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Domingo, 12/08/2012, 08h28

Histórias de artistas que tem a quem puxar

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Felipe Cordeiro ouvia música na vitrola do pai. Logo tocou violão, depois passou para o piano. Filho de peixe... Rebento de Manoel Cordeiro, um dos principais nomes da lambada paraense, o jovem músico tentou enveredar pela MPB tradicional, mas finalmente caiu nas graças do que lhe era guardado desde o berço. Foi ao lado do pai que Felipe inaugurou sua nova faceta como músico, e assumiu seu lado brega-pop. “Há muita admiração, troca, carinho e respeito entre nós. Cresci nas rodas de música frequentadas pelo meu pai, sei que existia uma vontade para que eu seguisse esse caminho, mas tenho certeza que se fosse diferente ainda teria total apoio dele”, conta Felipe.

 Para o filho, Manoel é muito mais que uma influência, é referência. “E não falo só de música, que com certeza é algo que ele faz e muito bem. Mas como homem, como pai e como amigo. Estes sentimentos estão tão entrelaçados que é difícil delimitar onde termina um e começa outro”, explica Felipe.

Manoel, como representante assumido dos pais corujas se esbalda em elogios ao se referir ao

trabalho e a vida do filho. “Ele é antenado e possui uma formação intelectual muito importante para o fazer artístico ao qual ele se propôs. Vivemos hoje um reflexo do que vivíamos quando ele ainda era menino. Antes, levava o Felipe comigo para as viagens que fazia produzir músicas e ele acompanhava tudo como uma diversão. Agora viajamos para tocar juntos”, destaca. A dupla experimentou várias nuances da música produzida no Pará e agora conquista o Brasil como representante da nova cena musical do Norte. 

 Hereditário também foi o apreço pela palavra na família Garcia. O jornalista e escritor Alfredo Garcia, pai de quatro filhos, criou seus meninos rodeados de livros. “Não foi uma relação mais convencional, de ler paras crianças antes delas dormirem. Eles, na verdade, eram meus primeiros leitores: eu mostrava os esboços dos meus livros, pedia opinião”, revela Alfredo, que há três décadas descobriu no universo infantil uma inspiração das mais pulsantes. “Meu primeiro livro infantil foi dedicado ao meu primogênito, Daniel, há 28 anos”, relembra Garcia, que desde então enxerga nos filhos seus principais parceiros de literatura. “Tem um livro chamado o ‘Livrinho das perguntas’ que é dedicado ao meu filho o Alfredo Neto. Foi feito em cima de várias perguntas daquela fase do ‘por quê’: Pai, por que o céu é todo furado? Se ele não fosse furado por onde cairiam as gotas de chuva?”. 

Na lógica lúdica das crianças, Alfredo resgatou o menino que dormia dentro de si. “A convivência com os filhos te devolve a doçura, o lúdico, que a gente perde em algum momento da vida. A criança é um leitor mais exigente que o leitor adulto: ela precisa acreditar do que está sendo contato, o faz-de-conta da ficção para ela tem que ser muito convincente”, brinca.

Como o tempo passa, e o menino um dia torna-se homem, Alfredo viu crescer seus rebentos. Um deles, Alfredo Neto, acompanhou o pai pelo caminho das letras. “Meu pai foi determinante para eu que enveredasse pela literatura. Ele, como escritor e amante de literatura, me ensinou a importância da leitura como algo que completa a sua vida”, diz o jovem escritor, HG Neto, 24 anos, que em 2009 estreou em parceria com o pai. “Epifanias” traz contos da dupla e é o primeiro livro da literatura paraense a ser escrito por pai e filho. 

“Foi muito bom descobrir que um de meus filhos também escrevia e decidiu traçar um caminho que eu havia traçado”, diz Alfredo sobre o filho, que desde os 13 anos guardava seus textos, até compartilhá-los com o pai. “Eu fiz o papel de crítico, e juntos avaliamos o trabalho dele”, diz Alfredo. “Na verdade, ele criticava pouco. Sempre tinha aquela coisa de pai que mais se orgulha do que aponta defeito”, revela HG Neto.

“O mais bacana desse projeto foi que eu e ele aprendemos a admirar de verdade o trabalho um do outro”, diz Alfredo, que acaba de atravessar um delicado episódio: um de seus filhos, Frederick, estava no ônibus que capotou numa estrada em Curitiba, acidente que vitimou vários jovens. “Foi o momento mais difícil da minha vida até agora”, diz o escritor, que viajou para acompanhar o filho, que sobreviveu à tragédia. “Esse acontecimento me fez reaprender a ser pai. A relação com o filho, quando ele cresce, fica mais solta, independente, distante. Mas o acidente fez que a gente retomasse a parceria, eu pegando na mão dele, ele reaprendendo a andar”, relata Garcia, emocionado. “Nesse dia dos pais, o maior presente é ter meu filho vivo no meu lado”. 

