Domingo, 07/02/2010, 09h49

Na noite do aniversário de 26 anos da Associação Carnavalesca Bole Bole, comemorado no último dia 02, o segundo chefe de bateria Fabrício Meireles estava nervoso: subia no palco que tinha as caixas de som suspensas por duas caixas de cerveja, descia, olhava para o posicionamento de cada integrante da bateria, organizava os ritmistas. O ensaio estava marcado para as 20h em ponto, mas desse horário já passavam 20 minutos. Depois de alguns instantes, a euforia inicial deu lugar à inexplicável concentração para entender e tentar ajustar os sons e os passos daqueles que com a força do braço começariam a fazer o samba surgir. O olhar de Fabrício era cuidadoso.
O cuidado foi reforçado quando ele decidiu falar. Subiu novamente no palco e, olhando para os cerca de 80 homens e mulheres que ele estava dirigindo àquela altura, disse: “Sem querer menosprezar ninguém da escola, mas vocês é que dão o suor, vocês é que dão o sangue, é que dão a pulsação da escola!”. E falava isso batendo no punho, ainda com o microfone na mão. Abaixou a cabeça e, quando a levantou, concluiu: “Vamos para a Aldeia [Amazônica] mostrar que a Bole Bole é forte!”.
O sentimento de amor pela escola estava no olhar de Fabrício, nas gotas de suor que escorriam da sua testa, no barracão abafado construído de improviso na passagem Pedreirinha, no bairro do Guamá.
As palavras ditas com vigor retratam uma longa história. O segundo chefe de bateria está na Bole Bole desde os sete anos de idade. Hoje, com 31, e ainda morador do bairro, Fabrício sente o samba na veia. “É o meu trabalho”, disse depois, com muita convicção.
Em outra conversa, por telefone, ele faz questão de recordar: “Você lembra quando eu falei com os ritmistas? Falei aquilo porque eu vim de lá, eu sei como eles se sentem: os nervos à flor da pele, começa a dar uma agonia”, descreve.
DO CORAÇÃO
Fabrício começou a participar das atividades da escola no projeto “Bole Bole do Futuro”, em que as crianças das proximidades recebiam as primeiras aulas de bateria de samba. “Eu ia todos os dias com os meninos da rua. E comecei a me dedicar. Sempre gostei de música”, conta. Aos 12, ele já fazia parte da bateria-mirim da escola.
Em 2002, depois da saída do então chefe de bateria, foi convidado pela diretoria para assumir a função. “Ainda recebi um convite da Tradição Guamaense, mas sabe como é o coração. Estou lá [na Bole Bole] desde criança”.
Houve um período em que Fabrício chegou a ser afastado da escola do coração e foi parar na Quem São Eles. “Foi um tempo conturbado, cheio de confusões. Fui desligado”, explica, com certa moderação. Depois de dois anos longe, o bom filho retornou à casa. “Foi muito bom voltar. E graças a Deus me dou bem com todo mundo. Também respeito o trabalho de todos no Quem São Eles”, fala lentamente.
Ainda na noite do aniversário, na parte descoberta do barracão da escola, os moradores apreciavam a comemoração. Sentados nas cadeiras de plástico, aplaudiam e gritavam nas calçadas tortas do piso de cimento batido. Quem estava falando era Herivelto Martins, mais conhecido como Vetinho, um dos fundadores da Bole-Bole. Logo depois, Beth Oliveira discursou, despedindo-se do posto de madrinha de bateria e agradecendo o apoio dos mais chegados.
Mulata, alta, cabelos cacheados longos. O sapato vermelho que Beth usava conduzia os passos da dança, quando ela mandava beijos e sambava por todo o salão ao som do samba-enredo deste ano: “Palhaços Trovadores – A poesia do riso na passarela do samba”.
Do outro lado, outras mulheres nem tão jovens assim ensaiavam a Ala das Baianas. Mesmo com os passos assimétricos e as giradas dessincronizadas, o samba estava lá. Era possível ver as anáguas aumentando o volume das saias pela maneira sutil em que elas pegavam nas bordas da fantasia imaginária. E rodavam e cantavam e sorriam e voltavam a pegar no tecido que estava presente na imaginação.
