Sábado, 07/01/2012, 04h50
O ano começa e o Diário do Pará ouviu jornalistas e profissionais da cultura para antecipar o que de mais interessante promete surgir no cenário artístico paraense em 2012. Vamos, então, às apostas de destaques para este ano.
TEATRO
No palco, os holofotes se voltam para o ex-governador Magalhães Barata, uma das figuras políticas mais importantes da recente história paraense. Ele tem sua vida recontada por um dos grupos mais férteis do teatro local. O Projeto Cuíra por Memórias, patrocinado pela Petrobras através da Lei Rouanet, recolheu relatos sobre o polêmico caudilho, e arquiteta um musical que será encenado no final do primeiro semestre.
Sob o título temporário de “Pega na chinela e mata”, uma alusão ao jingle antibaratista da época, a produção será resultado de muito trabalho. O processo de criação do espetáculo incluiu o “Conversa Barata”, bate-papo que reuniu personalidades que viveram o baratismo, entre críticos e admiradores do político, e a encenação de “Sem dizer adeus”, baseado no livro “Eu e as últimas 72 horas de Magalhães Barata”, escrito por Dalila Ohana, companheira de Barata após sua separação de Georgina de Oliveira Barata. O projeto promoveu ainda oficinas gratuitas a atores, cantores, cenógrafos e figurinistas.
“Devemos realizar outra ‘Conversa Barata’, devido ao sucesso da primeira, e uma breve temporada de ‘Sem dizer adeus’, com Cláudio Barradas e Zê Charone, pouco antes da estreia do musical. Quanto a este, deverá ser dirigido por mim e por Saulo Sisnando, uma das apostas do Cuíra, jovem diretor e autor”, antecipa Edyr Proença, um dos nomes à frente do grupo.
Minucioso, o espetáculo ganha corpo com a composição das canções que irão contar os causos de Barata. “Estou fazendo as músicas. Na abertura, a chegada apoteótica de Barata a Belém, ali por volta de 1950, descendo do bacurau (avião) na Guajará e subindo, desde a escadinha, vindo pela Presidente Vargas. A música é uma marchinha chamada ‘O Barata voltou pra governar o Pará’”, diz Edyr, que grava as músicas em estúdio com Jacinto Kahwage e Luiz Pardal. O elenco ainda está em formação, mas terá no papel do protagonista Cláudio Barradas.
O ator também traz à cena outro personagem histórico. Barradas irá viver Batista Campos no monólogo assinado por Carlos Corrêa Santos, com montagem da Cia Nós Outros e direção de Hudson Andrade. O projeto vem sendo burilado desde 2008, quando Corrêa Santos ganhou o Prêmio IAP de Edições Culturais Categoria Dramaturgia com o texto sobre Batista Campos.
“Batista, o mentor da Cabanagem, um dos grandes revolucionários da História Brasileira. Barradas um revolucionário do nosso teatro. Estarão em cena dois titãs”, diz Corrêa Santos, que estreia o espetáculo em maio, no Sesc Boulevard.
O escritor e dramaturgo também leva ao teatro a vida e o legado artístico de uma outra grande figura da cultura paraense, e um dos maiores nomes do teatro regional: Margarida Schivasappa.
Em formato de musical, o projeto traz ao palco as cantoras Gigi Furtado, Maira Monteiro, Anne Dias e cantor Tiago de Pinho. Também com montagem da Cia Nós Outros e sob direção de Hudson Andrade, “Acorde Margarida” estreia no mês de fevereiro.
Música
A música paraense gerou muito burburinho na mídia nacional em 2011. Será que vai ter guitarrada e tecnobrega tocando nas rádios brasileiras este ano? “Felipe Cordeiro já é um pouco o queridinho de jornalistas do sudeste. A Gaby deve consolidar o que plantou esses últimos anos. Ela se encaixa perfeitamente naquela onda de o som do verão que a mídia gosta. E tem sido bem produzida, o que é importante”, avalia o jornalista cultural Ismael Machado.
