Sexta-feira, 10/09/2010, 03h43
O estalo veio num sonho. Segundo Gigi Furtado, foi numa noite comum de julho. Adormecida, ela imaginou-se no palco, envolta em uma túnica branca, tirando um turbante igualmente alvo da cabeça. Ouviu então um grito, vindo sabe-se lá de onde: “É em agosto, é em agosto!”. Pronto, ela acordou com o tal enigma.
“Era uma cena muito familiar, fiquei intrigada. No dia seguinte, eu estava ouvindo ‘Canto das três raças’, da Clara [Nunes], quando vi novamente as imagens do sonho. Foi um insight. Comecei a pesquisar fotos e pronto. Tive certeza que era ela”, diz a cantora.
Depois de descobrir que Clara Nunes havia nascido no dia 12 de agosto, Gigi escolheu a data para um show-tributo. Mas apesar de todos os esforços, não deu certo.
“Quando vimos que tudo estava se complicando demais, resolvemos adiar. É melhor não mexer com os mortos”, brinca, em tom sério. Acalmou a ansiedade, dedicou-se a pesquisar a trajetória da cantora e se percebeu ainda mais encantada pela sua obra. Viu então que o momento enfim chegara. O show, batizado “Canto de Areia”, será apresentado hoje, às 21h, no Teatro Margarida Schivasappa, do Centur.
No palco, Gigi Furtado recebe os convidados Adriana Cavalcante, Iara Mê, Júlio Freitas, Nean Galuccio e Mariza Black, não apenas para saudar Clara Nunes, mas para fazer uma ode ao negro.
“Todos os meus shows fazem apologia ao negro, e Clara tem muito desse lado afro. Ela era uma grande pesquisadora da música, dos ritmos, do folclore. Foi conhecendo as danças e as tradições afro-brasileiras que ela acabou se convertendo à umbanda. Eu sou católica, mas não posso ouvir um batuque. A energia dela me passa uma força incrível”, diz Gigi.
E completa: “Se aquele é o meu momento, se o palco é meu, quero passar minha mensagem, falar da minha veia sarará. É interessante para todos os negros, para todos os brancos. Todo mundo é negro”, defende.
Convidado para a dupla homenagem, o ator Carlos Vera Cruz fará intervenções poéticas durante o espetáculo, que costura diversas fases da vida da intérprete.
A ideia, conta Gigi, é não se prender à cronologia. Sob esta perspectiva, foram escolhidos desde boleros que marcaram o início da trajetória da artista, no interior mineiro dos anos 1960, até os sucessos que a afirmariam mais tarde como exímia cantora de samba.
Além da canção que dá nome ao tributo, estão no repertório do show músicas como “Guerreira”, “Mineira” e, claro, “Canto das três raças”. A canção, eternizada na voz inconfundível de Clara Nunes, é um lamento nascido da miscigenação entre o branco colonizador, o banzo africano e a agonia do índio nativo, pela genialidade do letrista Paulo César Pinheiro. (Diário do Pará)
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“Tributo a Clara Nunes – Canto de Areia”, show de Gigi Furtado e convidados. Hoje, às 21h, no Teatro Margarida Schivasappa, do Centur. Ingressos: R$ 20 na bilheteria do teatro e antecipados nas lojas Ná Figueredo a R$ 15. Informações: 8874-9709 / 8253-2794.
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