Terça-feira, 03/07/2012, 05h50
Com o desafio de sintetizar mais de 100 anos de história do cinema nacional em apenas quatro dias, o crítico de cinema Marco Antônio Moreira reúne cinéfilos a partir de hoje para oficina no Centro Cultural Sesc Boulevard. Sob a ótica de quem entende do assunto, os inscritos vão acompanhar os sucessos e fracassos da produção nacional. A estratégia é passear pelo cenário brasileiro da década de 70, 80 e 90, para mostrar as origens, a estética e as formas de realização e distribuição de filmes no Brasil, além de abordar aspectos da produção local. As inscrições estão encerradas e a oficina segue até o próximo dia 06.
Marco Antônio Moreira foi um dos fundadores da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (ABRACCINE) e é jurado em festivais de grande influência nacional, como Paulínia e Gramado. Atualmente é programador e consultor de cinemas, escreve textos para jornais de grande circulação em Belém e também é Presidente da Associação dos Críticos de Cinema do Pará (ACCPA).
Criado para fins científicos, o cinema revelou-se peça fundamental do imaginário coletivo do século XX, seja como fonte de entretenimento ou de divulgação cultural de todos os povos do planeta. A invenção dos irmãos Lumière revolucionou a arte e o entretenimento no mundo e por aqui não foi diferente.
No ano passado, a produção cinematográfica nacional atingiu a marca de 100 lançamentos anuais em filmes de longa-metragem e obteve uma participação em torno de 13% na venda total de ingressos de cinema, com mais de 18 milhões de bilhetes comercializados.
Os índices são inferiores aos apresentados em 2010, quando o país teve o fenômeno de bilheteria “Tropa de Elite 2”, ainda assim é considerado razoável, pois apontou o crescimento dos números de filmes com bilheteria superior a 1 milhão de espectadores como dado positivo em relação ao ano de 2010. Em 2011 foram sete filmes contra cinco em 2010.
HISTÓRIA
Oficialmente o Brasil possui como primeiro cineasta o imigrante italiano Affonso Segretto, que em 1898 filmou cenas do porto do Rio de Janeiro, então capital federal. Com este mote, centenas de pequenos filmes foram exibidos para pequenas plateias urbanas como forma de lazer e diversão. Nos anos 30, o cinema ganha voz e apresenta ao cidadão brasileiro as “chanchadas”, comédias musicais com populares cantores do rádio e atrizes do teatro de revista - do estúdio Cinédia. Películas como “Alô, Alô Brasil” (1935) e “Alô, Alô Carnaval” (1936) caem no gosto popular e revelam mitos do cinema brasileiro, como a cantora Carmen Miranda.
A criação do estúdio Vera Cruz, no final da década de 40, representa o desejo de diretores que, influenciados pelo requinte das produções estrangeiras, procuravam realizar um tipo de cinema mais sofisticado. Mesmo que o estúdio tenha falido já em 1954, conhece momentos de glória, quando o filme “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, ganha o prêmio de “melhor filme de aventura”, no Festival de Cannes.
No início da década de 60, um grupo de jovens cineastas inicia o movimento conhecido como Cinema Novo, que realiza uma série de filmes com forte temática social. O cineasta Gláuber Rocha é o principal destaque deste período. Foi ele quem dirigiu os aclamados “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1968). Figura conhecida no meio cultural brasileiro, Rocha defendia uma arte revolucionária que proporcionasse transformação social e política.
Inspirados por Nelson Pereira dos Santos (que, já em 1955, dirigira “Rio, 40 Graus” sob influência do movimento neo-realista, e que realizaria o clássico “Vidas Secas”, em 1964) e pela Nouvelle Vague francesa, diretores como Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Ruy Guerra participam dos mais prestigiados festivais de cinema do mundo, ganhando notoriedade e admiração.
Da ditadura à volta em grande estilo
As décadas seguintes revelam-se a época de ouro do cinema brasileiro. Mesmo após o golpe militar de 1964, que instala o regime autoritário no Brasil. Com o propósito de organizar o mercado cinematográfico e angariar simpatia para o regime, o governo Geisel cria, em 1974, a estatal Embrafilme, que teria papel preponderante no cinema brasileiro até sua extinção em 1990. Dessa época datam alguns dos maiores sucessos de público e crítica da produção nacional, como “Dona Flor e seus dois maridos” (1976), de Bruno Barreto, e “Pixote, a lei do mais fraco” (1980), de Hector Babenco. Com o fim do regime militar e da censura, em 1985, aumenta a liberdade de expressão que aponta novos caminhos para o cinema brasileiro. Contudo, essa perspectiva é interrompida com o fim da Embrafilme.
A produção nacional, dependente da estatal entra em colapso e pouquíssimos longas--metragens nacionais são realizados e exibidos nos anos seguintes.
No início dos anos 90, o sistema se reergue gradualmente com a criação de novos mecanismos financiamento da produção por meio de renúncia fiscal (Leis de Incentivo). Esse período é conhecido como a “Retomada” do cinema brasileiro. Em pouco tempo, três filmes são indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: “O Quatrilho” (1995), “O Que é Isso, Companheiro” (1997) e “Central do Brasil” (1998), vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim. Nomes como Walter Salles, diretor de “Terra Estrangeira” (1993) e de “Central do Brasil”, e Carla Camuratti, diretora de “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” (1995), tornam-se nomes conhecidos do grande público, atraindo milhões de espectadores para às de exibição.
(Diário do Pará)
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