Segunda-feira, 28/05/2012, 03h16
Assim que se senta em frente ao computador, João Carlos da Silva dá início a um processo detalhado. Passada a fase inicial do ‘click’ que liga o estabilizador instalado ao lado da CPU (Unidade Central de Processamento), é chegada a hora de alinhar o teclado ao limite da mesa, ajustar a tela à altura de seus olhos e trazer para mais perto de suas mãos o pequeno mouse que lhe servirá de guia. Daí, segue a espera de que a máquina faça a sua parte.
O cuidado e a intimidade de João com o computador são percebidos, hoje, à primeira vista, mas nem sempre foi assim. Hoje vigilante, João não vacila em nenhum momento. Entra nos sites que mais gosta, checa as mensagens recebidas por e-mail, imprime o que for necessário. Há quatro anos, o então pedreiro tremia só de sentar em frente ao computador. A diferença veio após muitas visitas à sala do infocentro do Centro Comunitário Nova Marambaia (C.C. Noma), construído a partir de recursos do programa Nevegapará, do Governo do Estado.
Voltado para a promoção da inclusão digital a partir da disponibilização de recursos para a construção de espaços voltados para o aprendizado da população e de pontos de livre acesso à internet na cidade, o programa mantém, atualmente, 181 infocentros, como o que possibilitou o aprendizado de João, em 47 municípios paraenses. “Os infocentros são espaços com computadores que servem para orientar a comunidade, proporcionar cursos de informática básica e também ter acesso a serviços como impressões”, explica a coordenadora do Navegapará, Mônica Braga.
De acordo com a proposta do programa, representantes de órgãos públicos ou organizações sem fins lucrativos do terceiro setor (que engloba as iniciativas privadas de utilidade pública com origem na sociedade civil) podem concorrer, através de edital, aos recursos de implantação do programa. Dividido em modalidades, há editais que oferecem ajuda, através de contrapartida do governo, o link da internet e o treinamento dos monitores. Há ainda o que oferece, além disso, os equipamentos necessários; e o que oferta também a disponibilização dos monitores para orientar a comunidade nas aulas. “Estamos na atual de expansão do programa. Por enquanto, só está disponível a o edital da primeira modalidade”.
FIXAR ESPAÇOS
Além dos requisitos básicos como a realização de um projeto de inclusão social e a promoção de um trabalho voltado para a comunidade, neste momento, para requerer a ajuda do Navegapará, a entidade precisa também ter disponível um espaço com pelo menos seis computadores. De qualquer modo, segundo Mônica, a maior dificuldade enfrentada hoje pelas organizações do terceiro setor é a de se sustentarem sozinhos após a implantação do programa, já que, todos os serviços oferecidos pelos infocentros têm que ser, obrigatoriamente, gratuitos. “Essa é a dificuldade que eles têm para manter esses espaços abertos”, ressalta a coordenadora do Navegapará. “Queremos passar para eles a noção de sustentabilidade desses espaços para que possam se manter sozinhos. Eles têm que buscar isso”.
CALOS DIGITAIS
Tendo como renda única o aluguel de espaços do centro comunitário para eventos, esse vem sendo o principal ‘calo’ do C.C. Noma. Um dos primeiros infocentros implantados na Região Metropolitana de Belém (RMB). Segundo seu gestor, Nilzomar Salim, o infocentro instalado no centro comunitário nunca parou de funcionar desde 2008, quando foi criado, mas as pessoas que dedicam sua vida às oficinas temem que a manutenção das atividades no local se torne cada vez menos viável. “Como vou pagar energia, manutenção dos computadores, permitir que as pessoas imprimam antecedentes criminais, declarações, título de eleitor?”, questiona Salim. “Cobrar deixa de ser inclusão digital, não existe essa possibilidade. Mas bancar tudo é complicado. O terceiro setor não tem como fazer isso”.
Para Salim, que já viu passar pelos computadores do C.C. Noma mais de cinco mil pessoas, sustentabilidade de infocentro é a satisfação pelos benefícios levados à comunidade local. “Damos aulas de interne. Ensinamos eles a criar seus e-mail1s, a se comunicarem, e também procuramos dar para eles o que o mercado pede”, explica.
