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Quinta-feira, 19/04/2012, 10h25

Companhia Moderno de Dança celebra dez anos

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Se pudesse, ela teria voltado antes. O corpo queria, podia. Não pedia mais descanso e, sim, movimento. A bailarina Andreza Barroso sofria a angústia de estar longe dos palcos. Não precisava de mais tempo de licença-maternidade. Por ela, retornaria no mês seguinte. Levaria o rebento para os ensaios da Companhia Moderno de Dança, se fosse preciso. Pensou em inúmeras alternativas. Mas não teve jeito, ninguém na Companhia aprovou. Deram mais tempo à dançarina, que só reincorporou-se à antiga rotina em 17 de outubro de 2011, cinco meses depois do nascimento do segundo filho.

“Era preocupação com a minha saúde mesmo. Acharam que tava muito cedo pra eu voltar. Eu tava super angustiada, tinha medo que a vida colocasse entraves para eu não poder voltar”, lembra Andreza, hoje aos 27 anos. Há muitos motivos para tamanho apego, carinho, amor, paixão, entrega. São inúmeros os adjetivos que acompanham quem integra a Companhia Moderno de Dança, prestes a completar dez anos de trajetória. “Não consigo me afastar. Se eu falto na capoeira ou na dança um dia, uma semana, começo a ter sintomas de estresse, fico irritada”, desabafa.

Cogitar a despedida ou uma saída do grupo é hipótese descabida para essa dançarina e capoeirista. “A Companhia foi meu sonho realizado, era meu ideal. Quando eu dançava em outro grupo eu já era fã, admirava o trabalho. Mas achava que era algo tão impossível... a Companhia é como um grupo muito fechado. As pessoas parece que têm receio ou têm medo de se aproximar por isso. O que é absurdo. Aqui as pessoas carregam materiais, ajudam no cenário. Não tem essa de bailarino que chega só na hora do espetáculo. A gente faz tudo. Aqui não tem moleza. Essa palavra não existe aqui”, afirma professora de educação física, técnica em dança, professora de capoeira e mestre em artes cênicas pela Universidade Federal do Pará.

Há quatro anos no time, Andreza é uma novata se comparada à boa parte dos colegas, presentes desde o surgimento da Companhia Moderno de Dança (CMD), em 2002. O grupo está em tempo de festa. Celebração. Completa dez anos de atividades em 2012 com o espetáculo “Lírica Morada”, inspirado no poema “Para ler como quem anda nas ruas”, de João de Jesus Paes Loureiro. Reúne as histórias de antigos e novíssimos integrantes, que carregam no corpo a essência de cada trabalho. Tudo construído sobre o terreno fecundo do empenho e da vontade em ressignificar o sentido da arte. Caminho que exigiu escolhas. Deu origem a uma vida paralela, dupla, tripla.

Com multi jornadas.“A gente criou uma estratégia que, pra Companhia sobreviver, é preciso que a gente tenha uma profissão paralela. Isso faz com que todo o dinheiro que entra, de ingresso, de bilheteria, de edital, ao invés da gente pagar o nosso cachê, a gente possa reinvestir na Companhia”, comenta Ana Flávia Mendes Sapucahy, diretora artística, uma das fundadoras da CMD e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA). “A nossa realidade não permite uma remuneração condizente com o trabalho que a gente tem”, explica. E não é pouco. Os ensaios seguem o ano inteiro. Perto das estreias dos espetáculos chegam a ocorrer todos os dias. Há pausas muito pontuais. “Não existe intervalo. Terminou uma temporada, a gente não vai descansar, o trabalho continua”, diz.

As realidades, por vezes, entram em conflito. “Desde a faculdade eu vivo em dois mundos, que brigam muito entre si, porque o mundo da arte tem um coisa de anti burocracia. A burocracia para o artista é sinônimo de limitação. O olhar contrário já vê a arte como despesa. Eu cresci lá dentro [do curso de direito] com o meu coordenador dizendo que eu tinha que largar a dança para me dedicar ao curso”, lembra o dançarino e advogado Ercy Souza, 28. No lugar do empecilho, Ercy via o ponto de encontro entre as duas paixões.

“Minha linha de pesquisa na faculdade foi lei de incentivo à cultura. Eu sempre corri atrás disso dentro do direito, de políticas públicas voltadas para a cultura. Isso só foi possível vivenciando esses dois mundos”, conta Ercy, presidente em exercício da Associação Paraense de Dança (Apad). Além de atuar em outras atividades que congreguem as experiências nos dois setores. “Uma forma de tentar diminuir essa lacuna”, aponta o bailarino que ajudou a fundar a Moderno de Dança.

Jornada exaustiva em busca da perfeição

O processo criativo da companhia já começou em turbilhão, mesmo que o rumo ainda estivesse pouco definido. Quando surgiu - como alternativa para os alunos do grupo coreográfico do Colégio Moderno -, aos poucos, foi encontrando a identidade para a própria linguagem, reinventando a arte e as formas de expressá-la até hoje.

“A gente queria muito fazer algo diferente. Acho que existe um ideal em comum, de usar a dança para falar da nossa vida, das nossas coisas, dos nossos anseios. A gente tá sempre se desafiando, não se conformando muito”, conta Ana Flávia. Ao vasculhar possibilidades e buscar novas maneiras de colocar a arte em movimentos, nasceu a “dança imanente”. Objeto de estudo no mestrado em Artes de Ana Flávia, o conceito passou a ser desenvolvido e pesquisado em conjunto pelos dançarinos e segue como norte para os destinos da trupe.

