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Pará
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Terça-feira, 19/06/2012, 02h19

Doação de órgãos pode salvar vidas

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Uma nova vida captada por um novo olhar. Para Sidney Ferreira, 65 anos, tal expressão impera cheia de significados atualmente. Em novembro de 2011, ele realizou um transplante de córnea e com o órgão doado por familiares de um garoto de 15 anos ele agora vê com cuidado e paciência todos os cantos que nos últimos anos quase não reconhecia.

Assim como muitos, ele nunca se preocupara especificamente com os olhos. Enxergar para ele era algo natural, que nunca lhe seria tirado. Até que diversos acontecimentos, em sequência, comprometeram tal certeza. Em 1997 um grave atropelamento lhe tirou um dos olhos. Uma prótese foi colocada no local, mas Sidney, que trabalhou a vida toda como motorista de ônibus, precisou se aposentar por invalidez. Depois disso um simples exame oftalmológico acusou que ele tinha catarata no outro olho e precisava mais uma vez ir à mesa de cirurgia. Tudo transcorreu bem e uma lente permanente foi colocada. Em 2007, contudo, outro incidente quase lhe tira de vez a capacidade de enxergar. Um tumulto com marginais, que estavam na rua da sua casa, resultou numa agressão física séria. Na tentativa de ajudar uma moça que era assaltada, Sidney foi atingido com barro nos olhos. “A minha retina foi toda prejudicada e não conseguia ver mais quase nada. A córnea estava cheia de manchas e tudo parecia desfocado, embaçado. Fui ao médico e ele disse que só um transplante poderia solucionar”, lembra. A situação era de risco pela idade e porque ele tem uma prótese no lado esquerdo. Mas graças a toda equipe médica, doadores, familiares, amigos e também às orações de Norma, tudo ocorreu bem. “Fui muito bem atendido no hospital, não tenho do que reclamar. As pessoas que trabalham lá, com doação principalmente, se dedicam muito à causa”, afirma. Ao lado da esposa, com quem tem o maior chamego, ele diz orgulhoso que “Ela foi minha enfermeira. E até agora é ela que sabe os remédios, horários, modo de colocar o colírio”. Norma diz que ficou desesperada com a situação de perda. Esperou esses três anos sempre pedindo para Deus, Santa Luzia e Santo Expedito, que ele conseguisse o transplante e ficasse bem.

“Durante o transplante, que demorou mais ou menos oito horas, fiquei o tempo todo no hospital. Quando ele saiu da sala de cirurgia eu já me aliviei, mas o momento mais feliz foi no dia seguinte quando a médica retirou o tampão e ele disse que estava enxergando”, conta emocionada.

“Agradeci muito nas minhas orações à pessoa que assentiu a doação. Acho que as pessoas deveriam pensar mais no assunto, conhecer o que é doação, porque qualquer um de nós pode estar nessa situação, do outro lado, precisando da compaixão e da solidariedade”, opina Sidney.

Agora o planejamento é comemorar o aniversário de casamento com todas as expectativas renovadas, como fora no início, 40 anos atrás. “Vamos passear, porque nos últimos quatro anos pouco saí de casa. É como se eu não conhecesse mais Belém, preciso ver como estão as coisas agora”, diz.

DISPOSIÇÃO

A fala compassada engana. Ali está uma mulher com muita disposição. Márcia dos Santos, 45 anos, escolhe as palavras por prazer e transluz no olhar todo o sentimento que a acompanha desde que começou a tratar os rins paralisados, há aproximadamente 15 anos.

Mesmo após 6 anos portando novos rins, a lembrança do período em que passou em tratamento de hemodiálise ainda é dolorosa. “A pessoa passa muito mal. Toma remédios controlados. Abala muito o psicológico, porque sobreviver passa ser prioridade”, diz.

Além dos efeitos no paciente, a enfermidade também abala a família. Segundfo ela, os gastos com medicação eram tão altos que, às vezes, não era possível adquiri-los. Só um dos vários medicamentos ultrapassava mil reais. “Chegamos a fazer uma carta à secretaria de estado de saúde pedindo os medicamentos, entregamos a um conhecido que poderia nos ajudar e aguardamos algumas semanas, mas conseguimos”, conta.

Durante os sete anos e meio que ficou na fila para transplante, Márcia foi chamada três vezes, mas como o organismo não estava saudável o suficiente ela perdeu a chance. “Cada vez que chamavam criávamos esperança, e quando nos diziam não era como se tudo desmoronasse e precisássemos começar mais uma vez tudo de novo”, diz. Mesmo assim, todos se mantiveram unidos, com força e esperança.

“O maior incentivo para suportar toda a espera veio da família”, conta. Quando o dia finalmente chegou, ninguém conteve a comemoração. “Agora tenho mais motivação, mais vontade de viver. É uma benção muito grande. Um sentimento de gratidão eterno. Eu torço muito para que todas as pessoas que ainda estão na fila saiam o mais rápido possível, porque a sensação de acordar e não precisar ir ao hemocentro é uma das melhores coisas na vida”, diz.

