Terça-feira, 15/12/2009, 07h24

Um percurso que poderia ser feito em 20 minutos chega a durar mais que o dobro, se o objetivo é ir até o centro de Belém. Moradora da Cidade Nova, em Ananindeua, a economista Roberta Barros, mesmo de carro, sai de casa uma hora antes de entrar no trabalho, já pensando no engarrafamento que enfrenta diariamente até a avenida Generalíssimo Deodoro.
Morando no mesmo local há mais de dez anos, ela lembra das diferenças. “Antes dava para sair de casa 30 minutos do meu horário de entrada no trabalho”. A grande quantidade de carros e motos que circulam pela rodovia BR-316, principalmente nos horários de “pico”, acaba colocando motoristas de carros particulares e usuários de transporte público na mesma situação, quando a questão é ganhar tempo. “O que a gente tem é mais conforto, porque o ônibus é cheio e vem parando para outros passageiros”.
A busca por conforto acaba gerando um círculo vicioso, já que a frota de veículos na região metropolitana cresce desproporcionalmente aos investimentos em novas vias. Isso impacta na fluidez do sistema viário da cidade, dizem os especialistas em trânsito.
Segundo o diretor de Trânsito da Companhia de Transporte Municipal de Belém (CTBel), Joaquim Souza, nos últimos oito anos, a frota de Belém aumentou em 69%, mas não houve aumento no sistema viário. “Nós temos cerca de 3.200 veículos novos sendo licenciados no Estado mensalmente”.
Souza informa ainda que cerca de onze bairros da cidade não tiveram as vias projetadas para receber a frota que circula atualmente. “Batista Campos, Nazaré, São Brás, Jurunas, Cremação e Guamá possuem vias pequenas e não tinham estrutura para receber esse tráfego intenso”.
Na opinião do diretor, a redução dos problemas de fluxo no trânsito necessita da cordialidade e educação dos motoristas. “Isso colaboraria para reduzir o número de acidentes. O estacionamento em fila dupla e o fechamento de cruzamentos ainda são grandes fatos para os engarrafamentos”. Para Patrícia Neves, engenheira civil especialista em trânsito e transporte público, o aumento na frota de carros é um fenômeno que acontece em todo o Brasil e o grande vilão disso é a defasagem do transporte público. Sem contar com a facilidade em adquirir um veículo. “Isso faz com que as pessoas migrem fácil para adquirir um automóvel”. Neves explica que para mudar essa realidade seria necessário, além dos projetos que já estão sendo executados, como Ação Metrópole, do Governo do Estado, um inversão de prioridades no trânsito. “Se os ônibus tivessem um espaço reservado a eles, sem que fosse necessário disputar com os outros veículos, eles seriam mais rápidos e isso acabaria estimulando o seu uso”.
Além disso, descentralização e planejamento do uso do solo da cidade poderiam solucionar o congestionamento no centro. “As atividades comerciais e empresariais são muito concentradas no centro da cidade, e isso faz com que todos necessitem migrar para lá ao mesmo tempo. Se fossem retirados do centro e distribuídos pelos bairros de Belém, isso mudaria”.
A exploração do sistema hidroviário da região é outra solução apresentada pela especialista. Para ela, o investimento em barcos e em um sistema integrado colaboraria para reduzir os engarrafamentos. “A configuração geográfica de Belém faz com que tenhamos poucos corredores”. Neves afirma, que se continuarmos nessa situação, é possível que em 20 anos, seja necessário gastar três horas para percorrer cinco quilômetros. (Diário do Pará)
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