Sexta-feira, 11/05/2012, 03h02
Peter Berg fez carreira modesta como ator, mas o cinéfilo deve se lembrar dele como o jovem ingênuo - um matuto - que se deixa envolver na teia da mulher fatal Linda Fiorentino em “O Poder da Sedução”, de John Dahl. Aquela experiência deve ter sido decisiva para Berg, não só como ator, mas como homem. Modelou o diretor em que ele se transformou. “O Reino”, com Jamie Foxx e Jennifer Garner, reinventa o thriller político como ação e arrasa com o mais considerado “Zona Verde”, de Paul Greengrass, com Matt Damon, com o qual possui similaridades. “Battleship - A Batalha dos Mares” é agora o tipo do filme que os críticos amam odiar.
Blockbuster, barulhento - puro efeitos. Só isso? Não. No seu verbete sobre John Gullermin no “Dicionário de Cinema”, Jean Tulard, querendo salvaguardar o diretor dos críticos, observa que o cinema espetacular, como se sabe - a frase é dele -, “não é um gênero fácil”. Há uma química que é preciso fazer funcionar, mas nem sempre funciona. Ela envolve elenco, direção, roteiro, um monte de elementos.
Acaba de sair no Brasil o livro “Invencível”, de Laura Hillebrand, a autora de “Seabiscuit”. Depois de contar a história do cavalo que supera seus limites - e do jóquei que o conduz para ser campeão -, ela resgata a história (real) de um rebelde, o garoto perdido da cidade, que também se supera, vira campeão de corrida e, em plena 2.ª Guerra, se descobre sozinho, num bote destroçado, no meio do oceano. A história desse jovem, enquanto rebelde, parece a do personagem de Taylor Kitsch.
O jovem do livro também tem um irmão mais velho, e sábio. Na abertura de “Battleship”, a Nasa lança um programa de comunicação para os confins do universo, onde existe um planeta como a Terra. Corte para um bar em que o irmão mais velho oferece a Taylor Kitsch sua última chance de ‘recuperação’, que ele desperdiça, trocando-a por um rabo de saia.
No começo, o garoto parte para dar à mulher desejada o burrito - de frango - que ela quer comer. No final, o burrito está de volta, fechando um ciclo, mas ainda como um desafio para o agora homem. No intervalo, ele salva o mundo de alienígenas, descobre sua liderança, organiza o grupo. É um herói ‘hawksiano’ (digno de Howard Hawks). É tudo clichê, mas, dependendo do olhar do espectador, tudo se organiza, faz sentido e pode ser emocionante É um sonho de cinema - a trajetória do herói - e Peter Berg faz o crossover. Reabilita velhos marinheiros (reinventando o Clint de “Cowboys do Espaço”). Taylor Kitsch derrota os ETs, difícil é convencer o almirante de que merece a mulher amada. A chave é o burrito. Não há tempo nem espaço para falar de Rihanna. É ótima. E o filme, boa diversão.
BATTLESHIP - A BATALHA DOS MARES
O irlandês tranquilo. Assim poderia ser também chamado Liam Neeson, o irlandês que já foi pugilista, motorista de caminhão, professor de física e estreou no cinema em “Excalibur”, em 1981, após ser descoberto por John Boorman. Famoso por seus papéis dramáticos e densos, Neeson, à beira dos 60 anos, vive nova fase e tem sido convidado para papéis de ação Em “Battleship”, é Shane, um almirante durão com dois ‘grandes’ dramas: ajudar a salvar a Terra de uma invasão alienígena e tentar se entender com o namorado da filha. Em março, durante o lançamento mundial do filme, ele conversou com a reportagem.
P: Como recebeu a ideia de um filme baseado em um videogame?
R: Lembro de ter visto meus filhos jogando Battleship vez ou outra. Mas o que pensei foi: Havaí? Pearl Harbour? OK!
P: Acha que “Battleship” ainda se parece com um videogame?
R: Um filme com argumento tão específico pode ser tanto um sucesso quanto um fracasso. Mas Battleship é um filme muito bom. Houve grandes filmes nos anos 40, 50 sobre batalhas navais e tal. Este é um deles. Ok, eles estão lutando contra aliens, mas ainda assim.
P: Você sempre foi associado à figura de um ator que é capaz de dar profundidade a um filme, mas começa a ser descrito também como uma ‘estrela de filmes de ação’. Se você tivesse de se descrever, como seria?
R: Como um filha da mãe sortudo... Sinceramente, não sei. Isso de ‘ator de ação’ começou com o Taken (de Pierre Morel) há três anos. Aceitei fazer porque era para ir direto para o vídeo. Ia ser divertido passar alguns dias em Paris, fazendo um papel que nunca ninguém pensou para mim antes. Mas a Fox começou a investir no filme e começou a ser um sucesso. Quando vi já estava recebendo roteiros de ação!
P: Como se sentiu?
R: Senti um pouquinho de vergonha. Mas, adorei ser garoto de novo. Ou ao menos ter 25 anos de novo. Fazer coisas que adoraria ter feito quando tinha essa idade e não pude.
P: Quais os desafios de um filme de ação?
R: Comparado com um drama? Acho que não muitos. O que me interessa é se o roteiro é bem escrito. A partir daí, vejo o que o personagem pede. No caso de Taken, é sobre um homem forte que tenta salvar sua filha. Apesar de ser um filme de ação, este drama é universal. Acho que por isso foi um sucesso. Não sei se você tem filhos já, mas eu sou pai e me identifico muito.
(Agência Estado)
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