Diferente do cenário inicial, Salim lembra que, hoje, os monitores antes mandados pelo programa Navegapará não chegam mais. Para continuar mantendo as aulas, ex-alunos foram capacitados para dar as aulas a partir de uma ajuda de custo mínima dada pelo próprio centro comunitário. “Não temos um acompanhamento. Sobrevivemos sozinhos aqui”.
Independente das dificuldades, um dos maiores orgulhos de Salim é ver como a vida de João Carlos da Silva mudou após as aulas de informática. O homem, hoje, interado e cuidadoso com o computador, antes “teclava tão forte que a gente tinha medo de ele quebrar tudo”, brinca.
“Quando comecei tinha um certo medo. Era um monte de gente em volta olhando. A própria tecnologia te deixa intimidado”, explica-se João. “Não tinha ideia do tanto de coisas que podia fazer. Sem internet a gente fica excluído”.
Banda larga cresce, muda acessos, mas ainda é frágil
Apesar de não contribuir de forma significativa para a inclusão digital, o acesso à banda larga no Brasil atingiu a marca de 58 milhões de acessos em 2011, quando foram ativados 23,4 milhões de novos acessos fixos e móveis. De acordo com um levantamento da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), a marca representa um aumento de quase 70% em relação a 2010.
Independente dos problemas apresentados na banda larga brasileira que, segundo a professora e pesquisadora em Tecnologias da Inteligência, Kalynka Cruz, é uma das mais lentas e caras do mundo, o surgimento da banda larga contribuiu, aliado a outros elementos, para uma mudança na relação da sociedade com a internet. De acordo com Kalynka Cruz, o modelo de internet discada favorecia uma relação utilitária, favorecendo o surgimento de usuários "ocasionais" – o que acessa a internet com motivações específicas -, já com a banda larga e a evolução da internet com mais interação e imersão, surge outros tipos de usuários, os excessivos – que têm o cotidiano quase inteiramente ligado à internet – e o extremo – que não consegue viver fora do ciberespaço. “A banda larga tornou o acesso à rede quase obrigatório. Antes, a sociedade entendia o ciberespaço como uma ferramenta; com a banda larga, o ciberespaço se tornou uma extensão da sociedade”.
O universitário Daniel Cardoso tem, em seu cotidiano, um exemplo dessa extensão. Ao acordar, o celular é o primeiro compromisso. Pouco tempo depois, o computador é ligado e a conexão com a rede se dá até o final do dia. “Passo o dia inteiro conectado. Já tentei ficar uma vez sem internet e só consegui ficar três dias”, conta. “É complicado ficar sem porque todos estão conectados. É mais fácil falar com alguns amigos pelas redes sociais do que pelo telefone”.
Apesar de ter vivido um período de sua infância com a internet discada, hoje, ele não se imagina tendo que ficar preso a um computador de mesa para estar conectado. “Desde pequeno sou fã de computador, já nasci com ele. Lembro que eu gostava daqueles jogos de computador em CD, da demora da internet discada, que tinha que ocupar uma linha de telefone pra funcionar”, lembra. “Hoje acho difícil ficar um dia sem acessar. Já fico agoniado quando o 3G não funciona, quando não tem wi-fi (internet sem fio)”.
A realidade vivida pela engenheira civil Ana Maria de Moraes na época da faculdade era bem diferente. “Já estava na faculdade quando o computador e a internet começaram a ser mais usados aqui no Pará. No meu círculo de amizades, só uma pessoa tinha computador. Tínhamos que ir todos pra casa dela pra fazer trabalhos”.
Apesar de hoje ter internet banda larga em casa, Ana Maria confessa que, por ela, o serviço não seria muito utilizado. Sem cadastro em nenhum tipo de rede social, Ana tem apenas um e-mail por onde se comunica com amigos e familiares. “Eu sei viver sem internet. Já passei mais de 15 dias sem entrar. Só tenho um e-mail e nem gosto muito de responder e-mail’s, não gosto desse tipo de obrigação”, afirma. “É uma opção e me sinto bem assim”.
(Diário do Pará)
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