Quarta-feira, 01/02/2012, 09h52
Se fosse nordestino, Antonio Juraci Siqueira não ganharia a alcunha de “Filho do Boto” e sua poesia popular retrataria a imagem, as belezas e tragédias do sertão. Só que o cordelista da Amazônia nasceu à beira do rio, em Cajary, localidade do município paraense de Afuá. E o mundo ribeirinho foi naturalmente incorporado ao tema dos folhetos desse poeta e trovador de 63 anos. Juraci encontrou nos cordéis trazidos do Ver-o-Peso pelo padrasto o caminho para fincar raízes no fértil terreno da literatura. Passou de assíduo leitor na adolescência - quando lia à luz de lamparina para familiares e vizinhos as proezas dos heróis dos rústicos folhetos - para produtor de cordel na fase adulta. E o mais recente trabalho dele nesse no território é “O Chapéu do Boto e O Bicho Folharal”.
A nova produção foi contemplada pelo Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa do Assaré, do Ministério da Cultura. A obra será lançada hoje pela Editora Paka-Tatu, às 19h, no Instituto de Artes do Pará. O livro/cordel de Juraci Siqueira vem impregnado pelo imaginário amazônico numa linguagem rimada e que fala a língua do povo simples dos confins do Brasil. Segue a tradição da espontaneidade e do desembaraço da arte popular. A essência do cordel, enfim.
“[O que diferencia o cordel feito no Nordeste, do cordel feito aqui na nossa região é] basicamente a temática, já que a técnica ou a forma é a mesma. Mesmo não sendo regra, o cordel, em grande monta, retrata o meio em que é produzido, principalmente o cordel/reportagem, a denúncia, o folclore. Como um gênero de extraordinário poder de comunicação popular. Pra mim ele representa o embrião da minha obra. Ele foi a mola propulsora que me lançou para o mundo encantado da literatura”, explica Siqueira.
Poesia que brotou e floresceu no sertão brasileiro, o cordel chegou à Amazônia nas bagagens de esperança do nordestino que fugia da fome, da seca e da miséria para desbravar a floresta em busca de dias melhores. Veio no ciclo da borracha, do peonato e da mineração. Deixou para trás a terra natal, mas não se desligou de sua cultura. Nomes como Antonio Gonçalves da Silva – o Patativa do Assaré, Firmino Teixeira do Amaral, Cego Aderaldo, Silvino Pirauá e Chagas Batista passaram por aqui.
Mas o grande responsável pela propagação do gênero na região norte foi o pernambucano Francisco Rodrigues Lopes, fundador da editora Guajarina, especializada na publicação dos folhetos. Durante 35 anos, de 1914 a 1949, a Guajarina editou os principais poetas do povo daquele período, como Leandro Gomes de Barros, o maior cordelista que o país já produziu.
Os folhetos da editora circulavam por Manaus, no Amazonas; Rio Branco e Xapuri, no Acre; Teresina e Parnaíba, no Piauí; Fortaleza e Juazeiro, no Ceará; Natal, no Rio Grande Norte; São Luís, Caxias e Amarante, no Maranhão, como aponta a pesquisadora Ana Maria de Carvalho e mestranda de Estudos Literários da UFPA no artigo “Do Nordeste ao Pará: O processo de criação e re-criação do cordel como meio de troca cultural”. “Nestes lugares a Guajarina tinha agentes que repassavam os folhetos para os vendedores”, escreveu. A pesquisadora utilizada entre as fontes de pesquisa o trabalho do historiador Vicente Salles, o livro “Repente e Cordel: Literatura em versos na Amazônia”, de 1985.
Em rimas, importante registro histórico
“De acordo com Salles (1985), existiam outras gráficas: a Tipografia Sagrada Família, de José Marques dos Santos; a Johelda e a Modelo, em Castanhal; a Tipografia Íris, em Marabá; a Tipografia Delta (ligada aos Maçons) e a Industrial. Outro meio de divulgação era a banca de folheto Aparador 16, no Mercado de Ferro, no Ver-o-Peso, do poeta Raimundo Oliveira, que produzia e vendia seus folhetos. A temática dos folhetos retratava o cotidiano desses migrantes”, destaca.
Em “O chapéu do boto e O bicho folharal”, Juraci Siqueira ressalta o papel exercido pela editora Guajarina. “A importância da editora para a expansão da literatura de cordel no Pará e em toda a Amazônia equivale-se à importância desse gênero literário para a nossa região, quer como registro e divulgação de fatos históricos, sociais, políticos e culturais da época, quer como incentivo ao surgimento de autores locais do porte de Zé Vicente, pseudônimo do jornalista e ativista político paraense Lindolfo Marques de Mesquita, autor de muitos folhetos de circulação nacional, entre este ‘A greve dos bichos’, vigorosa crítica à moral do Estado Novo, produzido no final da década de 30”, exemplifica o escritor.
Lindolfo Mesquita não foi o único intelectual do século XX a usar pseudônimo na produção de cordéis próprios. O motivo? Juraci justifica no livro. “Era o preconceito que a intelectualidade da época nutria contra esse gênero da poesia popular, fato, que, infelizmente, ainda ocorre, em menor grau, nos dias de hoje”, escreveu.
Grande parte da história do cordel no Pará está documentada no livro “Repente & Cordel”, de Vicente Salles. Antes dele, outros nomes deram suas contribuições à história, como Pompílio Jucá, no livro “As ilhas”, de 1901; Rodrigues Carvalho com o seu “Cancioneiro do Norte”, de 1903, conforme registra Ana Carvalho.
Juraci Siqueira baseia-se na obra de Vicente Salles para igualar o cordel a qualquer outro gênero literário e defender a importância do trabalho como veículo de comunicação. “No cordel, o poeta narra não só as tragédias dos seringais. Todos os motivos locais ou nacionais, reais ou fictícios, atuais ou pretéritos, tradicionais ou não, fazem nascer dezenas de folhetos em versos. (...) Os poetas populares precederam os ficcionistas da região na denúncia dessas calamidades. Documentam não só a tragédia dos seringais como as tragédias urbanas”.
A pesquisadora Ana Maria de Carvalho pondera ainda em seu artigo o universo maior que a literatura cordelista abrange. “Não se constitui apenas de histórias passadas ou imaginárias, é sobretudo uma produção dinâmica. Esta produção é escrita, porém sua transmissão não ocorre somente por meio da leitura silenciosa e individual. Ela ocorre através da oralidade, que se materializa nas leituras comunitárias, fato comum nas regiões rurais nordestinas. Tal leitura se torna viável devido aos aspectos orais presente nos folhetos, da musicalidade dos seus versos”.
PRESTIGIE:
Lançamento do livro/cordel “O Chapéu do Boto e O Bicho Folharal”, da editora Paka-Tatu. Hoje, às 19h, no Instituto de Artes do Pará (praça Justo Chermont, 236, ao lado da Basílica). Preço do livro no lançamento: R$ 5.
(Diário do Pará)
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