Sexta-feira, 20/01/2012, 06h46
Ao anunciar que paralisariam as atividades em todo o Estado, os policiais militares preocuparam milhares de cidadãos. O medo era de que, com a ausência das viaturas e rondas por áreas consideradas de risco, a violência aumentasse ainda mais. “Se já tem tragédia com eles na rua, imagina sem. Agora estamos à mercê dos ladrões, que vão correr soltos na cidade”, falou em voz alta a doméstica Ana Maria da Conceição, que aguardava um ônibus na Avenida Perimetral, bairro da Terra Firme.
Próximo ao local, o posto de policiamento comunitário, de responsabilidade da Polícia Militar, funcionava normalmente, mas com o efetivo reduzido. O que se repetia em diversos pontos da cidade. Locais que usualmente abrigavam viaturas da PM estavam vazios e, mesmo circulando pela cidade, os veículos eram encontrados com pouca frequência.
“Vi umas três passando até agora (11h de ontem), mas ainda acho complicado. A Terra Firme, por exemplo, melhorou muito de uns anos pra cá, mas não dá pra aliviar que volta tudo de novo”, comentou Benedito Santiago, comerciante.
Outros bairros com altos índices de violência também seguiam a rotina, com cuidados incorporados à sensação de insegurança. “Não dá pra ficar trancada em casa porque temos os nossos compromissos. Mas vou evitar ao máximo locais que sei que são perigosos e andar com algo de valor”, disse a estudante Gabrielle Nascimento, moradora do bairro da Cremação. Em vários estabelecimentos comerciais, quem já tinha colocado grade tratou de utilizá-la.
SECCIONAIS
Apesar da paralisação, nas seccionais o atendimento continuava. Contando principalmente com servidores da Polícia Civil, os locais ouviam queixas e denúncias da população, sem movimento diferencial. O peculiar era encontrar viaturas dos grupos de elite da Polícia Militar, como Batalhão de Choque e Ronda Tática Metropolitana.
A fim de garantir a legalidade da greve, mantendo 30% do efetivo em atividade, a corporação disponibilizou as equipes para atenderem chamados do Centro Integrado de Operações Especiais (Ciop).
Segundo o comandante do Batalhão de Choque da PM, major Leão Braga, desde que os policiais iniciaram o estado de greve, um planejamento foi realizado para prestar apoio na segurança, onde fosse necessário. “Estamos prestando reforço hoje (ontem) em três locais: Sacramenta, Marituba e Ananindeua. Deslocamos um efetivo de 9 viaturas e 36 homens para esses lugares”, disse.
ICOARACI
Após o estado de greve ter sido implementado pelos policiais militares e bombeiros na noite de quarta-feira, na manhã de ontem já era possível perceber a ausência de viaturas e guarnições pelas ruas da Região Metropolitana de Belém.
No Distrito de Icoaraci, as informações da adesão à greve eram contraditórias. No 4º Batalhão de Polícia, as viaturas da polícia estavam todas na rua, mas não estavam realizando nenhum tipo de ocorrência. “Os carros estão todos na rua, mas ninguém está trabalhando de verdade. Tá todo mundo entocado por aí”, comentou um policial militar.
A todo momento, os PMs ficavam atentos aos comandos que eram repassados através dos rádios de polícia, enquanto a assembleia de policiais que decidiria o encaminhamento da greve acontecia em frente ao Centro Integrado de Governo (CIG) .
Mas em outros grupamentos, houve serviço. Na Avenida Magalhães Barata ocorreu inclusive uma blitz rodoviária promovida pela PM na manhã de ontem.
No 10º Batalhão de Icoaraci, que integra o Comando Policial da Capital (CPC), uma média de 75 homens cumpriram expediente no turno diurno no batalhão, que tem 450 homens no contingente. O número inclui os 50 homens em patrulhamento nas 25 viaturas, além de 12 policiais que atendem quatro PM Boxes e os demais agentes que trabalham na área administrativa. “É o nosso contingente normal. Não registramos nenhuma falta hoje e os homens estão esperando pelo resultado das negociações. Podemos garantir que pelo menos por hoje (ontem), a população está segura”, dizia o capitão Marcelo Prata, subcomandante do 10º Batalhão de Icoaraci, que abrange ainda o distrito de Outeiro, e os bairros da Pratinha e Tapanã. O 2º Subgrupamento Bombeiro Militar (2º SGBM) também funcionou normalmente.
