Terça-feira, 24/01/2012, 07h44
Um prejuízo de R$ 2,5 milhões. É este o valor estimado dos danos causados pelo incêndio no prédio do laboratório de Engenharia de Alimentos da Universidade Federal do Pará (UFPA), no campus Guamá, em Belém, ocorrido na madrugada do último domingo (22). “Ainda é cedo para falar, mesmo porque ainda não foi iniciada a perícia no edifício. Mas pelo pouco que vimos, a perda foi enorme. Equipamentos, documentos e anos de coleta de dados foram embora com o incêndio”, declara José Nazareno de Souza, diretor da Faculdade de Engenharia de Alimentos.
O prejuízo abrange instrumentos laboratoriais caros como um cromatogerador, utilizado em análise química, avaliado em R$ 600 mil. “O aspecto mais grave desse incidente será restabelecer as pesquisas perdidas. Era feito backup de todos os computadores. Mas as amostras não poderão ser recuperadas. Avalio que atrasamos nossa pesquisa de dois a três anos”, afirma Souza.
O diagnóstico de alunos que trabalhavam no prédio, como o da doutoranda Rebeca Souza, torna o caso ainda mais desolador. Ela visitou ontem o campus, para ava-
liar por conta própria os estragos. Ainda tentava se recobrar do choque de ver dois anos de pesquisa se reduzir a fuligem e pilhas disformes de detritos. “Mais de 30 pessoas estavam trabalhando neste laboratório. Eram bolsistas, mestrandos, doutorandos, pesquisadores estrangeiros. Tem um grupo de belgas que está fazendo um convênio aqui. Eu faço meu doutorado na USP (Universidade de São Paulo), mas desenvolvo meu trabalho aqui. Não sei o que vai ser agora”, lamenta.
Ainda não foram estabelecidas as causas do incêndio e nem há prazo para o laudo. As investigações estão sendo geridas pela Polícia Federal e Corpo de Bombeiros. Uma das possibilidades seria um curto-circuito ocasionado por um apagão ocorrido no campus na noite anterior ao incidente. “Eram mantidos em funcionamento no laboratório cinco freezers e três geladeiras, local onde eram guardadas as amostras das pesquisas, e vários aparelhos de ar-condicionado, já que a sala tinha que ser mantida resfriada a todo o momento”, conta o diretor da Faculdade de Engenharia de Alimentos.
INSEGUROS
A ação do fogo foi implacável. Os pisos e paredes das salas foram derretidos com o calor. Grande parte desse efeito devastador se deve a características nada seguras da construção. O piso é “nervurado”, ou seja, é preenchido por isopor, um material altamente inflamável. As divisórias das salas do escritório de pós-graduação eram constituídas por divisórias de PVC, outro material de fácil combustão.
O local não dispunha de sprinklers (chuveiros automáticos contra incêndio) ou detectores de fumaça, estruturas essenciais, já que no laboratório eram manipulados produtos químicos como éter, álcool etílico e etanol. A única medida preventiva eram extintores de incêndio, que foram utilizados para apagar o início do incêndio por seguranças da universidade, mas se mostraram ineficazes para conter a propagação de um fogo tão intenso. Só para se ter uma noção, as chamas duraram três horas, sendo finalmente extintas às 9h pelos bombeiros.
Erguido por volta da década de 1970, o Laboratório de Engenharia Química, prédio no qual está localizado o Laboratório de Bioquímica e Tecnologia de Alimentos, segue um desenho defasado, que não foi modificado no decorrer dos anos. “A burocracia é o principal empecilho para a modernização dos prédios. A segurança desses laboratórios sempre foi uma das nossas principais preocupações, tendo inclusive um plano de revitalização e adaptação, mas não foi posto em prática até agora. Há planejamento, mas a burocracia impede que nós ajamos”, afirma Maria Lídia Tostes, diretora do Instituto de Tecnologia da UFPA (Itec).
Sob a gerência do Instituto estão todas as faculdades de engenharia do campus, reunindo ao todo dez complexos de laboratórios, dentre eles o de civil, elétrica, naval, química, de alimentos, da computação, mecânica, sanitária e ambiental. Alguns deles com alto potencial para acidentes, dispondo de maquinário elétrico e produtos químicos inflamáveis e tóxicos. “Já está sendo discutido com a reitoria um plano de estabilização da energia elétrica nos laboratórios. As quedas de energias são constantes aqui nesta região e os picos de energia são um risco para os equipamentos. Com casos como esse (o incêndio), medidas se tornam mais urgentes ainda”, afirma Tostes.
O diretor da Faculdade de Engenharia de Alimentos assegurou que os frascos descartados próximo à entrada do laboratório não representam riscos, porque não haveria nada inflamável. “A UFPA tem serviço de coleta para estes dejetos. Eles são colocados na área externa e recolhidos de três em três meses”, garante
Muitos dos frascos estão quebrados e sem tampas. Resíduos químicos, como ácido sulfúrico, éter de petróleo e álcool entram em contato com o solo, vegetação e água do entorno. “Os alunos são orientados a não jogar nada na pia. O ideal é que existisse um centro de tratamento para descarte deste material, mas isso não ocorre na universidade. Contamos com uma empresa terceirizada pela prefeitura do campus para processar este material, diz a coordenadora da pós-graduação de ciência e tecnologia de alimentos, Alessandra Santos Lopes. (Diário do Pará)
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