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Terça-feira, 19/05/2009, 07h54

Sem comida adequada, criança agoniza no PSM

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Quem entra na Enfermaria 1 do Pronto- Socorro Municipal do Guamá e se depara com um paciente, de apenas sete anos, pensa por um momento estar numa enfermaria humanitária instalada em algum país africano que atende a vítimas da fome.

As imagens feitas de um celular que chegaram ao DIÁ- RIO, entretanto, mostram uma criança aqui do Pará, mais especificamente de Breves, internada há 20 dias na unidade com um grave problema intestinal (obstrução). O menor está desnutrido e vem perdendo peso a olhos vistos ao lado do pai graças, mais uma vez, à falta de condições mínimas de atendimento por parte da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), que não fornece a chamada alimentação parenteral ao menor, necessária para garantir a sua sobrevida e a luta contra a doença.

A Nutrição Parenteral Prolongada (NPP) é ministrada através das maiores veias do corpo (carótida, jugular, etc.). É composta por aminoácidos, proteínas e sais minerais necessários para fazer com que o organismo do paciente funcione. Apesar da criança já estar na unidade há 20 dias, até o momento seu pai, o pescador José Maria Lobato de Sousa, não sabe qual a doença que acomete seu filho. “Os médicos só pedem para eu ter paciência”, coloca.

Informações colhidas pela reportagem dentro do PSM dão conta que há mais de três anos que a prefeitura não mantém convênio com empresas que fornecem alimentação parenteral (laboratórios). Atualmente, segundo José Maria, seu filho é alimentado com sopa, arroz com carne, suco e até bolacha.

Come muito pouco e o resultado é que perde peso, pois não se nutre adequadamente. De acordo com José, o filho chegou ao PSM com 32 quilos. Hoje está com apenas 23 e perdendo peso a cada dia. A criança está subnutrida e com aspecto de desidratada. “Sinto que meu filho definha a cada dia”.

Segundo José, o filho foi operado no último dia 29. Para atenuar seu sofrimento, o menor recebeu uma bolsa de colostomia, por onde saem suas secreções intestinais. “Aqui, até para dar banho tem que ser eu. Também sou eu que troco a bolsa na barriga dele. Os enfermeiros não fazem nada”, denuncia. Segundo ele, apenas ontem apareceram duas enfermeiras e deram um banho no menor.

Após a operação, a criança ficou 15 dias na UTI do PSM do Guamá, de onde saiu na quarta-feira passada. O pescador revela que seu filho chegou a ficar dois dias sem soro. Nesse período, foi alimentado apenas com suco. Ele se diz preocupado, pois está sem dinheiro e teme pelo bem-estar do seu filho. “Já ouvi um comentário aqui que vou ficar com ele no hospital por cerca de 90 dias. Não tenho condições para isso”, disse, olhando para o filho que, apesar de consciente, enfraquece a cada dia.

Através de nota, a Sesma informou que o paciente, de 7 anos, chegou de Breves no HPSM do Guamá no último dia 28, em estado grave, apresentando “distensão abdominal há 15 dias e palidez intensa”. Ele teria sido avaliado e recebido concentrado de hemácias devido ao seu estado de palidez.

O paciente precisava de uma transferência urgente, mas como não havia leito em hospital de referência, foi operado no Guamá no dia 29 de abril “devido ao seu abdômen agudo obstrutivo grave” (sic). Ainda segundo a secretaria, atualmente o paciente está estável, mas ainda está debilitado e aguarda transferência para um hospital de referência. “A dieta receitada para o paciente é oral, ou seja, ele não necessita de alimentação parenteral”, garante a Sesma, apesar da gravidade do caso.

Por causa da ileostomia (pedaço de intestino para fora), a troca da bolsa estaria sendo feito diariamente pela equipe de enfermagem. “A higiene diária, se solicitada, pode ser feita pela equipe de enfermagem, mas seu acompanhante opta por ele mesmo realizá-la, com supervisão dos técnicos”, relata à nota, contrariando as declarações do pai do menor.

