Sexta-feira, 22/06/2012, 08h13
“Mesmo sem ver’, lhë cünto. estas histórias, meu sumano, furam for’jadas ë cor’ridas pülo tüdo lugar’, que nem jor’nar daria cünta dë nar’rar’ ö mais perfeito”
Não, caro leitor. Não se trata de um idioma estrangeiro ou de erro de digitação. O trecho em destaque é, na verdade, um legítimo exemplar do jeito de falar paraense. O escritor Walter Freitas criou as representações fonéticas para retratar o linguajar acaboclado da Amazônia no livro “Kararaô”.
“Se bem que para ouvidos não treinados, a forma de se comunicar do nativo da região às vezes soa mesmo de outro mundo”, admite o autor. Os tremas, apóstrofes e acentos têm a intenção de copiar a musicalidade da conversa do caboclo. Todavia, mais do que um recurso estilístico intricado, eles ajudam a aumentar a mística por trás de seu romance de estreia.
A história gira em torno de uma comunidade de ribeirinhos, ameaçada pela construção da barragem de uma hidrelétrica, batizada de “Kararaô”. O nome da obra fictícia, inclusive, faz alusão ao primeiro nome dado a hidrelética de Belo Monte, em construção no Rio Xingu, oeste do Pará.
Apesar de refletir o drama dos atingidos por barragem, o livro não tem a intenção de ser um retrato fiel da realidade. Tanto que o risco de desapropriação que os habitantes do local correm, logo é eclipsado por supostos ataques de um boto, criatura encantada em forma de homem que ataca as mulheres do vilarejo.
“Os ataques transformam a comunidade em inimigo do boto, que atua como uma espécie de vampiro sexual. Não é uma fantasia, porque essas crenças sobre boto, cobra grande, são vividas no imaginário dos ribeirinhos. Fazem parte da realidade deles. Mas também não é uma obra de cunho estritamente social, apesar de tocar nas questões das barragens. Se fosse para definir, o tema central do romance é a nossa identidade: nosso jeito de falar, nossas crenças, o jeito de se relacionar com a natureza”, afirma o escritor paraense de 58 anos, que também atua como músico, dramaturgo e ator.
Lançada no último dia 12, pela editora Cejup com patrocínio cultural da Petrobras, através da Lei Rouanet, a obra começou a ser esboçada em 2005. Entretanto, a inspiração do livro é bem anterior. Veio como reflexo de sua carreira como músico, partir de pesquisas sobre manifestações populares desenvolvidas na década de 1980. Em seu álbum “Tuyabaé Cuaá” (1988), Walter Freitas lança pela primeira vez mão da escrita fonética.
Foi durante a sua infância no bairro do Jurunas, em Belém, que o autor diz ter observado essa babel de sotaques que é o jeito de falar paraense. Na década de 1950, a capital se expandia para o bairro, recebendo interioranos de todos os cantos do estado. “Era uma mistura da língua portuguesa e termos de origem indígena e africana, marcando um jeito muito paraense de falar. Foi na década de 70 que incorporei isso na minha carreira de compositor, criando essa linguagem meio musical, meio literária. Não se trata de mera transcrição, é uma recriação poética”, relembra.
Apesar do impressionante exercício de escrita de “Kararaô”, não é tanto pelo seu aspecto formal que a obra deve ganhar renome. Convidado pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo como palestrante no próximo dia 25, Walter Freitas já prevê que Belo Monte será o principal foco das discussões. “Mesmo começando a escrever o livro antes do calor da discussão de Belo Monte, com o Rio+20, Xingu+23, o código ambiental, é a questão que chama mais atenção. É engraçado, que desde o lançamento do livro, as pessoas vem a mim saber o que eu acho que deveria ser feito, meu posicionamento. ‘O que acontece no livro, eles se salvam?’, perguntam. Meio que sem querer, virei um guia”, conta.
Para os interessados nas previsões do autor, ele garante que na vida como na ficção tudo aponta para um final não tão feliz assim. (Diário do Pará)
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