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Quinta-feira, 19/01/2012, 06h42

Obra inacabada é invadida no Guamá

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Nas fachadas de cada casa inacabada, as palavras indicam a demarcação do território: Charles, Giza, Janete, Roseane. Estampados em letras bem visíveis - ora grafados a giz, ora a tinta - os nomes demonstram o que também pode ser percebido nas toalhas penduradas nos muros e nos postes improvisados para abrigar fios elétricos. Antes de ser entregue à população, o Conjunto Habitacional Liberdade, localizado no bairro do Guamá, já passou a ser o lar de muitas famílias.

Em frente à construção de tijolos, sem paredes e nem janelas, a dona de casa Lília Santos explica como tem sido sua vida há uma semana, desde quando resolveu mudar para uma das casas do conjunto inacabado. Na companhia dos quatro filhos pequenos, entre pedaços de tijolos e tábuas cheias de pregos, ela tenta garantir a moradia já ocupada. “O povo invadiu pra morar porque estavam saqueando tudo”, explica. “Resolvemos invadir antes que roubassem tudo”.

Antiga moradora do bairro da Terra Firme, Lília não está incluída no grupo de famílias que foram cadastradas desde o início da realização do projeto para receber as casas quando prontas. Ainda assim, ela acredita que o local está sendo melhor aproveitado agora que foi ocupado. “Algumas pessoas não tinham esse cadastro, mas tem muitas que têm. Eu morava na casa da minha ex-sogra e resolvi vir pra cá”.

Apesar de nunca ter tido garantia de que poderia ficar morando no local, as esperanças da dona de casa se modificaram após uma visita. “Veio um rapaz da Cohab (Companhia de Habitação do Estado do Pará) aqui e disse que era pra gente, que não era cadastrado, ir se cadastrar na internet. Já fizemos isso no cyber”.

Para o eletricista Abias Alves, que também se mudou para uma das casas com a mulher e a filha, o estado de abandono em que a obra foi encontrada demonstra, para ele, o nível de preocupação do poder público com a sociedade. “Isso é um descaso com o dinheiro público. Eles usaram nosso dinheiro pra fazer isso aqui e estavam deixando levar tudo”.

Segundo Abias, a maior vontade das cerca de duas mil famílias que já estão morando no local - segundo estimativas da própria população que ocupou a área – é de que representantes do governo deem explicações a eles. “Nós só queríamos que viesse um representante falar por que abandonaram a obra”, afirma. “Tem pessoas que pegaram casas que nem têm laje. Tem pessoas morando embaixo de lona, porque estão com medo de perder seu espaço”.

Retirada da casa em que morava há quatro anos, a doméstica Andréia Cruz é uma das pessoas que foram remanejadas do local para receber, posteriormente, a nova moradia. Ciente da ocupação realizada por muitas famílias ao local, ela tratou de garantir sua casa prometida. “Eu morava aqui e eles vieram e destruíram tudo. Tem mais de quatro anos que tiraram a gente das nossas casas e a gente estava esperando até agora, indo de um lugar para o outro”.

Apesar de ter recebido a garantia de que ‘ganharia’ uma das casas do Conjunto Liberdade, quando chegou ao local que já estava ocupado, ela só conseguiu garantir uma das casas que ainda não têm laje. Sem portas, janelas ou teto, a estrutura do que, mais tarde, se transformaria em uma casa, já foi delimitada por ela em uma das paredes. “Aqui tem dono: Andréia”.

Sem condições de dormir no local, ela passa o dia inteiro ‘de guarda’ do seu território e, à noite, se abriga com a filha de dois anos na casa da irmã. Morando no local já há um mês, sua irmã foi a primeira da família a ocupar uma casa no conjunto. “A gente morava aqui há mais de vinte anos. Eu cresci e me criei aqui e eles vieram tirar a gente pra não dar nada. Se não iam dar conta de fazer, por que tiraram a gente daqui?”

Em nota à redação, a direção da Cohab informou que já tomou conhecimento da invasão do Conjunto Liberdade, e fez um registro policial da situação, “além de estar tomando todas as medidas necessárias para retomada de posse dos imóveis”. A Cohab informa ainda que as obras se encontram paralisadas em função do contrato com a construtora responsável pela obra estar sob avaliação administrativa.

Segundo a Cohab, as obras foram paralisadas em julho de 2010. A companhia garante que, no Liberdade I, já foram executados 68,88% da obra, prevista para atender 276 famílias. No Liberdade II, já foram executados 30,28%. A obra deve atender 1.724 famílias.

A Cohab nega que seu servidor tenha orientado os ocupantes do conjunto a se cadastrarem na internet para garantirem a permanência na área. De acordo com a nota enviada ao DIÁRIO, o funcionário disse aos invasores que eles deveriam se cadastrar na Cohab para pleitear outras obras futuras, que não as do Liberdade. (Diário do Pará)

Comentários Recentes

  • jebayo disse: Comentário postado em 19/01 Quinta-feira às 09:47h "Vai acontecer o mesmo que acontece com as barraquinhas colocadas nas esquinas e depois a prefeitura mandar tirar, vão deixar as pessoas tomarem conta e daqui a alguns anos vão querer tirar, tem de tirar é logo como fizeram no Tapanã, não dar chance deles sentarem nas cadeiras, não é deles."
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