Nesse contexto, o subjetivo de bailarino um é compartilhado, lapidado para se integrar à cena. Vira campo de descobertas até se transformar em movimento. Mas nem sempre foi assim.

“No começo, a gente não tinha muita essa consciência. A grande meta era a reunião dos amigos. Com o tempo, a gente foi compreendendo o poder que a arte tem de construir e reconstruir pessoas, o papel que ela tem na vida das pessoas. Isso só foi possível ao longo desses dez anos. O desafio era acreditar no que estava sendo feito, que poderia dar certo”, lembra Ercy Souza. Com o desafio lançado, veio o primeiro espetáculo, “Metrópole”. Reflexo das experimentações dos limites do próprio corpo. Foi o princípio de um mergulho numa jornada em busca da perfeição. Ana Flávia gosta disso. Fica atenta a detalhes, chama atenção dos bailarinos quando o equilíbrio em cena se esvai. Pede cuidado e precisão. Mas as broncas carregam a doçura da voz. “Por que o espaço entre a Débora e o Vanderlon testá tão grande?”, questiona ela em um dos ensaios para a estreia de “Lírica Morada”. “Só faltou ficar perfeito o lugar das pedras e essa saída”, indica. “Epa, o que foi isso? Tá horrível!”, reclama. E decreta ao final do ensaio matutino em sábado de Páscoa: “Vocês deram umas titubeadas legais, hein?”. A bronca é para todos refletirem durante a pausa para o descanso, almoço. Na volta, os erros têm de ficar no passado. “A gente busca um trabalho de qualidade profissional”, justifica Ana Flávia.

Pode parecer exaustivo alcançar a inatingível perfeição. Com dez anos de estrada, no entanto, a caminhada é bem mais leve. É dança que permite a liberdade, floresce em criação coletiva. “A Ana Flávia não é uma coreógrafa tradicional. Ela repensa o papel do coreógrafo.

Ela não ensina coreografia nenhuma pra gente. Ela dá estímulos pra gente construir e fazer que da gente surjam esses movimentos, é desse material que ela vai se utilizar. É um processo coletivo, é bem melhor, porque tem a cara de todos nós”, avalia Christian Perrotta da Silva, de 22 anos, desde 2004 no grupo. Essa liberdade criadora talvez represente um motivo a mais para a veterana Luiza Monteiro, 28, continuar. “Esse poder contribuir, colaborar. Essa bailarina que ficas horas ensaiando uma coreografia passada, bonitinha, que só repete algo, essa não me interessa”, garante a dançarina.

O resultado dessa opção criativa surge em forma de prêmios. Muitos deles. Como os da Fundação Nacional das Artes em 2006, 2007, 2008, 2009 e 2011. E os de estímulo à produção artística concedidos pela Secretaria de Estado de Cultura – Secult, em 2006, 2007 e 2011. Fora as conquistas em festivais e encontros de dança pelo Brasil.

Livre das letras, o poema em movimento

A mais recente premiação da Companhia Moderno de Dança vem do Ministério da Cultura, o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2011 e dá origem ao espetáculo “Lírica Morada”, que estreia hoje no Theatro da Paz e vai circular em turnê pelo Rio Janeiro e cinco cidades da Amazônia Legal. Turnê que é ideal concretizado. “A gente tem várias experiência de viagens. Mas o sonho da turnê ainda não tinha acontecido e com cidades da nossa região.Às vezes, a gente consegue ter uma articulação maior com o sudeste do que aqui. Com esse projeto a gente pode tanto circular quanto trazer grupos de Belém, de Macapá, Manaus, Santarém e Paragominas pra cá”, adianta Flávia Mendes Sapucahy.

Os movimentos e sons da apresentação brotaram de coletivo processo de pesquisa com base no poema de Paes Loureiro. Com texto de Saulo Sisnando, que acaba dividindo a direção do trabalho com Flávia. Olhares duplos que se complementam em cena. Ele com a força da dramaturgia. Ela com o texto em forma de dança, movimento. “Trabalhei com eles muito essa coisa de dar sentido ao movimento, todas as cenas precisam existir por um motivo. Construí um poema corporal em cima de um poema escrito. Selecionava uma passagem que a gente gostava muito e trazia indutores para que eles construíssem o movimento”, explica Saulo Sisnando.

A trilha sonora é assinada pelo bailarino Christian. Cinco músicos vão executá-la ao vivo no palco. “Somos loucos”, resume Christian, às voltas com a ideia de algo desafinar. “Lírica Morada” desnuda Belém. Traz olhares múltiplos sobre a cidade. Morada lírica do amor ressuscitado da mitologia grega. Do homem que percorre os recantos da metrópole seguindo os rastros da amada. “A gente achou que a mitologia tinha muito a ver com a proposta do espetáculo. A gente queria falar dessa cidade, sobretudo, com um olhar da gente. É um espetáculo, sobretudo, para quem é daqui, para quem ama essa cidade”, argumenta Saulo.

Paes Loureiro celebra a empreitada. “A riqueza de um poema, de uma obra, é a de ser semente de olhares, além do olhar plantador do poeta. O olhar do poeta é a semeadura. Os olhares são as colheitas. Quanto mais olhares colhendo novos significados, mais riqueza e duração um poema, uma obra de arte, terá”, compara.

Assim como o poema, “Lírica Morada” é o convite de um passeio pela Belém de cada integrante da Companhia Moderno de Dança. Presente em gestos, sons, desejos e emoção. Um poema em movimento para reverenciar a cidade. (Diário do Pará)

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