relação. Fiquei quase um ano fotografando. Comecei a me aproximar, a entrar na casa das pessoas”, conta Alexandre.
A partir dessa experiência, Alexandre Sequeira começou a vislumbrar possíveis adaptações daquele microcosmo em outros suportes, com base nas fotografias. Panos, lençóis, mosquiteiros e toalhas de mesa transformaram- se em porta-retratos – que, como se pensava nos primórdios da fotografia, parecem ser autênticos portaalmas. A memória das pessoas estampadas. As noites de sono embrulhados naquele lençol e os pratos de comida em cima da toalha de mesa: expressões do que eles mesmos são. A imagem do dono retratada em tamanho real nos próprios objetos velhos e desgastados – por meio de serigrafia – parece corroborar ainda mais a premissa da afetividade.
O resultado dessa amizade e da singela prestação de serviços acabou se tornando numa das mais consistentes pesquisas do artista, a série intitulada “Impressões de um Lugar”, resultante de forma sistemática da Bolsa de Pesquisa, Experimentação e Criação do Instituto de Artes do Pará (IAP). “No início do projeto, eu não tinha consciência de que o trabalho seria dessa forma. Num primeiro momento, busquei retratar a geografia, a beleza do lugar, os moradores, mas queria mostrar essa minha relação com a vila. Já tinha contato com aquele povo, não era um forasteiro”, elucida.
Depois de passar por países como Canadá, Bélgica, Cuba e França, a série abre hoje a programação da quarta edição do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre - FestFotoPoA 2010. Amanhã, Alexandre Sequeira participa ainda da atividade “Encontros com o autor”, na qual poderá explicar todo o processo de criação da série e de sua própria lógica de criação artística.
SAIBA MAIS
O FestFotoPoa está entre os quatro festivais de fotografia mais importantes do país e vem consolidando sua vocação de intercâmbio com os países da América Latina, além de um importante diálogo com a fotografia européia humanista. Nas três edições anteriores, o festival reuniu importantes autores, críticos e pesquisadores, como Cláudia Andujar, Evandro Teixeira, Eustáquio Neves, Custódio Coimbra, Pedro Vasquez, J. R. Ripper, Guy Veloso, Cia de Foto, Garapa, os Rubens Fernandes Jr., Cristiano Mascaro, Boris Kossoy, Joaquim Marçal, Sandra Pesavento, além da participação dos fotógrafos franceses Martine Franck e Marc Riboud, da Agência Magnum.
O festival tem o patrocínio do Santander e da Funarte e apoio do Instituto Moreira Sales. O evento segue até dia 2 de maio, no Santander Cultural, em Porto Alegre (RS). Informações: (51) 3392 9982.
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