Sexta-feira, 03/09/2010, 03h23
Antes de se transformar no retirante maltrapilho que abandona a região, o sertanejo se vê abandonado numa terra estéril, mas ainda assim, exuberante. Põe os olhos no horizonte e vê a noite descendo. Pela voz de Euclides da Cunha, comenta: “Desce a noite, sem crepúsculo de chofre — um salto da treva por cima de uma franja vermelha do poente — e todo este calor se perde no espaço numa irradiação intensíssima, caindo a temperatura de súbito, numa queda única, assombrosa...”
Quando leu pela primeira vez os últimos versos de “A Terra”, primeira parte do relato literário épico “Os Sertões”, Lenine sentiu que aquelas palavras jamais lhe abandonariam.
“É linda a narração do cair da noite. Não esqueço. É o tipo de livro que eu não dou, não empresto. De tempos em tempo revisito e lembro porque essas palavras exercem sobre mim tanto encantamento”, diz.
Apaixonado confesso pela obra de Euclides da Cunha e de João Cabral de Melo Neto, o cantor pernambucano se apresenta logo mais, às 22h, no deck do Hangar – Centro de Convenções e Feiras da Amazônia, como parte da programação da XIV Feira Pan-Amazônica do Livro. Ele conversou com o Caderno VOCÊ por telefone, no final da tarde de ontem, antes de rumar para o Circo Voador, onde participaria da gravação do DVD da banda Pedro Luís e a Parede. Apesar da rotina atribulada, com shows no Brasil e no exterior, ele sempre guarda tempo para a leitura.
“Sempre estou com dois, três livros. Desenvolvi uma espécie de psicopatia (risos), troco o chip o tempo todo. Por isso consigo ligar e desligar, fazer várias coisas ao mesmo tempo. Acabo de ler as crônicas de Nelson Motta, estou lendo Klester Cavalcanti, e Borges está sempre na cabeceira. João Cabral eu tenho que visitar sempre, não adianta”, diz. “Eu falo português, meu trabalho é com a palavra”, acentua.
Não à toa, Lenine sempre foi celebrado, pelo público e pela crítica, por sua habilidade como compositor. Afora as canções já conhecidas, popularizadas sobretudo nas novelas, ainda existe uma produção que permanece incógnita: as músicas compostas especialmente para o cinema, espetáculo de dança, seriados e especiais de TV, que nunca fizeram parte de seus discos de carreira. Essas canções vão compor seu próximo disco, “Lenine.Doc/Trilhas”, que será lançado neste mês. “São canções que povoaram o universo de outros criadores. Talvez seja só o início de um projeto bem mais amplo”.
LÍNGUA
Durante a conversa descontraída, ele se disse lisonjeado por participar da Feira do Livro e, em tom de brincadeira, elogiou o sotaque paraense. “É muito prazeroso participar pela segunda vez da feira, sobretudo nesse rincão do país onde se fala tão belo”, disse. “Aí [no Pará] o ‘nh’ tem som de ‘nh’! É lindo ouvir vocês falarem ‘Tu fazes’, ‘tu vais’. Eu gosto dessa coisa do vernáculo, dessa pronúncia”.
Participar desta edição do evento, que homenageia a África que fala português, também tem um significado especial para Lenine. Ele se apresentou diversas vezes no continente africano e guarda um carinho diferente por aquele público, que sempre o recebeu tão bem. Em seu último show em Luanda, em julho deste ano, dentro do respeitado Luanda Jazz Festival, ele teve de voltar ao palco duas vezes a pedido da plateia. E também caiu nas graças da crítica local.
“O Lenine é muito importante, está atualmente na vanguarda da produção musical do Brasil, daquele funk suingado, com letras surrealistas”, escreveu o crítico musical angolano Jomo Fortunato, do Jornal da Angola. O show do brasileiro foi considerado um dos pontos mais altos do festival.
Lenine não nega que essa identificação se dá, sobretudo, em função da língua portuguesa. “Quando a gente toca em outro país, precisa contar com aqueles outros 50% da canção que não dependem da letra: a música. A ousadia semântica, a poética. Mas tocar fora do Brasil e ter a certeza de que estou sendo compreendido no quesito texto é maravilhoso. Já toquei em Cabo Verde, Marrocos, Luanda. Sempre foi incrível”, diz.
Assista - Hoje, a partir das 22h, show de Lenine, na XIV Feira Pan-Amazônica do Livro, no Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia. Entrada franca. Informações: 3344-0100.
NA INTERNET
www.feiradolivro.pa.gov.br e twitter @feiralivropa
DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO
ENCONTRO LITERÁRIO - Espaço Machado de Assis
19h30 às 21h - Luís Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura
SHOWS MUSICAIS - Área externa – palco deck
20h - Mostra da África no Pará - Grupo de Marambiré (Quilombo do Pacoval/ Alenquer)
21h - Funk como Le Gusta
22h - Lenine
(Diário do Pará)
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