O disco de Felipe, KitschPopCult, ainda não lançado oficialmente, rendeu elogios de “melhor disco da década”, segundo crítica do jornalista José Flávio Pinto publicada na revista Bravo!, e sua apresentação foi um dos maiores destaques do show “Terruá Pará 2”, que despontou Gaby Amarantos. A jurunense lançou o clipe “Xirley”, considerado por Hermano Vianna “um dos melhores clipes de todos os tempos”. O ano encerrou com o nome de Gaby entre os cem mais influentes de 2011, segundo lista da revista Época.
Além de Felipe Cordeiro e Gaby Amarantos, com discos aguardados para este ano, Ismael destaca ainda duas vozes femininas: Lia Sophia e Luê Soares. “A Lia tem aquele perfil adequado para o que chamo de MPB de gosto médio, ali, entre Ana Carolina, Maria Gadú e até Paula Fernandes. A Luê pode ser um daqueles nomes meio alternativos, tipo Karina Buhr, Juliana R., Bluebell”.
ARTES VISUAIS
2012 marca a reabertura do Casarão da Associação Fotoativa, que finalmente terminará seu restauro. Com isso, será reativado o calendário de ações do grupo, com novos cursos, palestras e intercâmbio com outros Estados e países.
Outro destaque é a artista multimídia Roberta Carvalho, vencedora do Prêmio Diário de Fotografia de 2011, com o projeto Symbioses. “Roberta deverá expandir suas projeções fotográficas noturnas em árvores que foram sucesso no país este ano para outros destinos mais longínquos”, diz o fotógrafo paraense Guy Veloso.
Guy enfatiza também o trabalho de Drika Chagas e sua arte urbana. “É uma aposta certa”, garante o artista, que aposta ainda em outros jovens talentos. “Keyla Sobral no desenho. Na fotografia, os jovens Emídio Contente e Ionaldo Rodrigues estão com trabalhos mais maduros. Em instalação e performance, Carla Evanovich”.
Evanovitch, que teve trabalho selecionado pelo projeto Itaú Cultural, também foi citada pelo fotógrafo Alberto Bitar, que destacou ainda a primeira exposição individual da fotógrafa Anita Lima, que acontecerá em 2012. O trabalho de Flavya Mutran, “Pretérito imperfeito de territórios móveis”, que imprime um olhar poético em novas tecnologias, também promete reverberar este ano.
LITERATURA
No campo das letras, o momento é de alerta. Para o jornalista Elias Pinto, os grandes autores paraenses merecem mais atenção. “Infelizmente, os principais escritores paraenses estão com suas obras fora de catálogo. Felizmente, de uns anos para cá, depois de muitos protestos locais, Dalcídio Jurandir começou a ser reeditado”, avalia Elias, se referindo à publicação de títulos como “Belém do Grão-Pará” e “Marajó”, que saíram pela Casa Rui Barbosa/UFPA, “Primeira Manhã” (Uepa) e “Chove nos Campos de Cachoeira” (7Letras), que ganharam reedições cuidadosas, despertando algum interesse da crítica nacional.
“No entanto, Haroldo Maranhão permanece no limbo. O maior romance da literatura paraense, ‘Cabelos no Coração’, nunca mais foi relançado, desde sua primeira edição, em 1990, assim como títulos capitais do autor, a exemplo de ‘Rio de Raivas’, ‘Os Anões’ e ‘O Tetraneto Del-Rei’”, pontua. Poetas como Max Martins também estão à espera de novas edições.
“Também se faz urgente que alguma editora daqui, de preferência, reedite o grande historiador literário, crítico, jornalista, educador e estudioso da vida amazônica José Veríssimo, autor de uma obra tão vasta quanto importante. Passou despercebido, mas quase no final do ano passado a Martins Fontes reeditou “Cenas da Vida Amazônica”, solitário livro de ficção do autor”, alerta Elias.
Por outro lado, o centenário de nascimento do filósofo e geógrafo Eidorfe Moreira será comemorado com a reedição de um de seus principais livros, “Geografias Mágicas”.
O projeto “Pará de Todos os Versos, de Todas as Prosas”, da série Orgulho do Pará, do DIÁRIO, promovido pelo Grupo RBA de Comunicação, recupera outro título de Edorfe, “Sertão: A Palavra e a Imagem”, outro de seus grandes ensaios.
(Diário do Pará)
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