>> Sesma acusa equipe médica

Manipulação de paciente morto para gravação de imagens com fins políticos. Essa é a posição oficial da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) sobre a denúncia – comprovada através de imagens – do atendimento a um menor de seis anos em cima de uma pia de inox na UTI do PSM do Guamá e que acabou morrendo por falta de atendimento adequado, reveladas com exclusividade pela TV RBA e pelo DIÁRIO no último final de semana.

Dada a repercussão negativa do fato que, mais uma vez, mostrou o caos da saúde de Belém em rede nacional, a Sesma decidiu convocar na tarde de ontem coletiva para tentar explicar o episódio. Foram convocados o Sindicato dos Médicos e o Conselho Regional de Enfermagem. Apenas a primeira entidade mandou representante.

O secretário municipal de Saúde, Antônio Vinagre, garante que a situação ocorreu de maneira diferente do que foi mostrada nas televisões e no jornal. Tentando desacreditar o fato, Vinagre ressaltou que o atendimento do menor ocorreu há mais de um ano, mais precisamente em 21 de fevereiro de 2008. “O fato foi veiculado para prejudicar a Sesma. Coisa de maldade... Porque divulgar as imagens apenas um ano depois?”.

Visivelmente incomodada, Laura Ruth, diretora do PSM do Guamá, assegura que o fato não ocorreu na UTI do PSM, mas na Unidade de Reanimação. Explicou que a criança era excepcional e que morreu vítima de afogamento dentro de um balde, em sua residência, por descuido do pai. “Essa criança foi recebida por uma pediatra e todos os procedimentos foram feitos para tentar salvála”, cita.

Em nota, a Sesma afirma que as imagens veiculadas “mostram, entre outras situações, a falta de ética dos profissionais no manuseio de uma criança em óbito. Apesar das gravações das imagens, seus autores nunca apresentaram denúncia administrativa para a direção do HPSM e da Sesma”. A Sesma apontou ainda “falta de ética da parte do próprio profissional que gravou as imagens”.

Laura mostrou um livro de ocorrência – ao qual a imprensa não teve acesso, assim como o prontuário – que mostra que o menor foi colocado numa maca. “Não sabemos quem o colocou naquela pia. Foram imagens editadas e a prefeitura vai instaurar sindicância e processo administrativa para descobrir como esses fatos ocorreram”.

A diretora informou que toda a equipe envolvida no atendimento será ouvida para esclarecer os fatos. Em relação ao ambiente degradante mostrado pelas imagens, como paredes da UTI mofadas e infiltradas, a diretora se limitou a dizer que “queremos saber também porque naquela época a UTI estava assim”. O secretário municipal disse ainda que a Secretaria de Assuntos Jurídicos está tomando as medidas cabíveis em relação às denúncias, como periciar as imagens.

Diretor financeiro do Sindicato dos Médicos, Carlos Sinimbu, classificou as imagens de graves. “Quem vive o dia-a-dia dos PSMs sabe daquelas condições que foram mostradas. O mais grave é que já denunciamos tudo isso diversas vezes. Se tornou corriqueiro...”. O médico considerou muito grave a acusação de que as gravações foram montadas. (Diário do Pará)

Comentários Recentes

  • Humberto disse: Comentário postado em 19/05 Terça-feira às 23:55h "Essa CPI tem de sair urgentemente! Quando acharem o buraco em que está o dinheiro da saúde é preciso voltá-lo aos cofres públicos para que cenas como essa não ocorram mais na ex-metrópole da Amazônia. Quanto aos corruptos apnhados, devem ser trancafiados de preferência em cadeias superlotadas! Também já estou perdendo a paciência com a SEDUC. Quem está levando o dinheiro da educação neste Estado? Uma CPI seria o caminho para essa descoberta. Muita coisa estranha está acontecendo nas escolas. É preciso continuar essa greve até que tenhamos uma resposta sobre o caos na educação nesta TERRA DE "DIREITOS"! CPI NELES!!! "
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