Sábado, 04/09/2010, 03h12
Escritor Fabrício Carpinejar defende o Twitter com forma de exercício literário
Ele se achava “velho demais” para o Twitter, mas acabou não resistindo. Encontrou na rede social um espaço para escrever sem ser redundante, sem preguiça. Hoje, o escritor Fabrício Carpinejar é um dos maiores entusiastas da teoria de que se pode, sim, fazer literatura em 140 caracteres. Ele arrebata mais de 55 mil seguidores, que o aprovam, contestam, interagem constantemente. E, para ele, não há nada mais fascinante na literatura do que o escritor encontrar seu leitor. Diz ter aderido de vez ao Twitter para subverter a linguagem usual e mostrar que é preciso respeitar a ferramenta, que é muito mais do que responder objetivamente “O que você está fazendo” ou “O que está acontecendo”.
Propor soluções estéticas ou metodológicas para equilibrar literatura e novas mídias, no entanto, passa longe de ser seu objetivo. O perfil @carpinejar se oferece na internet solto, livre para pensar, sem rascunhos. O problema, diz ele, é ser levado muito a sério. “Não tente me rotular que eu quebro a garrafa”, avisa.
Escritor frenético, Carpinejar é aficionado por metáforas e explica quase tudo por meio delas. Até a si mesmo. “Digo que sou um motorista de caminhão sempre trocando de pára-choque”, compara.
Contra os rótulos, a poesia
Em seu perfil, com frases curtas e certeiras, admite, porém, que tenta recuperar a tradição brasileira de aforismos, muito difundida por Nelson Rodrigues e Millôr Fernandes, por exemplo. “É um espaço extremamente apropriado, um desafio estimulante. É onde exercitamos refinar a ambigüidade. Dizer menos não é preguiça. Preguiça é dizer tudo e perder a chance de dizer o necessário”, acredita.
Longe de querer propor definições para sentimentos e emoções, usa, contraditoriamente, extremadas vezes o verbo “ser” e justifica que “é uma pretensão de bagunçar definições, desorquestrar”, brincando.
Prova maior dessa bagunça e ojeriza às proposições ordinárias é o temperamento e o senso de humor de Carpinejar. Às vezes é lírico, outras amoroso, e chega até mesmo a ser debochado. “Estou lá para isso, contrariar expectativas, achincalhar o senso comum. Percebi que o Twitter não é o que você está fazendo, não é terreno baldio, conversa de interfone. Pensei ‘ó, vamos respeitar o Twiiter’. É possível fazer literatura”, explica-se. Tanto que é o primeiro escritor brasileiro a lançar um livro só com frases do microblog. A publicação “www.twitter.com/carpinejar - A poesia em 140 caracteres” (Bertrand Brasil, 2009) apresenta 416 máximas entre seus quase 2 mil tweets.
Fabrício Carpinejar é um profícuo observador. “As influências do cotidiano são sempre as maiores. Os filhos, o enredo doméstico, olhar o vizinho por outros quadros, descobrir a personalidade pelo jeito que a pessoa dobra a toalha”, diz.
Baseado no próprio cotidiano, para escrever, aproveita situações, inventa outras. E inventou a si mesmo. Carpinejar sequer existe de fato. Não é seu sobrenome. É a união dos nomes dos pais Carlos Nejar e Maria Carpi. Além disso, gosta dos mistérios. Acredita que nascemos para fazer mistérios. Escreve pelo impulso, vontade, fome, alegria. Acredita que os leitores nunca vão saber o que é real e o que é inventado. Mas conclui que o desejo, este sim, é sempre real. (Diário do Pará)
PARTICIPE
Fabrício Carpinejar está no Encontro Literário da XIV Feira Pan-Amazônica do Livro, às 19h30, no Espaço Machado de Assis. Entrada franca.
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