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Sábado, 26/11/2011, 05h06

Boto contador de ‘causos’ e trovas

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Ele vem, vestido com simplicidade, um chapéu panamá enfeitado com uma pena, um colar feito de contas aonde um muiraquitã repousa, e passaria por um típico ribeirinho se não fosse o seu ofício: escritor. E contador de histórias, aquelas que ouvia da avó que se acocorava para contar com detalhes, ou do avô nordestino que, deitado na rede, falava de personagens míticos como o cangaceiro que era negro.

Antonio Juraci Siqueira cresceu e resolveu, como os irmãos Grimm e diversos outros escritores o fizeram antes, reunir os relatos que ouvia e transformar em verso e prosa. E também ‘aumentar um ponto aqui e outro ali’ e recontá-los, cada nova vez de uma forma diferente.

“Sempre digo que aqui, na Amazônia, o mito e a realidade se entrelaçam. Quem nunca viu alguém contar uma história de Matinta, ou de Boto, como se realmente tivesse vivido aquilo? O Maurício Kubrusly (repórter televisivo) certa vez ficou impressionado com a nossa capacidade de fazer relatos em primeira pessoa com riqueza de detalhes e eu acho que a contação de histórias é fundamental na formação educacional e no estímulo a leitura, pois ouvindo se tem vontade de conhecer mais”, explica Juraci, também chamado de “O Boto”.

Contador que se mistura com o mito

O contador e poeta se confunde com o ser mitológico pelo fascínio que a lenda exerce sobre ele. Tanto que quando vai contar a história em escolas e comunidades, vai a caráter. “Eu vou para mexer ainda mais com a imaginação das crianças, assim como a Heliana Barriga também se veste de Matinta. Certa vez falei do Boto numa escola e um menino ficou tão impressionado por ele morrer no final, que eu resolvi mudar a história e fazer o chapéu do Boto ser atingido pela espingarda e ele fugir e desaparecer no rio, porque é ecologicamente mais correto e ficou mais interessante narrativamente”, conta Juraci, que ainda este ano deve lançar a história do “O Chapéu do Boto” junto com “O Bicho Folharal” no livro editado pela Funarte.

“O Bicho é uma história muito contada país afora, mas que resolvi transformar em cordel, ou seja, em versos que podem ser cantados. Meu avô fazia muito isso e eu venho buscando difundir não só a contação de histórias como a literatura de cordel feita aqui na região”, frisa o escritor. Ele escreveu diversos títulos desde que saiu da comunidade localizada na beira do rio Cajari, no município de Afuá, na ilha do Marajó. Um deles é “O Menino que ouvia estrelas e se sonhava canoeiro”, editado no ano passado pelo Instituto de Artes do Pará.

Na obra, Juraci fala do sonho de menino, quando viu os canoeiros passarem e queria ter uma canoa para vagar pelos rios, ouvir as mais diversas histórias e viver aventuras. “Meu padrasto era canoeiro e eu o admirava muito, ele trazia páginas de cordel pra mim e teve um papel importante na minha formação”, relembra. Hoje ele repassa suas histórias e das lendas da região para públicos diversos, fazendo questão de se fazer presente na maior parte de eventos para conversar com o público e compartilhar relatos.

Segundo ele, muitas pessoas se surpreendem por o encontrarem vivo e ativo. “Muitos que leem os meus livros, os do Walcyr Monteiro e de outros autores que chegam mais facilmente às escolas, acham que já estamos mortos!”,

diverte-se.

Membro do Movimento de Contadores de Histórias da Amazônia (Mocoham), Juraci participa da organização do I Encontro de Contadores de Histórias da Amazônia e reforça que os contadores de história deveriam estar presentes em todas as salas de aula do Estado: “É fundamental porque não adianta tentar forçar a ler, tem que arrumar alternativas para despertar o amor pela palavra nas crianças e jovens. Ninguém consegue amar o que não conhece, então trazer os autores daqui, os contadores de histórias para dentro da escola é um modo de atrair a atenção para a literatura”, aponta Juraci. (Diário do Pará)

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