Segunda-feira, 08/02/2010, 16h27
Há quase 400 milhões de chineses conectados; a maior empresa de web do país só é menor que Google e Microsoft.
Talvez você nunca tenha ouvido falar do QQ, mas as duas letras são onipresentes na China digital e batizam o mais popular serviço local de mensagens instantâneas do país. Com 500 milhões (!) de usuários, reúne a maior comunidade online do mundo e levou a empresa que o controla – a Tencent – a virar a terceira maior empresa de internet do mundo. Valendo US$ 35 bilhões na Bolsa de Hong Kong, ultrapassou gigantes como eBay e Yahoo, e só perde para Microsoft e Google.
O MSN chinês foi o início, mas a marca prosperou e hoje tem portal, games e um site de relacionamento chamado Qzone, em que usuários podem postar blogs e subir fotos e vídeos. De acordo com relatório apresentado em novembro, o Qzone possui 305 milhões de usuários, não muito longe dos 350 milhões do Facebook, a maior rede social do planeta, no mundo todo.
Mas o QQ está longe de ser o único site de sucesso no maior universo online do mundo – no fim de 2009 havia 382 milhões de chineses conectados, número que supera a população de todos os países, com exceção da própria China e da Índia. Os líderes desse mercado são nomes pouco conhecidos no Brasil, como os portais Sina e Sohu, os maiores do país.
Os jovens urbanos chineses estão entre os cidadãos online mais ativos do planeta – segundo o China Internet Network Information Center, o país tem o espantoso número de 221 milhões de blogueiros. Eles também enfrentam a fortaleza da censura, posta em evidência pela ameaça do Google de abandonar sua operação no país.
A aplicação desta censura é “terceirizada” para as empresas de internet, responsáveis pela vigilância do que é postado, que têm de deletar o conteúdo classificado como proibido por Pequim. Inúmeros sites são inacessíveis no país, o que facilita o controle sobre a informação e favorece o crescimento de concorrentes locais, que se submetem às regras do governo.
Se o Google realmente sair da China, beneficiará o Baidu, outro gigante local, com 66% do mercado de buscas. O site está avaliado em US$ 15 bilhões e fugura entre as cem maiores empresas listadas na Nasdaq, a Bolsa de empresas de tecnologia de Nova York. Bastou o Google anunciar a possibilidade de fechar o google.cn, que suas ações tiveram alta de 14% em um dia.
A chinesa Shang Mengting, 24 anos, ganhou seu primeiro computador quando tinha 10 e acessa a web desde os 13. Seu site de relacionamento é o renren.com, uma versão local do Facebook, onde ela possui 1.000 “amigos”, metade dos quais desconhecidos. “Escrevo sobre a minha vida, copio e colo artigos e letras de música, reclamo de coisas de que não gosto e às vezes só deixo algumas palavras para que todo mundo saiba que ainda estou viva”, disse ao Estado.
Shang também participa de fóruns online sobre bandas, shows ao vivo, produtos da Apple e lugares interessantes de Pequim. “Eu gosto do YouTube e do Twitter, mas estes sites estão bloqueados pelo governo.” Apesar da censura, a internet permite que os chineses assistam a filmes e séries de TV que nunca serão exibidos no país. O seriado Sex and the City não foi aprovado pelos censores chineses, mas está disponível no YouKu.com ou no Tudou.com, sites nos quais é possível ver filmes e programas de TV sem pagar nada – reflexo de outra característica do mercado chinês, a pirataria.
O número de pessoas que assistem a vídeos online aumentou 38% no ano passado, para 257 milhões, segundo Hu Yinpang, diretor da empresa de consultoria Data Center of China Internet (DCCI). “Esse é o segmento de mais rápido crescimento, com expansão 12 pontos percentuais superior aos 26% de aumento no número de pessoas online”, disse Hu.
Em seguida vêm os fóruns online, que reuniam 245 milhões de pessoas no fim de 2009, 34% a mais que no ano anterior. O número de usuários de sites de busca cresceu 30% no mesmo período e alcançou 373 milhões.
A grande muralha da censura
O YouTube é bloqueado na China, mas quase todo o conteúdo do site pode ser visto no Youtubecn.com, versão pirata chinesa. A cópia acaba sendo uma forma, ainda que parcial, de burlar a censura. Na quinta (4), os vídeos ali eram muitos dos que apareciam na versão original.
