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Empregadas domésticas reivindicam em Copacabana

Pará
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Domingo, 23/10/2011, 06h01

Cuidados paliativos resgatam sentido humano

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Há um tempo entre a pergunta e a resposta que parece conter toda uma vida. Maria Rosa Braga Nunes, 48 anos, vira o rosto, olha para a parede. A voz quase não sai. A pergunta: o que ela gostaria de ter feito na vida. A resposta: ‘queria muita coisa boa, mas não deu’. Maria Rosa tem câncer de mama. Um mal que já lhe atacou fígado e pulmão. O tratamento é feito em casa, com a ajuda de uma equipe de saúde. É longe das enfermarias e quartos impessoais de um hospital, rodeada pela família, que a ex-doméstica enfrenta uma doença que lhe subtraiu um seio, mas não arrancou dela a serenidade e o sorriso.

Desde o dia 15 de junho de 2011, Maria Rosa está sob os cuidados da Clínica de Cuidados Paliativos e Dor (CCPO) do Hospital Ophir Loyola. Em vez de medicações invasivas, uma atenção mais próxima por parte de uma equipe constituída por um médico, uma psicóloga, uma assistente social e uma enfermeira.

“A ideia é estabelecer as condições necessárias à assistência em cuidados paliativos para o câncer, promover o controle da dor e demais sintomas, proporcionar o acompanhamento e intervenção psicológica, social e espiritual, assim como fornecer um sistema de suporte afetivo ou familiar”, diz o médico Sâmio Pimentel, um dos autores do livro “Tempo de Amor - a essência da vida na proximidade da morte”, que aborda a difícil fronteira entre o limite das possibilidades da medicina diante da finitude da vida.

É algo ainda visto com certa desconfiança entre alguns profissionais. Acostumados a curar, a lidar com a vida, médicos às vezes tem dificuldade em aceitar que em determinados momentos não há mais nada a fazer terapeuticamente. A cura não é mais possível, mas amenizar a dor e dar qualidade de vida ao paciente sim. É aí que entra o cuidado paliativo. “Essas pessoas que estão fora da possibilidade terapêuticas atuais precisam de um atendimento diferenciado”, diz a médica Roberta Costa, que chefia a Clínica.

A assistência integral é garantida por uma equipe multidisciplinar constituída de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogas com apoio de nutricionistas, farmacêuticos e terapeutas ocupacionais e todo um suporte de procedimentos hospitalares especializados.

Atualmente cerca de 90 pacientes receberam e recebem esse tipo de assistência na clínica. No Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD) até o mês de setembro foram atendidos 187 pacientes. No SAD são atendidos diariamente três pacientes e mensalmente em torno de 60 pacientes. “A visita em domicílio traz mais comodidade. É uma extensão do atendimento ambulatorial. A maioria dos pacientes está acamada, com a resistência baixa e dificuldade de locomoção como lesões no osso ou no pulmão”, diz Roberta Costa.

Maria Rosa recebe a equipe numa manhã de quinta-feira. Mora numa casa de madeira no bairro do Barreiro. Por todos os lados há imagens e cartazes de Nossa Senhora de Nazaré. Por conta da doença, acumula líquidos no abdome, que incha toda a barriga. A paracentese, o procedimento de retirada desse líquido, dura quase uma hora e enche três vezes uma bacia de quatro litros. Durante esse tempo, Rosa conversa com Pimentel e com o restante da equipe, a psicóloga Karen Santos, a enfermeira Gisele Silva e a assistente social Ana Lídia Sardinha.

A primeira visita da equipe foi no dia 22 de junho. “É sempre um momento de acolhimento, de contatos iniciais na casa do paciente”, diz a psicóloga.

Avanço do câncer demanda cuidados paliativos

Maria Rosa faz parte de uma estatística em crescimento. Quem mais tem câncer são as mulheres. O mais frequente é o câncer de colo de útero. Nos homens, é o câncer de próstata. Segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer, entre 2001 a 2010, o número de pacientes com câncer só cresceu. E o percentual esperado de pacientes com a doença em progressão e que necessitam de cuidados paliativos se mantém em torno de 50%. Por ser o Centro de Referência em Oncologia na rede de saúde pública do Pará, o Hospital Ophir Loyola implantou desde janeiro de 2001, a Clínica de Cuidados Paliativos e Dor (CCPO).

No Brasil, a maioria dos diagnósticos de câncer é realizada em estágios avançados por falta de uma detecção precoce. O serviço do HOL é gratuito, fornece todos os medicamentos padronizados na farmácia do hospital, materiais e insumos necessários, cuidados paliativos como curativos de feridas, escaras e alívio da dor.

“O atendimento visa o alívio do sofrimento físico, psicossocial e espiritual, melhorando a qualidade de vida destes pacientes, assim como na proximidade da morte, permitindo um final digno. A família é parte integrante do atendimento, por isso, é função de toda equipe treinar o familiar-cuidador para o cuidado adequado do paciente no domicilio. Os familiares recebem assistência de toda equipe através do acolhimento, tirando dúvidas sobre o prognóstico do doente através de reuniões e orientações sobre medidas de prevenção”, diz Pimentel.

DIGNIDADE

Maria Rosa jamais imaginou um dia precisar desses cuidados. Nasceu em Mocajuba, mas aos sete anos veio morar em Belém. A mãe a deixou num colégio de freiras na Senador Lemos. Ficou por lá até os 18 anos. Terminou o ensino médio, mas sempre trabalhou apenas como doméstica. Teve uma filha, resultado de um relacionamento de dez anos que acabou justo quando ela anunciou a gravidez.

A doença que hoje lhe faz companhia veio silenciosa. “Começou com um amortecimento na mão. Depois no pé. Um dia, cheguei da praia, fui tomar banho, passei o sabonete e senti um carocinho. Falei pra minha filha”. “Boa coisa não é”, respondeu Camila, 12 anos à época.

Rosa fez exames. “Tem uma bronca aí”, disse um médico. Nesse dia Rosa chorou. “Para mim parece que desabou o mundo”, lembra. Rosa pensou na família, no que iria fazer a partir dali. A filha Camila estava com ela e veio chorando durante todo o trajeto de volta para casa.

Quatro anos depois, o carocinho tomou conta do corpo de Maria Rosa. “Não é fácil, não é fácil”, ela repete baixinho, quando tem de falar da doença. O otimismo não diminui. “Não perco a consulta. É muito importante”, diz.

Assim como Maria Rosa, pelo menos outros 20 pacientes recebem cuidados paliativos. Gente como João Batista Duarte. O câncer de estômago, que atacou também o fígado, faz com que só possa se alimentar por uma sonda. Duarte teve vida atribulada. Morou na rua, se envolveu com a criminalidade, chegou a ser preso. O corpo traz tatuagens antigas. De tantas aventuras pelo lado selvagem da vida, o que resta é o cuidado da irmã. E algumas lembranças esparsas que os 70 anos já não conseguem carregar.

As histórias passadas não interferem no cuidado dos profissionais. A entrega é a mesma. “É preciso ter uma sensibilidade maior para se tornar um profissional com o perfil da equipe de cuidados paliativos”, diz Sâmio Pimentel. No livro em que Pimentel é um dos autores, um paciente de 78 anos escreveu a frase: ‘até pau forte um dia entorta e quebra’. Que seja então de forma humana e digna. (Diário do Pará)

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