Um mundo de delicadezas

Pai aos 40 anos, Waldner tirou do baú da memória as velhas canções de sua infância para fazer ninar seu segundo rebento, José Francisco, hoje com três anos. Mas “boi da cara preta/ pega esse menino que tem medo de careta” não era exatamente o que ele gostaria de dizer ao filho para embalar seu sono. 

Poeta e escritor há mais de 20 anos, Waldner encontrou no amor pelo pequeno Zé a inspiração para se arriscar como compositor. “Foi o amor pelo meu filho que me fez começar a compor. Com ele, eu descubro um mundo de delicadezas todo dia”, diz Waldner Cunha, prestes a lançar um disco dedicado ao público infantil. 

“Comecei a compor para fazê-lo dormir. Fiz a primeira, percebi que ficou legal. Daí eu passei a fazer música para cada momento do dia dele: para a hora de comer, para a hora de pular, hora de brincar”, conta. Assim surgiram dezesseis canções, da bossa-nova ao rock. Empolgado com a novidade, Waldner tratou de aprender sobre alguns instrumentos.

Fez oficina de percussão e entrou para um grupo de carimbó para compreender a questão do ritmo. “Passei a me interessar profissionalmente pela música já depois de velho, graças ao meu filho. Fiz um curso de gravação amadora e percebi que poderia ser muito simples registrar aquelas canções”, diz. E foi assim, em casa, de improviso, que o pai apaixonado gravou um belo presente para o menino Zé. “Gravei a voz-guia em casa, apenas minha voz, à capela. Fiz um encarte todo colorido, com as canções, e entreguei de presente para o Francisco”.

Batizado de “Senhor dos Sonhos”, o disco reúne Rande Frank, Gláfira Lobo, Sônia Nascimento, Fabrício dos Anjos, Bruno Maneschy, Mário Cantuária, Álvaro Drago, o contrabaixista Baboo, na bateria Junhão e os músicos Juninho do Cavaco e Marquinho, do Nosso Tom. 

O álbum , que sairá ainda este ano, com patrocínio do Banco da Amazônia, traz de um tudo: rock, ug boogie, samba, valsinha. “As canções buscam retratar o universo infantil, todo esse processo de descobrir o mundo desde os primeiros dias de vida. É um estímulo ao contato afetivo entre pais e filhos. Espero que os pais cantem para suas crianças”, completa Waldner. 

Espoleta Blues: as crianças e o universo rock’n’roll

O rockeiro Elder Effe, que traz em sua trajetória bandas como Suzana Flag, Ataque Fantasma e Johny Rockstar, deixou um pouco de lado os acordes mais nervosos de sua guitarra para falar sobre princesas, peixe e ataques de risos. Pai de Sofia, 5 anos, Elder reuniu amigos para formar a Espoleta Blues, e fazer rock para gurizada. A ideia surgiu depois de um convite da Rádio Cultura para que Elder fizesse covers para o público infantil no programa “Abracadabra”, que comemorava 20 anos no ar. 

“Eles me propuseram tocar umas versões de músicas infantis de outros artistas, mas acabei fazendo duas músicas e, ao invés de me apresentar como artista solo, chamei alguns amigos, todos pais. Deu tão certo e foi tão espontâneo que outras composições surgiram bem rápido”, diz o músico, que trabalha nas composições para lançar um disco do projeto até o final do ano. “A ideia do CD foi natural. Tá sendo um barato compor o disco”.

Na banda, os papais Argentino Neto, Fabrício Frango e Junhão. Nos vocais, além de Elder, sua

herdeira, Sofia Fernandes, 5 anos, e Bárbara Feitosa, 5 anos, filha de Junhão. “O mais legal é ter as crianças participando. A Sofia adora. Tem participado das composições, dá nome pras músicas, além de cantar algumas faixas e ser minha inspiração. Outro dia ela falou: ‘Pai, existe o dia do peixe?’ Aí eu fiz uma letra em que um peixe vira prefeito pra criar o ‘Dia do peixe’”, conta Elder, que deixa ao encargo das crianças a escolha do nome do disco. “Elas irão batizar o trabalho. Elas são a nossa maior inspiração”.

(Diário do Pará)

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