Mas uma busca com a palavra “Tibet” mostrava que a censura não pode ser totalmente contornada. Os resultados levavam a vídeos dos conflitos em março de 2008, que levaram ao bloqueio do YouTube. Mas nenhum deles podia ser aberto.
Antes de concretizar sua ameaça de deixar o país, o Google também ganhou um “concorrente”, o goojje.com. O YouTube.cn estava no ar na quinta, mas todos acham que ele será “harmonizado”, expressão irônica para se referir ao bloqueio de sites, inspirada na “sociedade harmônica” propagada pelo presidente Hu Jintao. Alguns usam proxies para driblar a censura (maquiando o IP de origem), outros compram serviços de VPN (Virtual Private Network, redes fechadas), que cortam a muralha da censura por US$ 60 ao ano. Muitos usam táticas de guerrilha para postar informações proibidas: há quem tenha mais de um blog e atualize todos ao mesmo tempo, na esperança de que um fique no ar; há quem poste sucessivamente em diferentes lugares, na medida em que vão sendo deletados.
Como a censura funciona com palavras chaves, há a tática do disfarce: governo (zheng fu, em chinês) vira apenas “zf”. Mas assim que uma tática é descoberta, a expressão passa a ser bloqueada.
Falta de credibilidade breca expansão de sites
O movimento ainda é incipiente, mas grandes sites chineses já deram os primeiros passos para estender as operações para além das fronteiras de seu país de origem. O Baidu lançou uma versão de seu buscador no Japão e o QQ tem um portal internacional em inglês, além de versões em francês e japonês.
“Os líderes desse mercado vão tentar se desenvolver internacionalmente”, afirma Cao Junbo, analista chefe da empresa de consultoria iResearch. A expansão já começou na área financeira, com a abertura de capital e o lançamento de ações em Hong Kong ou Nova York.
Treze sites chineses estão na Nasdaq, a Bolsa de tecnologia dos EUA: Baidu, Sohu, Sina, Shanda, NetEase, Ctrip, 51job, E-long, KongZhong, china.com, Linktone, The9 e Tom Online. A Tencent, dona do QQ, tem ações em Hong Kong.
Os portais chineses enfrentam os mesmos desafios que outras empresas em expansão, como a adaptação a diferentes culturas e o fornecimento de serviços com traços locais. Mas há um adicional: a falta de credibilidade gerada pelo estrito controle da informação na China.
O presidente do Sohu, Charles Zhang, disse em discurso na semana passada em Pequim que a China não será ouvida no mundo, “a menos que o governo afrouxe o controle sobre a mídia e a indústria do cinema”.
O país asiático está prestes a tomar do Japão a segunda posição entre as maiores economias do mundo. Mas sua influência global, o chamado “soft power”, é praticamente nula. “Quando Wall Street Journal ou The New York Times dizem algo, o mundo todo acredita no que é dito. Por não possuir nenhuma organização de mídia respeitável, o poder de comunicação global da China é muito fraco”, ressaltou Zhang.
Ainda assim, as empresas de internet têm grande potencial para crescer dentro da China. O índice de penetração da internet está em 28% da população de 1,3 bilhão de habitantes e deve crescer a taxas superiores a 20% nos próximos anos.
CHINA "IN BOX"
500 milhões de chineses usam o QQ, o MSN de lá; o serviço de troca de mensagens foi o primeiro de um complexo online que tem, entre os site, a rede de relacionamento Qzone, usada por 305 milhões de pessoas. O Facebook, maior rede social do mundo, tem 350 milhões de usuários espalhados pelo mundo todo.
35 bilhões de dólares é o quanto vale a Tencent, dona do QQ; isso faz dela a terceira maior empresa de internet do mundo, atrás apenas da Microsoft e do Google.
3,92 milhões de artigos estão reunidos no Hudong, a Wikipedia chinesa, fundada em 2005. Com 1,9 milhões de usuários cadastrados, o site desenvolveu seu próprio sistema de publicação wiki, o HDWiki, em oposição ao MediaWiki, da Wikipedia original. O site também é uma rede social e visa o lucro, ao contrário de seu equivalente ocidental.
57 serviços são oferecidos pelo Baidu, o equivalente chinês do Google. Além de um mecanismo de busca, o site também oferece mapas, serviços de encontros online e permite que os chineses baixem vídeos e músicas online gratuitamente. O nome do site vem de um poema centenário dos tempos da dinastia Song.
(Estadão)
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