Ao lado de duas das filhas ela recebe um abraço e sorri satisfeita. A vida começa mais uma vez. E ainda melhor.

Da tragédia, nasceu a esperança

“Acho que doação é uma questão de mentalidade. E nós precisamos ter uma mentalidade mais humana, saber que através das nossas decisões podem ajudar outras pessoas. Talvez aquela perda possa se tornar um ganho”. Apesar da pouca idade, Ademir Junior, contador, fala com a propriedade de quem há anos se dedica em promover o bem. Com personalidade forte ele solta naturalmente na conversa as ações que já fez e quanto mais dele se ouve mais se estabelece a certeza de que está alguém especial. Dedicado a si e aos outros, na mesma proporção.

Em setembro de 2011 ele doou parte da medula óssea, por meio de oito extrações no osso da bacia. “Me cadastrei em janeiro e em junho me ligaram para que eu fosse fazer entrevistas com psicólogos e uma bateria de exames clínicos”, conta.

Quando doou ele sabia apenas que o líquido iria para um receptor em Brasília e diz que não pensava em quem seria o beneficiado. Um mês depois, contudo, uma mulher chamada Carmem veio a Belém durante o Círio de Nazaré e o procurou. Ela era a mãe de um garoto de 4 anos, o agraciado com a medula de Ademir. Ela viera agradecer pessoalmente a ação que salvou o filho, que há dois anos aguardava na fila e já estava em condições preocupantes. “Ela se emocionou, queria me ajudar de alguma forma, mas esse não foi o propósito da minha decisão. Saber que dei a oportunidade de alguém continuar a viver é a melhor recompensa que posso receber”, garante.

Ele e os pais do receptor mantêm contato por e-mail e devem se encontrar em fevereiro, quando Ademir irá conhecer o garoto. “Sei que ele começou a fazer natação, está indo pra escola, ganhou peso, está tendo uma vida normal”, enumera.

Para ele, a doação de órgãos ainda é um processo burocrático, mas que poderia ser mais ágil se houve também um interesse maior das pessoas. “Às vezes existem questões religiosas, de valores, mas na maioria das vezes falta informação”, diz. A principal diz respeito a supostas consequências que a doação traria à saúde. “Logos nos primeiros dias senti um pouco de dor, mas depois passou e hoje não tenho nem cicatrizes do procedimento. Foi como disse para os pais, para mim o sofrimento é temporário, mas o que ele gerará é uma alegria eterna. Nada é capaz de superar a felicidade em ter ajudado alguém”, garante.

RECORDAÇÕES

Uma mangueira que ainda se impõe no quintal da família Costa traz um misto de diferentes recordações. A árvore era o local preferido da adolescente Estephany, de 12 anos. Era lá que ela ouvia suas música no celular, pensava na vida e se alimentava do fruto que mais gostava. No dia 27 de novembro, contudo, o hábito se transformou em tragédia. A jovem subiu na mangueira a procura de mangas e se desequilibrou e caiu. De dentro da casa a mãe, Raquel, assistiu a tudo, mas não imaginara a gravidade da situação. “Foi quando eu corri pra levantá-la que vi que ela tinha caído em pé, em cima de uma cerca e a madeira tinha entrada por baixo do pescoço e atravessado toda a cabeça”, lembra.

O esposo, Francisco, também veio socorrer a filha e junto com outros vizinhos quebrou parte da madeira, sem, contudo, tirá-la do lugar, e levou Estephany para o hospital mais próximo. Transferida pra o Hospital Metropolitano, em Ananindeua, ela foi submetida a uma cirurgia. “Demorou várias horas, mas depois o médico veio nos dizer que tinha sido um sucesso, que em breve ela acordaria e veríamos as sequelas do acidente”, conta Francisco. A jovem, porém, nunca acordou e após quatro dias inteiros sem nenhuma reação foi diagnosticada com morte encefálica. Os pais autorizaram a doação e um dia depois, no outro domingo após o acidente, realizaram o velório da filha.

Mas além de pensar num ato ainda durante o luto, a família ainda precisou lidar com diversas críticas de outros parentes e amigos contrários à doação. “Nos perguntavam como havíamos feito isso com a nossa filha, de deixar os médicos cortarem o corpo dela. Mas sabíamos que eles estavam errados. Sempre tivemos a consciência de união, repartir com os outros. E foi o que fizemos com ela. Naquele momento nossa felicidade foi ver que ela estava salvando outras vidas”, diz Francisco. De Estephany foram retirados o fígado, as córneas e os rins.

Hoje ele e Raquel pensam nela como alguém apaixonada pela vida, que apesar do tamanho acima da média pra a idade, ainda curtia a infância. Olham com carinho para o nome escrito em diversos cantos da casa e seguem em frente movidos pelo amor pelo outros e aos dois filhos mais novos, para quem já mostram o bom exemplo da compaixão.

(Diário do Pará)

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