ANANINDEUA
No município de Ananindeua, os poucos policiais que eram vistos pelas ruas não estavam exercendo a sua função de forma espontânea. “Estou trabalhando forçado. As situações estão nos forçando a comparecer, mas não quero ficar muito tempo. Só trabalho depois que a greve ficar decidida”, falou um policial militar de Ananindeua que não quis se identificar. Não foram todas as Zonas de Policiamento que aderiram à greve, mas o município de Ananindeua foi um dos mais atingidos.
Já no município de Marituba, a greve não havia atingido o batalhão. Conforme a delegada Dilcinéia Batista, da Seccional Urbana de Marituba, havia seis viaturas circulando pelo município e estavam prestando apoio à Polícia Civil nos casos necessários.
À tarde, os procedimentos de flagrante foram insignificantes nas seccionais dos municípios de Ananindeua e Marituba, não se sabe se em virtude da paralisação. No 21º Batalhão da Polícia Militar, em Marituba, só havia três policiais, na tarde de ontem. Um deles informou que a maioria dos policiais de serviço estavam acompanhando a reunião no CIG.
Das oito viaturas do batalhão, somente duas estavam em ronda. O comando da Polícia Militar do Distrito Industrial, em Ananindeua, estava com as portas fechadas. A paralisação também teve adesão dos PMs de Altamira, Marabá, Castanhal, Santarém, Itaituba, Redenção e Parauapebas.
CIOP NORMAL
De acordo com a assessoria de imprensa do Centro Integrado de Operações (Ciop), as ocorrências, foram atendidas ontem, mesmo, em alguns casos, com dificuldade em virtude de focos de paralisação. Nesses casos, a ocorrência foi repassada para outra viatura.
Em vez de ronda, lanche e debate no quartel à tarde
Na tarde de ontem, era possível encontrar algumas viaturas da PM pela cidade. Em frente a um Batalhão da Polícia Militar, na travessa Lomas Valentina, nove viaturas que estavam paradas começaram a sair para ronda por volta das 15h. Noutro batalhão, anexo à Seccional da Sacramenta, nenhum poli-
cial militar foi encontrado. Mas seis viaturas e nove motos estavam no pátio.
O comando geral da PM, na avenida Dr. Freitas, parecia funcionar normalmente. Mas na BR-316, no 6° Batalhão, cerca de 100 policiais lanchavam à porta do quartel. Todos em greve. De acordo com eles, as viaturas não saíam e todos os militares - aproximadamente 600 - aderiram ao movimento. Alguns revelaram que algumas viaturas estavam na rua com somente um PM, para fingir a patrulha.
Reunidos, discutiam sobre as melhorias que pediam. O cabo Aldo garantia que a greve era o único jeito. “Já pedimos isso há muito tempo, precisamos de um salário digno, de uma moradia digna.”
O sargento Tito defendia que os policiais amam a profissão, mas precisam conseguir viver bem dela. “A gente é polícia porque gosta de ser polícia, nos preocupamos com a população, sim, mas precisamos garantir as nossas vidas e das nossas famílias”.
O cabo Aldo concordava e dava o exemplo. “Eu me considero nômade. Tenho casa, mas vivo de aluguel. Não posso morar onde morava porque muitos meliantes também moravam por lá, é só me descobrirem. Já botaram fogo na minha casa, já invadiram ela, já me deram um tiro. Mudei de casa três vezes em 2011”.
POLÍCIA CIVIL
Em virtude da ameaça de paralisação dos policiais militares o delegado Geral da Polícia Civil se antecipou e aumentou o efetivo de investigadores nas seccionais.
Com o objetivo de preservação do equilíbrio social o delegado - geral autorizou o plantão especial de 24h. A Guarda Municipal de Belém também dispôs 200 guardas e realocou agentes e viaturas para pontos estratégicos, onde costumavam ficar carros da PM. Em Ananindeua, a Guarda dispôs todo o efetivo, 170 guardas, para fazer o patrulhamento na cidade. (Diário do Pará)
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