Domingo, 29/07/2012, 10h56
Com toda simpatia e solicitude que Camilla Araújo transparece, é difícil acreditar que um problema sério limite sua vida. Sua fé na intervenção divina é parte de uma mudança de hábitos e de mentalidade que a perda da saúde lhe obrigou. Aos 34 anos ela faz parte do grupo de milhares de pessoas em todo o Pará com insuficiência renal crônica. Ou seja, seus rins pararam de funcionar, não suprem mais as necessidades biológicas e, enquanto viver, ela precisará que uma máquina cumpra essa função.
A descoberta da enfermidade foi demorada. Em 2007, surgiu o primeiro sinal: um pé inchado. Em 2008, foi a vez do olho esquerdo. No ano seguinte, sem qualquer dieta, Camilla perdeu 10kg e ficou anêmica. No início de 2010, ela já não menstruava, sentia náuseas e vomitava. Mesmo assim, não sabia o que tinha. “Até então, nenhum médico fez um diagnóstico correto. Disseram que eu estava grávida, com vermes e até que eu tinha câncer”, lembra.
No dia 18 de março de 2010, contudo, as coisas mudaram. Com o resultado de exames de sangue e urina em mãos, ela foi informada de que tinha insuficiência renal e precisaria ser internada na mesma hora para começar a diálise. “Os primeiros 18 meses foram muito difíceis. Não entendia como funcionava o processo, meu corpo não se adaptava ao tratamento, chorava muito, vivia abatida”, conta.
Agora, já mais esperançosa, casada e parcialmente ajustada aos novos hábitos, que incluem diversos remédios para o controle da pressão arterial, ela mobiliza uma campanha na internet para incentivar a veiculação de informações sobre o tema, a fim de instruir para a prevenção.
Atitude apoiada pela médica nefrologista Monique Malcher, integrante da equipe de transplantes do Hospital Ophir Loyola. “A maioria dos casos ainda tem origem no agravamento de doenças como hipertensão e diabetes. Se houvesse prevenção, não teríamos tantos casos. O ideal seria um programa de governo para unidades básicas, que estimulasse a prevenção com controle glicêmico e de pressão arterial”, cita.
Exames periódicos de sangue e urina também ajudam a diagnosticar qualquer problema ainda no início. “A população precisa ser estimulada e informada. Nos últimos anos, as pessoas até que já têm consciência dos resultados que a falta de controle destas doenças, como é o caso da insuficiência renal, mas elas ainda pensam que o acesso à assistência médica é difícil e acabam postergando até sentirem algum sintoma. E quando isso ocorre, na maioria das vezes, já é tarde”, complementa.
TRATAMENTO
O tratamento da insuficiência é feito através de diálise e transplante, que não é considerado uma cura, mas proporciona uma qualidade de vida maior ao enfermo. O governo oferece assistência de forma gratuita e conseguiu encerrar a fila de espera para a diálise, mas se não houver prevenção em pouco tempo o cenário piorará. “Voltaremos ao caos anterior, pois o número de novos casos continua crescendo e logo os equipamentos não serão suficientes, mais uma vez”, prevê a médica.
Além disso, a nefrologista lembra que apesar de mais comum em adultos, a insuficiência renal também atinge crianças. Nestes casos o problema é resultado de doenças congênitas e glomerulonefrite (doenças do próprio rim) e a prevenção ocorre com o pré-natal e diagnóstico médico correto. “Sem esses cuidados os pais acabam trazendo a criança quando os estágios iniciais já se desenvolveram em problemas crônicos, que poderiam, inclusive, ser corrigidos”, conclui.
FILA
Segundo dados da Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO) do Estado do Pará, até junho, a fila para transplante de rim contava com 879 pessoas, 585 aptas a receber o órgão a qualquer momento e 195 necessitando ainda algum exame ou liberação.
Para a presidente da Associação dos Renais Crônicos e Transplantados do Pará (Arctpa), Belina Soares, desde 1999, quando começaram os transplantes no Estado, as dificuldades ainda são as mesmas. “Falta infraestrutura e não há hospital de referência exclusiva para o procedimento. As notificações precisam crescer, mais profissionais devem ser treinados e capacitados para as etapas da doação de órgãos e uma campanha permanente também é imprescindível”, ratifica.
O RIM COMO FUNCIONA
O rim funciona como um filtro, removendo o que é ruim e deixando ficar o que é saudável. Remove as substâncias indesejáveis do corpo, reabsorve a albumina e sais desejáveis como o sódio, potássio, cálcio, e ainda secreta hormônios para o controle do volume, da pressão arterial, do cálcio e fósforo e da formação de hemácias. Há algumas situações que lesam o rim agudamente, mas podem ser revertidas, outras levam anos para o dano tornar-se aparente; em contrapartida são irremediáveis. Por isso, é importante prevenir doenças capazes de lesar o órgão, como nefrites, diabetes, hipertensão arterial, infecções urinárias e obstruções das vias urinárias.
SINTOMAS
Os primeiros sintomas da doença renal crônica também ocorrem com frequência em outras doenças, Mal estar, fadiga, coceira generalizada, pele seca, dores de cabeça, perda de peso, perda de apetite e náuseas. (Diário do Pará)
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