Sexta-feira, 20/04/2012, 09h21
“Dedico essa obra aos historiadores e amantes da verdade”. O desabafo dá inicio ao livro “Eu e as últimas setenta e duas horas de Magalhães Barata”, que reúne as memórias de Dalila Ohana, segunda mulher do governador paraense.
Lançada em 1960, um ano após Barata perder a batalha para a leucemia, a obra é um grito desesperado de justiça da autora. Com o marido à beira da morte, Dalila é expulsa da casa em que o casal viveu por anos, pelas mãos da ex-mulher e das filhas do governador. Separado desde 1930 e vivendo com Dalila por 21 anos, o relacionamento do político era mal visto pela igreja e sociedade da época, que não reconhecia o divórcio.
“Barata morreu chamando o nome de Dalila. E por ciúme, por traição, por ódio, ela não pode ficar ao lado dele”, conta a atriz Zê Charone.
Ela vive Dalila nos palcos em “Sem Dizer Adeus”, adaptação do Grupo Cuíra, que volta hoje ao palco, para curtíssima temporada. Cinco década depois, a artista acredita que o clamor de Dalila finalmente foi ouvido. “Quando me deparei com essa história, senti a obrigação de contá-la. Me tocou, me deu uma gana de fazer justiça. O que ela passou não podia ficar impune”, disse.
Na adaptação, são revividos os três últimos dias de vida de Magalhães Barata. Quando o ex-governador cai doente, também se inicia o calvário de Dalila. Não querendo que Barata morresse em conflito com a ex-esposa, sugeriu que esta viesse do Rio de Janeiro, onde morava, para uma reconciliação. Termina escorraçada da própria casa pela família, secretários de Estado e até o Arcebispo. Ela refugia-se na casa do irmão, vizinha a sua, e de lá observa os últimos momentos do marido.
De autoria e direção de Edyr Augusto Proença, a montagem traz Claudio Barradas no papel de Barata. Cláudio e Zê contracenam tendo como pano de fundo projeções dos rostos dos atores Henrique da Paz, Olinda Charone, Saulo Sisnando, André Mardock, Roni Hofstatter e Flávio Ramos.
REMINISCÊNCIAS
“Exige um timming imenso participar dessa peça. Qualquer atraso, qualquer fuga do script seria um desastre completo”, relata Barradas. O ator de 82 anos - que divide os palcos com a função de padre - diz ter baseado seu papel nas memórias da sua convivência com o governador quando trabalhava como repórter, na década de 1950.
“Um belo dia ele apareceu na redação. Aquilo me marcou até hoje: de terno, com um charutão na boca, voz rouca e bastante simpático, falando com todo mundo. Eu tinha essa imagem mitológica dele, de fardão e discursando. Mas ele continuava imponente, mesmo baixinho que nem eu. Eu me baseio nessa vivência daquela época, mesmo porque o livro da Dalila é muito centrado na visão dela”, justifica.
Cuíra por Memórias
Em sua terceira temporada, “Sem Dizer Adeus” foi montado pela primeira vez em 2010, como parte do projeto “Cuíra por Memórias”. Patrocinado pela Petrobras, através da Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, a proposta do projeto é elaborar um espetáculo baseado na história de Magalhães Barata. Militar do exercito, ele ascendeu à vida política em 1930, como interventor federal no Pará. Até o final do ano, está prevista a estreia do musical “Barata, pega na chinela e mata”, no qual Cláudio Barradas viverá novamente o político. (Diário do Pará)
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