Domingo, 22/11/2009, 12h56

Se fosse possível resumir em poucas palavras o que foi a quarta edição do Festival Se Rasgum, ocorrido no último final de semana, em Belém, a definição mais simplista seria: saiu o sambinha aguado do ano passado (Manacá, Do Amor, Curumim, Wado) e entrou em cena o “pancadão”.
É um exagero, claro, mas pelo menos nos dois primeiros dias, essa foi a tônica sonora predominante. Seja na mistura de dub, ragga e que tais de Pro.Efx e Arcanjo Ras; seja na viajante sonoridade reggae de Juca Culatra ou mesmo nas insanidades (no bom sentido) de Gabi Amarantos - e seu Tecnoshow- e no Bonde do Rolê.
No segundo dia, esses ecos sonoros também se fizeram presentes na Música Magneta, o projeto de Pio Lobato e DJ Dolores, e no Digital Dubs, com B. Negão e Ras Bernardo mandando ver. E num dos grandes shows do festival, o da Comunidade Nin-Jitsu.
Mas, como de praxe, o Se Rasgum não cabe em definições reducionistas. O laboratório experimental de possibilidades sonoras aparentemente divergentes converge para um resultado que surpreende por se manter coeso nessa diversidade. Parece paradoxal, mas mostra um certo amadurecimento tanto por parte dos organizadores como do público.
Ao mesmo tempo em que expande possibilidades para outros “sons, outras sensações”, como cantaria o Ira! lá no final dos anos 80, o Se Rasgum também mostra que maturidade vale. E muito.
No primeiro dia, algumas bandas com fórmulas um tanto quanto desgastadas não despertaram maiores interesses. O Ataque Fantasma está longe de ser uma banda medíocre, mas também não dá para considerá-la acima da média. Fica num pantanoso terreno onde nem chega a produzir shows incandescentes, mas não leva totalmente à indiferença.
É quase o contrário do que ocorre com os mineiros do Dead Lover’s Twisted Hearts: dez minutos após o show, já não se lembra mais quem são (a exceção talvez tenha sido a versão para “Eu Tenho”, clássico pós-hippie absoluto de Odair José). Já The Baudelaires são saudados por muitos como uma grande promessa pop em Belém. Pode ser... pode ser... mas há controvérsias. Assim como o Dharma Burns. Dá a impressão que estamos retrocedendo àquele período do finalzinho dos anos 80 e início dos anos 90, quando um monte de bandas resolveu olhar para os pés e cantar em inglês. Enfim.
Do primeiro dia há que se destacar também o show de Gork, mais uma experiência sonora de André Abujamra, que ficou conhecido no meio musical principalmente por conta do Karnak. Acompanhado da cozinha Los Piratas, Abujamra mostrou que conhece todos os caminhos do som pesado, se ousar adentrá-los. Brinca com o heavy, com o hardcore, mas esse flerte acaba sempre levando o ouvinte mais atento a pensar que o som da banda é mais cerebral do que emocional. É como se o conceito viesse antes do esporro.
Nação Zumbi, considerada a grande atração da primeira noite, produz pelo menos duas sensações imediatas. A primeira: é quase impossível substituir um vocalista carismático. A segunda: o show se sustenta nos clássicos produzidos ao longo dos dois ou três primeiros discos. Olha-se para o passado. Não se vê mais o futuro.
ARRASO
Não dá também para pensar na primeira noite e não chegar a uma conclusão. A de que os nossos japoneses são melhores do que os outros. O que dizer da apresentação de Gabi Amarantos? Negra, voz rascante, aprumada de carnes, com um tubinho preto que mataria de inveja a loira oxigenada da Uniban, Gabi era pura volúpia num show que quase pôs abaixo o African Bar. E não é exagero dizer que nem os peitinhos de fora das meninas sem gracinha e de voz estridente do Bonde do Rolê conseguiram ofuscar o Tecnoshow.
Sensação semelhante foi sentida no segundo dia. Se Radiotape não disse nada e Milocovik é um pastiche nada saboroso de Talking Heads e Franz Ferdinand, foi no palco menor que os paraenses mostraram mais uma vez como se faz. O show de Johny Rockstar foi consagrador. É quem melhor ocupa o lugar que outrora foi do Eletrola (que tocou no palco laboratório para fãs nostálgicos) e quem se ombreia com Suzana Flag na criação de canções pop perfeitas.
Marku Ribas trouxe uma certa “elegância” ao festival. O samba-jazz executado em altíssimo nível agradou bastante até aos mais radicais. Pinduca pôs todo mundo para dançar. Houve quem, exageradamente, o chamasse de “James Brown paraense”. O mais impressionante é perceber quantos “clássicos” o “rei” do carimbó possui. Foi uma festa merecida.
Pato Fu fez show agradável. Quase não se percebe que a banda já tem 15 anos de estrada. Homenageou Pinduca, tocou velhas e novas canções e encerrou a apresentação com uma tocante versão de “Sobre o Tempo”.
O VELHO ROCK
E o último dia? O domingo reservou aos mais velhinhos ou aos mais afeitos a sons tradicionais na seara do rock alguns dos melhores momentos do festival.
A primeira boa surpresa foi a banda Godzilla, de Macapá, que tocou logo depois do Clube de Vanguarda Celestial. Sincera e Inverso Falante, classificadas na seletiva do festival, fizeram shows corretos, dentro do que se esperava de cada uma delas. AMP fechou essa primeira parte, digamos assim. Bandas pesadas, ainda em busca de canções que se tornem clássicas e querendo um lugarzinho ao sol.
Mas foi a partir da banda uruguaia Hablan por La Espalda que o bicho realmente pegou. Responsáveis por um dos shows mais interessantes do festival, os uruguaios olharam para trás, lá onde Doors, Santana, Deep Purple e Stones fase Beggar’s Banquet fizeram história, e reacomodaram tudo numa sonoridade atual. Mal comparando, foi o mesmo que fizeram Black Crowes alguns anos atrás. Show que ganhou os que esperavam por Matanza.
Essa, aliás, ficou ensanduichada entre dois shows que poderiam muito bem lhe servir de ensinamento. A rebeldia de apartamento do Matanza ficou muito, mas muito ofuscada pela ensandecida apresentação dos Delinqüentes e pela sucessão de clássicos do Stress. De um lado, hardcore e crossover como poucos fazem no Brasil. Do outro, uma das mais míticas bandas de heavy metal do país. Enquanto isso, Jimmy do Matanza fazendo cara de mau. Pausa para a tapioquinha.
Encerrando a noite da melhor forma, rock and roll sem vergonha, sexista, cachaceiro. Velhas Virgens meio que mostrou aos emos que ainda circulavam pelo pedaço com quantos bons riffs se faz um rock. Batidão? Pancadão? Ok, ok...mas nada como um rockão para desopilar no final. Alguém discorda? (Diário do Pará)
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