Não foi preciso muito para ensaiar. Foi como se já estivessem em plena avenida. Os sorrisos nos rostos enrugados não negavam o desejo por outros períodos de samba e tempos melhores não só no Carnaval, mas todos os dias.
A ideia do enredo para o Carnaval 2010 surgiu de uma fraterna constatação. Os Palhaços Trovadores são fiéis amigos das escolas de samba de Belém. Já desfilaram nesta e naquela, ajudaram aquela outra. E agora eles próprios são o tema do desfile que a Bole Bole leva para a avenida. Quem sugeriu foi o presidente de honra da escola, Vetinho.
“É um tema bom, divertido, alegre. Além disso, eles têm penetração na classe artística e ainda podem render boas influências com os jurados e ajudar a escola a levar o título”, diz. “Vai ter muita cor e muita irreverência. Queremos trabalhar uma palavra: alegria, porque é isso que queremos levar para a avenida”, diz a carnavalesca Cláudia Palheta.
Sobre o desfile, Cláudia adianta alguns detalhes diferenciados. “Em referência ao teatro, a nossa comissão de frente não vai se apresentar dançando, mas sim representando”, antecipa a carnavalesca.
A produção das fantasias este ano correu rápido e, segundo Vetinho, 95% já está pronto. “Isso quase nunca aconteceu. Chega na hora, na avenida, e sempre tem algo por fazer”, conta. A Bole Bole vai sair com três carros alegóricos, o máximo permitido, e com cerca de 2 mil foliões.
PARCERIA
A despeito de todos os problemas enfrentados pelos moradores do Guamá, a Bole Bole tem orgulho de estar ali. Os dirigentes mostram-se empenhados em ajudar aqueles que são voluntários e trabalham na escola – já que recompensa financeira é algo ainda distante. Em parceria com o Instituto Federal do Pará (IFPA), antigo Cefet, os ritmistas recebem aulas de Eletrônica e Edificação Civil. “Eles trabalham, se esforçam e ficam gratos com o curso. Quem ganha com isso é o Guamá.
É uma economia de mão-de-obra, mas com qualificação das pessoas. E ainda virão mais turmas”, promete Vetinho.
O instituto também auxilia a agremiação com a doação de infraestrutura e materiais básicos para a realização do desfile. “Ficamos dois meses na sede do instituto realizando atividades de construção dos carros. Com isso economizamos cerca de R$ 28 mil. “Se não fosse esse apoio, não conseguiríamos começar os trabalhos”, completa Vetinho.
SAMBA-ENREDO
“Os Palhaços Trovadores: a poesia do riso na passarela do samba”
Autoria: Vetinho e Edson Ary
Intérprete: Ademar Carneiro
Me leva sonho meu, me leva no teu sonhar
No sonho que renasceu, sonhando em não acordar
Chegou meu Bole Bole na cadência dos tambores
Sorria Belém, está tudo bem
Nós somos os Palhaços Trovadores!
Em brincadeira a noite inteira, espetáculo de amor
Em toda parte, “Commedia dell’Arte”
O artista se inspirou: em Arlequim, em Colombina
Ser clown é mesmo assim, o show nunca termina
Teatro à luz da lua, estrelas vêm brilhar
No picadeiro da rua, é chuva de cultura popular
E a vida fica colorida com alegria
No esplendor da avenida, em poesia
As cenas da cidade, no enredo vem satirizar
Se o dia-a-dia é fantasia, vamos desfilar
Ô ô ô ô, folia, magia do Carnaval
É o meu Guamá na euforia dessa trupe genial
Lojas do Tem! (Classificados)
IT Center
Shopping Pátio Belém - 2o piso
Shopping Castanheira - 1o piso
Gaspar Viana, nº 778
Yamada Plaza (Av. Gov. José Malcher)
Yamada Plaza (Castanhal)
Formosa Duque (Subsolo)
Formosa Cidade Nova (Subsolo)
RBA - Av. Almirante Barroso, 2190
Call Center Tem! (Classificados)
(91) 4006-8000
Fale Conosco
(91) 3084-0100
Central do Assinante
(91) 4006-8000
Endereço
Av. Almirante Barroso, 2190
CEP 66095.000 - Belém-PA
Redação
(91) 3084-0119
(91) 3084-0120
(91) 3084-0126
(91) 3084-0100
Ramais: 0209, 0210 e 0211
Copyright 2010 Diário do Pará. Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação.