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Quinta-feira, 02/09/2010, 03h30

Gilberto Gil apresenta novo show no Hangar

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Gilberto Gil apresenta novo show no Hangar
Gil se apresenta às 22h dentro da programação da Feira do Livro

Os modismos passam, mas Gilberto Gil não pára. Aos 68 anos, o artista baiano, um dos maiores nomes da cultura brasileira, segue criando, transcorrendo, transformando. É dele a noite de hoje. E todo mundo poderá ver o quanto o palco, a música, o público são importantes na vida de Gil. Nessa conversa por telefone, ele conta, com sua voz mansa, o quanto foi difícil ficar longe disso tudo. “Na vida de gestão pública, os contatos são mais difíceis, mais cheios de interrogações, questionamentos. Já música é lisa, não tem arestas, não tem farpas”, compara. Mas agora essa ausência é passado. Gil está de volta. Que bom pra ele. E que sorte a nossa.

P: Sobre o seu novo trabalho. O que representa, dentro da sua carreira, essa volta ao forró, um ritmo nordestino por excelência?

R: O prazer e o conforto. A música nordestina pertence ao meu sistema metabólico, cresci com ela, é a música que está ligada aos meus primeiros interesses, a ídolos como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. É confortável pra mim, é música de cozinha, sabe? De quarto e sala de visita. Conheço os ladrilhos dessa casa, sabe? Pra mim forró é música ambiente (risos).

P: Como tem sido a receptividade deste novo trabalho? Você sentia saudade de estar na estrada com os músicos?

R: Depois do Ministério [da Cultura] fiz alguns projetos, o Banda Larga Cordel, logo que eu estava saindo, depois o Banda Dois, um disco acústico com meu filho ao violão, relendo canções antigas e com quatro canções novas. Desta vez são nove canções novas. Voltei a compor, a me interessar por isso, pois eu não tinha tempo. A voz sofreu muito por causa do ministério. Hoje descanso demais a voz, só canto, não falo tanto, foi uma melhora muito grande. Estou mais sossegado, com mais tempo para pensar em música, ouvir música, ficar em casa, me dedicar ao garimpo, ao trabalho de decantação de ideias. Estou totalmente reintegrado ao ofício do fazer musical, como era antes.

P: E o contato com o público é totalmente diferente…

R: O contato através da música quase não tem atrito, nenhuma reserva. Na vida de gestão pública, os contatos são mais difíceis, mais cheios de interrogações, questionamentos. A música é lisa, não tem arestas, não tem farpas.

P: Recentemente sua trajetória foi tema de um documentário para o Biography Channel. O que representou essa experiência, o momento de olhar pra trás e rever episódios importantes da sua vida?

R: Eu estou com 68 anos, tenho uma carreira já feita, uma obra realizada, enfim, um reconhecimento razoável para essa carreira e essa obra. Então é uma época em que se torna natural essa coisa das revisões, dos retornos ao passado, súmulas, resumos, o que tem sido, o que foi, mas muito naturalmente. Tem gente que não gosta muito dessas voltas compulsórias ao passado, mas eu acho natural. As pessoas querem reler a obra, relacionar o passado com o presente. Não sou memorialista, não me recordo bem dos episódios, então essas revisões são uma oportunidade para que eu volte às minhas anotações no tempo. Tem família, tem amigos, colegas. Eu acho que a gente acabou ocupando um espaço. É a história do Brasil, do mundo. Ter vivido 50 anos participando dessas histórias, vivendo alguns personagens, é muito interessante, muito sugestivo. Tem também o documentário sobre o festival de 67, com “Domingo no Parque”, “Alegria, Alegria”. Aquilo tudo, a gente ali jovem, eu com 25 anos, cantando, sofrendo nos momentos que antecediam as apresentações, o Chico falando, o Caetano falando. Fui ver o filme com o meu neto, e é tudo tão interessante, como se eu estivesse vendo minhas várias outras vidas segmentadas no tempo, no espaço, com a marca dos episódios. É muito legal, é a gente se tornando história.

P: No documentário de sua biografia, suas declarações acerca do uso de drogas foram amplamente reproduzidas pela imprensa. Você acha que o Brasil ainda está longe de encarar o uso de drogas como uma dimensão real do comportamento humano?

R: Foi uma abordagem sensacionalista. É uma figura pública declarando ter usado drogas. Ao longo da história da humanidade, as drogas, as substâncias que alucinam, que mudam os estados de consciência, têm sido freqüentes. Na Grécia, em Roma, na formação da Europa, nas comunidades mais originárias, nos índios, africanos, americanos. O homem sempre esteve interessado, curioso, sobre a questão da transformação dos estados de consciência, seja por meio do sonho ou pelas chamadas drogas. Isso sempre causou curiosidade, e vai ser sempre assim. Essa questão é vista com naturalidade, mas também com não naturalidade. As sociedades de hoje estão começando a ficar habituadas, a Europa vem relaxando, permitindo usos, o Brasil está começando a entrar nesse processo. Hoje são discutidos os malefícios, as possibilidades negativas e positivas. É um assunto que está na pauta. Claro que existem as drogas de flagelo, como o caso do crack, que não tem nada de bom. Os malefícios são muito mais claros e visíveis do que qualquer outro suposto benefício. Mas acredito que os consensos sociais vão se formando, e que o processo está caminhando para se tornar uma questão de cidadania.

P: Mesmo sendo uma das principais figuras públicas do Brasil, você se mantém discreto em relação a sua vida pessoal. Como é possível esse equilíbrio num mundo em que cada vez mais a intimidade dos artistas é exposta em detrimento de suas produções?

R: O culto à personalidade tomou uma dimensão quase essencial dentro da dimensão artística das pessoas. Faz parte do desejo popular, as pessoas querem, os fãs querem esse olhar público especial. A ideia da celebridade, do ícone, tudo isso está associado ao desejo social de ter essa dimensão e ao fato de que isso é propulsor da indústria da informação. Existe um valor econômico em estabelecer claramente essa especialidade, como um sabor, um perfume. E isso tem um preço caro, pode ser vendido com maiores possibilidades de lucro (risos). Mas como você disse, eu gosto de ter a minha vida mais preservada. Já estou com 68 anos, já vivi em outros círculos mais intensos. Eu já estou fora.

P: Seu perfil no Twitter é mantido pela sua produção. Você não pensa em entrar na rede de microblogs, a exemplo de muitos outros artistas?

R: Não quero, não. Dá muito trabalho, é uma loucura ficar indicando sua posição o tempo todo, sua localização. Não, não gosto disso não.

ASSISTA

Gilberto Gil se apresenta hoje em Belém, às 22h, dentro da programação da Xiv Feira Pan-Amazônica do Livro, no Hangar. O show é gratuito, mas quem quiser assisti-lo em uma área reservada no deck terá que trocar o ingresso por um livro infantil novo, que ao final da feira será destinado a uma biblioteca pública. A troca é feita diariamente a partir do horário de abertura da feira, às 10h, exclusivamente para o show da noite, em um posto de troca na entrada do pavilhão de feiras, limitado a duas trocas de ingresso por RG. Mais informações em http://www.feiradolivro.pa.gov.br.

(Diário do Pará)

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