Domingo, 22/01/2012, 09h48
Todos os dias quase mil jornalistas do Brasil e do exterior querem entrevistar a mais nova sensação musical do momento, Michel Teló. “Desde a história do Cristiano Ronaldo, o telefone não para de tocar”, diz Edu Carlos, produtor de Michel ao comentar o crescente interesse da mídia em torno do cantor. “É quase impossível [atender todo mundo]”, acrescenta.
A atenção do país e de outras nações do planeta têm se dirigido a Teló graças ao hit-chiclete “Ai, se eu te pego”. A explosão para o mundo aconteceu quando o jogador do Real Madrid, Cristiano Ronaldo, comemorou com a coreografia da canção, em outubro do ano passado, um dos gols contra o Málaga. “É o cara que mudou a minha vida”, disse Teló em recente entrevista à Época, uma das principais revistas do Brasil.
Se você não vive em uma bolha ou qualquer realidade paralela, deve ter escutado alguma vez ao longo dos últimos seis meses. A composição está na boca dos brasileiros, das patricinhas de apartamentos chiques ao gari que vai preso por usar a música para “cantar” mulher de policial. Na balada, na casa do vizinho, nas rádios, na internet, no celular do “DJ do Busão”, nos campos de futebol. Em todo lugar. Mesmo que você não goste da música, muito menos do intérprete, provavelmente sabe cantá-la de tanto que já ouviu.
Antes de sair esperneando e declarando guerra ao sertanejo pop, conforme-se, Teló já te pegou. Porque uma coisa é certa: todos falam (bem e mal) e pensam nesse paranaense de 31 anos - ele fez aniversário ontem - que só descobriu o sucesso aos 28, quando saiu do grupo Tradição e partiu em carreira solo para propagar seu “pancadão sertanejo”.
Até para odiá-lo você precisa lembrar da existência dele. No Facebook, o dono ou dona do perfil “Aposto que encontro 1 milhão de pessoas que odeiam Michel Teló”, lançado em 31 de dezembro de 2011, exemplifica muito bem isso. Quem administra a “campanha” perde pelo menos 20 minutos diários abominando e ridicularizando o músico com montagens impagáveis, como a foto de Jason, do filme Sexta-Feira 13, desejando pegá-lo, ou Eike Batista afirmando no Twitter que vai comprar os direitos autorais do hit para viver em paz. O Eike real, diga-se de passagem, elogiou publicamente o cantor.
Não adianta mudar de canal
Teló é ou não é uma unanimidade nacional? Ignorá-lo é uma escolha. Negar ou depreciar o sucesso e ascensão dele ao posto de astro pop internacional é burrice. Tentar entendê-lo e se despir de preconceitos pode ser bem mais produtivo. Afinal, o que tem uma música tão simples que chega a ser boba, cujo clipe oficial foi visto por mais de cem milhões de pessoas no Youtube? A canção brasileira mais visualizada na história do canal, traduzida e legendada em várias línguas, como o inglês, polonês, grego e hebraico?
Por que jogadores de futebol dos maiores times do planeta comemoram um gol com a coreografia da música? O que faz pára-quedistas de uma unidade de elite das Forças Aéreas de Israel dançarem a mesma “Ai, se eu te pego”? Por que o hit, criado em ritmo de forró por Sharon Acioly e Antonio Dyggs, lidera as vendas no site da Apple no Brasil, na Espanha, Portugal, Itália, Suécia, Chile e Argentina?
Por que o site da revista Forbes o cita como um “superstar internacional”? Qual o motivo de mais de quatro milhões de pessoas terem ido aos seus shows em 2011? O que o fez merecer doze páginas e a capa da revista Época no início de 2012? Por que ele está em todos os programas da tevê brasileira (também já começa a dominar a programação televisa da Europa)? Por que um artista plástico de Campo Grande (MS) fez um boneco (horrendo, mas fez) para homenageá-lo? Por que vídeos e versões da grudenta canção se proliferam na rede, com direito, claro, a uma adaptação paraense – em ritmo de tecnobrega? Afinal, por que as pessoas perdem seu precioso tempo falando em Michel Teló?
