Quarta-feira, 11/01/2012, 09h33
Estamos num antigo casarão de quatro andares, no centro comercial de Belém. O espaço funciona há sete anos como estúdio de música, ponto de encontro para pessoas ligadas a cultura, um espaço para a liberdade e a experimentação artística. “Aqui funcionava o cartório do meu avô, mas como os custos de manutenção da casa ficaram muito altos, resolvemos entrar num processo de mudança de ambiente, transformação do casarão, que passa a funcionar numa residência na rua 16 de Novembro”, contou o músico Leo Chermont.
Ao lado do parceiro Arthur Kunz, com o qual forma o duo eletrônico Strobo há um ano, e do videomaker Lucas Escócio, ele recebeu a equipe do VOCÊ em pleno momento de mudança no antigo Casarão Cultural Floresta Sonora, para refletir sobre tudo que produziram e o que pretendem realizar daqui pra frente.
Apesar de não ter participado do processo de criação do projeto, Lucas frisou que a parceria com Leo se deu pela vontade de experimentar. “Cheguei aqui meio que por acaso, e fomos logo colocando a mão na massa, produzindo. Tem um videoclipe do projeto Casarão Floresta Sonora que ainda não terminamos por que ainda não achamos que está bom, mas isso não nos impediu de seguir e ir fazer outras coisas, como o ‘Super Rock Som’, do projeto solo do Leo, e o novo clipe do Strobo, Bizarro Dance Club”, lembrou o videomaker.
O segundo videoclipe do primeiro CD do Strobo, foi feito em 12 horas. “Nós tocamos ao vivo, não fizemos playback e foi filmado no processo de mudança do Casarão, no momento que estamos vivendo, e independente do lugar estar se desintegrando, a arte estava ali, na gente tocando. E nós já tivemos mais de mil visualizações no Youtube, em menos de um mês”, apontou Leo. Lucas acrescentou que o vídeo foi intulado videoflictz: “é que estava procurando uma cor para ele que fosse como a da obra do Ziraldo, aquela cor diferente, incomum, para a finalização das imagens”, explica.
“O clipe de ‘Bizarro Dance Club’ serve como um registro ao vivo nosso de qualidade, o que é importante para conseguir fazer contatos e fechar shows pelo país”, ressaltou Leo.
SOM E IMAGEM
Lucas é filho de músico, e acredita que, por essa bagagem e por todo o processo de ter investido na sua formação, fazendo cursos por aqui e depois saindo para se graduar na área audiovisual, é que ele se sente bem transitando no meio e trabalhando com videoclipes. “Acho que consigo transformar som e imagem, dar uma unidade, e aqui no Casarão tem uma pegada de ‘faça você mesmo’ que nos une. Mostramos que dá pra produzir com certa regularidade e com qualidade.
Novo endereço para a experimentação
Lucas Escócio ministrou no primeiro semestre de 2011 um curso sobre produção de videoclipes na Caiana Filmes. “Ensinei um pouco sobre a história, mostrando também a organização e o funcionamento de uma equipe de produção de um vídeo. Ao longo de três semanas mais ou menos, 15 alunos participaram, escolhemos um artista local, a Lia Sophia, para fazermos um videoclipe – da música ‘Salto Mortal’ – pensamos na estética, produzimos e depois fomos para a ilha de edição, finalizar”, lembra,. A ação coletiva, voltada a iniciantes, permitiu a ele que pudesse formar pessoas para trabalhar em outros projetos.
“Tem pessoas que já chamei para trabalhar em outros clipes e no curta ‘Fronteiras’, que o Jorge Furtado fez ano passado aqui. Assim eles vão se profissionalizando e dinamizando o mercado”, enfatizou Escócio, que fez pós-graduação em Cinema, Fotografia e Vídeo – Criação em Multimeios da Faculdade Anhembi Morumbi, em São Paulo.
Em 2011, o clipe ‘Futurando’, do projeto solo de Chermont, o Jungle Man, disputou prêmio nacional no 9º Curta Santos, com produções de Marcelo D2 e Arnaldo Antunes. “Foi bom ter essa visibilidade, acho que o clipe expressa bem a ideia de um homem em meio à rotina frenética de uma cidade e que embarca num devaneio. Também produzi registros do pocket show que o Marcelo Mira fez em São Paulo, sendo que ele lança um trecho a cada mês no site”, contou Escócio.
