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Empregadas domésticas reivindicam em Copacabana

Pará
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Domingo, 03/07/2011, 02h58

Jovens superam desafios para estudar

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Sob o sol forte do meio-dia, Jessé Soares analisa o melhor momento e veículo para adentrar. “O ideal é que o ônibus esteja com todos os bancos ocupados, mas não cheio. Também checo a companhia, porque algumas proíbem a entrada de vendedores. Tudo isso rápido, porque nesse horário a mercadoria derrete”. A estratégia montada com a experiência de dois anos de trabalho é para vender bombons de chocolate em coletivos no município de Belém.

Natural de Limoeiro do Ajuru, na Ilha do Marajó, Jessé veio para a capital em 2007 para tentar o ingresso no ensino superior. Sozinho e com pouco auxílio da mãe, que permaneceu na cidade natal e enviava parte do salário mínimo com o qual sobrevive, o jovem conseguiu passar em Medicina, quando decidiu lutar pelo próprio sustento.

“Conheci um homem que vendia bombons e pedi umas dicas. Ele me apresentou uma senhora que confeccionava e, com o tempo, ela mesma me ensinou a fazê-los e hoje é dessa atividade que pago meu transporte, alimentação, apostilas e ainda o cursinho da minha irmã”, conta. No começo, ele admite que foi difícil, a desconfiança de alguns usuários e a timidez atrapalhavam, mas com o tempo a desenvoltura ganhou espaço. Hoje, em dias de semana e sem chuva, Jessé chega a vender 130 bombons por dia, no preço de R$ 1.

Assim como Jessé, outros jovens também se superam para vencer as barreiras da vida em prol da educação. Uma delas é Camille Pinheiro, 17 anos, que não trabalha, vive com os pais e tem boas condições financeiras, mas também é exemplo de determinação. Ano passado, com o nascimento de Anna Paula, fruto de um breve relacionamento, sua vida mudou e os dias livres deram lugar a uma rotina de responsabilidade e obrigações. “Tive que ajustar tudo a ela e isso incluiu os estudos. Como todos em casa trabalham o dia todo e só podem ficar com ela à noite, mudei de turno no colégio, depois de perder um ano inteiro porque nunca contratamos babá”, conta.

A separação dos amigos foi dolorosa e a volta para uma série atrasada também, mas Camille garante que nunca pensou em desistir. O incentivo, ela garante, foi a vontade de ter uma boa profissão e dar uma vida confortável à filha. “Se já é difícil arrumar emprego com formação, imagine sem estudo? É impossível”. Cursando o primeiro ano do Ensino Médio, numa escola pública no bairro da Sacramenta, a adolescente faz planos para o futuro, com a certeza de que realizará seus sonhos. “Nada é mais forte que a nossa determinação, fé e força de vontade”, sintetiza.

DIPLOMA

Com a mesma opinião é que o psicólogo Ricardo Linhares apresenta o diploma na parede do consultório. “É como se cada letra contasse um pouco da minha história e dos sacrifícios para chegar até aqui”, diz. E não há exagero na escolha da palavra sacrifício. Desde os 12 anos, Ricardo conciliou trabalho e estudo, diariamente. Os serviços eram de ajudante da mãe cozinheira, mas tomavam parte do dia do jovem, mas não de sua disposição. “Acho que foi a maneira como meus pais me criaram, sempre dizendo que ninguém é coitadinho e só existe diferença entre as pessoas se você permitir”. A conclusão do Ensino Médio ocorreu facilmente, mas a primeira tentativa de vestibular foi frustrante. Ricardo, porém, não desistiu e após três anos conseguiu entrar na faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Pará.

Em certos momentos, ele pensava que as dificuldades haviam cessado, mas os gastos com transporte e livros mostravam o contrário. “Foi o período mais delicado da minha vida, porque via meus amigos viajando, saindo depois da aula e era uma realidade que eu não vivia. Mas, apesar disso, nunca me senti um ‘ET’. Pelo contrário, via que muitos admiravam meu esforço e agradeço a todos que me deram caronas e emprestaram materiais nesses seis anos”, brinca.

Fatos do passado hoje são vistos como aprendizado pelo psicólogo. “Não acho que a maturidade venha somente com o sofrimento, mas é o tipo de situação que, se superada, fortalece a personalidade de qualquer pessoa”, argumenta.

Universidade dá apoio com bolsas

A fim de dar apoio financeiro e psicopedagógico a alunos que estão em situação de vulnerabilidade, a Universidade do Estado do Pará instituiu o Projeto Assistência Estudantil. Atualmente 290 pessoas recebem o auxílio, que constitui em uma bolsa mensal de R$325,50.

“O critério de ingresso é socioeconômico, mas para permanecer com o benefício exigimos um retorno acadêmico, com bom rendimento escolar e participação em atividades de ensino, pesquisa ou extensão”, explica a assistente social Kátia Melo.

Nos dois anos de existência do projeto, inúmeras histórias de superação foram presenciadas pela equipe - e junto a elas resultados gratificantes também foram alcançados. “Vimos a melhora da autoestima e da produção acadêmica, porque havia alunos que não faziam todas as matérias ou faltavam por falta de dinheiro. Em Salvaterra, por exemplo, um jovem utilizou a bolsa para comprar uma bicicleta porque levava horas só para chegar ao Campus andando”, conta.

O apoio da universidade, contudo, não deve ser analisado como uma solução, frisa Kátia. “O Estado é o verdadeiro responsável em dar assistência a esses estudantes. Sabemos que apesar do sucesso e superação de alguns, muitos não têm o mesmo final. Sim, eles são heróis da resistência, mas até quando?”, questiona. (Diário do Pará)

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