Em Belém, fãs se derretem
Os fãs, obviamente, têm as respostas. “Ele canta uma coisa que todo mundo quer ou já quis dizer pra alguém: ‘ai, se eu te pego!’. Não deu outra, todo mundo, até o jogador lá do outro lado, gostou!”, justifica a gerente de vendas de uma marca de produtos de beleza, Simone Carvalho, 43 anos. “Os CDs até furaram de tanto que escuto no carro”, comenta. Tudo culpa da filha,Raíra, 20, que influenciou a família inteira e até os amigos. “A realidade do som dele é balada. Então, essa música ‘bombou’. Todo mundo vai pra uma balada, diz: nossa, assim você me mata”, comenta Raíra.
“As pessoas falam que o Michel Teló é um cantor sertanejo, mas você vai pro show dele, é uma balada. Não tem nada a ver com sertanejo. A gente vai e passa muito rápido e você quer mais. É impressionante, ele consegue fazer todo mundo vibrar”, acrescenta o estudante Lippe Barros, 18 anos. “Ele canta várias outras músicas que não têm nada a ver com sertanejo. Na hora eu que o vi cantando funk (nunca imaginei ver Michel Teló cantando funk), ficou até melhor que o funk original”, garante a microempresária Allana Silva, 22. Todos suspeitíssimos para falar, já que integram o fã-clube “Fascinados por Michel Teló em Belém”. Lippe dá um argumento infalível. “Até uma criança de três anos sabe cantar”.
Teló também causa alvoroço nos relacionamentos amorosos. O namorado da empresária Telma Souza, de 39 anos, não gostou nenhum pouco quando ela pintou o muro da casa em Salinas em homenagem ao cantor. “Ciúme”, resume Telma.
“Eu precisava chamar a atenção dele. Ele precisava saber que eu existia”. Na época, Telma mobilizou os filhos, amigos e os amigos dos amigos para conseguir, em cima da hora, realizar a pintura. A rua, onde fica a casa dela, era o único caminho pelo qual a trupe do cantor poderia passar. No Twitter Michel confirmou que tinha acabado de assistir a homenagem.
‘Há solidez no seu trabalho’, diz crítico
A internet, por sinal, é uma das grandes armas do artista para se aproximar dos fãs. Site, Facebook, blog, vídeos com áudio e som de qualidade mostram bastidores de shows e viagens, são ferramentas de interação com o público. O Twitter é o principal deles. Todos os dias Teló publica mensagens, conversa com os fãs, compartilha histórias e a euforia de cada momento que tem vivido.
O cuidado e atenção se repetem nos encontros reais. Em outro show, no município de Paragominas (PA), lá foi Telma declarar seu amor de fã. “Como eu não tinha casa lá [a empresária mora em Belém], enfeitei o meu carro e dei um jeito de alugar um quarto em frente ao dele no hotel”, recorda. Quando Telma viu, o cantor queria conhecer a dona do veículo. Na recepção do local, a empresária deu uma sandália personalizada para Michel, que imediatamente se despiu dos sapatos e calçou os chinelos. “Achei muito lindinho”, conta.
Compreender o frisson ao redor de Michel Teló foi o que deu resultado ao texto da última semana do crítico musical Pedro Alexandre Sanches. Pedro foi atrás da discografia e da história do músico. “Ao contrário do que eu pensei quando ele virou a bola da vez, Michel não é efêmero nem ‘artista-de-um-sucesso-só’. Antes dos três discos solo, tinha passado 12 anos no Grupo Tradição, de 1997 a 2009. Primeira conclusão: goste eu ou não, há uma solidez em seu trabalho”, escreveu.
Ao ouvir os discos da carreira solo e comentar algumas músicas, o crítico chegou a uma conclusão a respeito de tanto rebuliço em relação ao artista. “Melodias gostosas, exaltação à liberdade, ao sexo, a namorico, à diversão, às drogas ‘leves’: não estariam aqui várias das razões do apelo das canções de letras supostamente ‘vazias’ do cantor? (...) Música pop não foi feita para a gente gostar, dançar, cantar junto etc.? E, se eu não gostar, não é só mudar o canal?”, provoca. “Parei de ouvir e fui me olhar no espelho. Não, não estava faltando nem um pedaço. Nem vi nascendo uma tromba no meu nariz, orelhas de Pinóquio transformado em burrico ou rabo de capeta. Sobrevivi”, ironiza. (Diário do Pará)
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