De acordo com ele, Mira acabou vindo para Belém produzir o registro num cenário diferente com uma equipe iniciante e dedicada. “A grana que ele ia investir lá, resolveu usar aqui após eu convencê-lo de que ia ser interessante. Gravamos no Parque dos Igarapés e ficou muito experimental e bom”, completou o videomaker.
NOVOS ARES
Leo Chermont adianta que, neste ano, eles devem deslanchar alguns projetos que aguardam verba de leis de incentivo. “Temos o documentário sobre o Chico Braga para lançar, o CD do Metaleiras da Amazônia e estamos sempre abertos a artistas que queiram produzir conosco. A gente precisa apenas que eles valorizem a iniciativa. Não dá para ficar dependendo apenas de editais”, frisa.
O grupo conta que irá produzir nos próximos meses clipes para os músicos Pio Lobato, a Andreia Dias, cantora que tem mais de 20 anos de carreira e teve uma música produzida por Arthur Kunz para um CD em homenagem a Marina Lima, além de finalizar o DVD de Gaby Amarantos. Os novos projetos irão deslanchar já na casa nova, na rua 16 de Novembro.
Lá, Leo explica que funcionarão a produtora de vídeos Labzone e o estúdio Floresta Sonora. “O Casarão plantouem nós uma mentalidade de produção independente, e por mais que o nome não permaneça, a gente conserva essa história, onde pudemos colocar em prática todo o nosso potencial de experimentação artística, o que nos fez amadurecer e acabou refletindo bastante no trabalho atual”, pontuou o músico e produtor cultural.
Projetos se desenvolvem, velozes Chermont, que começou a tocar na banda de reggae Sevilha, coloca o Strobo hoje como sua prioridade. Ele, que também acompanha os músicos Aíla e Felipe, começa a se aventurar pelo cinema.“fiz som direto no documentário sobre o Mestre Vieira, também trabalhei com Vicent Moon e no curta do Roger Elarrat,‘Juliana Contra o Jambeiro do Diabo’. Agora trabalho com o Fernando Segtowick no som e trilha de um documentário sobre o Sindfisco”, enumera.
Já Arthur Kunz frisou que o Strobo é, apesar de lhe trazer satisfação, um projeto que toca nas horas de folga. Ele iniciou a parceria autoral com Chermont na ‘banda’ Casarão Floresta Sonora.“Eu comecei tocando com ele na banda do Felipe Cordeiro, e depois montamos o Floresta junto com o Calibre, um projeto que é feito de improviso, jazz, e é muito livre. Além desse, tenho outro projeto autoral que é a banda Clepsidra, e aí veio o Strobo, que é onde eu posso criar e fazer coisas diferentes junto com o Leo”, enumerou Arthur.
“Gravamos ano passado o programa experimente! Do Multishow, que deve ir ao ar em março. Estamos satisfeitos com o rumo que esse disco está tomando, e estamos seguindo a proposta de lançar dois EPs virtuais e um disco por ano, sendo que já temos 30% do segundo disco pronto”, completou o músico. Ele contou que o CD do Strobo foi gravado no estúdio do Casarão e no estúdio da casa dele, de forma relativamente simples.
“E sempre que queremos gravar algo novo, é só pegar o notebook e uma placa de som e trabalhar, criar uma base e ir trabalhando na música”, completou. Lucas também contou que anda com três mochilas, onde vão a câmera, os cabos de luz e o notebook, pronto para trabalhar e criar. “Arrumamos mecanismos para fazer as coisas funcionarem direto. E pra mim, não dá pra pensar música apenas como isso, assim como o vídeo; eu vejo o Strobo e sinto que a sonoridade tem uma pegada de trilha sonora, e aí já vamos pensando formas de fundir isso a imagens”.
O Strobo está no Rio de Janeiro, onde se apresenta hoje no Studio RJ, em Ipanema.“Temos que aproveitar que o momento é bom, que Belém e a música feita aqui estão na moda. Vamos fazer esse show e mais outro amanhã, a convite da Funarte, dentro do projeto Som em quatro Tempos. Na sala Sidney Miller, tocaremos ao lado de gente como Letuce, Tono e Tiê”, anuncia Kunz.
(Diário do Pará)
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