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Quarta-feira, 01/09/2010, 04h46

Motorista tapa buracos na alça viária

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Todo santo dia, há mais de dois anos, o motorista paraense Raimundo Nonato Sacramenta, 53 anos, cumpre extenuante tarefa que deveria ser desempenhada pelo Estado: tapar os incontáveis buracos responsáveis pelo tormento na vida de motoristas que trafegam pelos 70 quilômetros da Alça Viária, no trecho que vai de Marituba até os limites entre os municípios de Barcarena e Abaetetuba.

É um trabalho isolado, de paciência e dedicação, realizado sob sol escaldante. Sacramenta deveria ganhar prêmio pelo que faz, porque dá exemplo que não é seguido por quem recebe dinheiro público para cumprir com seu dever.

Às 5h ele põe os pés na estrada. Primeiro, distribui pequenos montes de piçarra e pedras pelos trechos que considera críticos da rodovia. Depois, usando cones de sinalização, isola do trânsito de veículos o local onde fará o serviço. Em seguida, percorre até 400 metros de distância, para encher o carrinho de mão com aterro, utilizando uma enxada. Por fim, usa a própria sandália de borracha que calça para retirar a água dos buracos que pretende tapar.

Feito isso, o “governador da Alça Viária”, como Sacramenta é mais conhecido, carrega com as mãos as pedras para levá-las até os buracos. Os motoristas param para olhar o trabalho e ajudam, esmagando as pedras com as rodas de seus veículos. Feita a “compactação” do solo, o arremate é jogar a piçarra no buraco. Pronto, está feito o serviço.

Pena que vai durar somente alguns dias. A chuva e o intenso tráfego diário de carros pesados se encarregarão de destruir o trabalho de formiguinha do governador sem mandato. Teimoso, ele não se importa de começar tudo de novo. Parece coisa de filme. Mas não é. É a realidade das estradas do Pará.

Sacramenta não é servidor público, não recebe um centavo do governo pelo trabalho que faz, mas não consegue segurar a revolta ao contemplar uma placa enorme do governo, enfatizando que gastará R$ 32 milhões para recuperar “trechos críticos” da Alça Viária no prazo de 304 dias. Não se vê, contudo, ao longo de toda a rodovia, qualquer máquina da Construtora Delta fazendo o serviço descrito na placa.

HORROR

A empresa também ganhou outra concorrência, no valor de R$ 37 milhões, para abrir uma estrada de 36 quilômetros, chamada de Perna-Sul do Acará. Parte da obra foi feita. Em outro trecho não há máquinas no local. A estrada é de terra batida e ainda não viu a cor do asfalto. Abandonada pela Secretaria de Transportes (Setran), a Alça Viária é uma estrada perigosa durante o dia e arriscada de ser percorrida à noite devido aos assaltos. Também não possui sinalização para os motoristas.

A dona de casa Esmeralda Aires Viana, 56 anos, dez filhos, é vizinha de Sacramenta. Ela também se aventura a tapar buracos. Ontem, porém, não quis pegar no batente. “Eu não tinha nada pra comer e nem para dar às crianças, por isso preferi ficar em casa”, contou ela ao DIÁRIO. Esmeralda disse que não recebe dinheiro do programa Bolsa Família por manter os filhos na escola.

“A Alça Viária é um horror. O governo devia se sentir envergonhado por não fazer nada aqui”, declarou o motorista Dário Venturine. Pneus, molas e suspensão são os prejuízos que ele contabiliza por trafegar pela estrada esburacada. Para ele, Sacramenta “é um herói, que vale por uma secretaria inteira de governo”.

O DIÁRIO tentou contato ontem à tarde com a Setran, mas um funcionário informou que o secretário não podia atender naquele momento.

“Mandaram me prender porque tapei buraco”

Raimundo Sacramenta conhece a Alça Viária como a palma da mão. É inquieto e não consegue ficar parado. Organiza tudo do seu jeito. Não possui ajudante, mas isso parece não incomodá-lo. No meio da rodovia, entre carros e motocicletas, ele parece ter amplo domínio do que faz. Ao mesmo tempo em que orienta o trânsito, grita para os motoristas terem cuidado e pede o “trocado” pelo serviço. Todos gostam dele.

Ao DIÁRIO, Sacramenta diz que gostaria de receber R$ 2 milhões dos R$ 32 milhões investidos pelo governo para recuperação da estrada, conta já ter sido preso por “tapar buraco” feito pela construtora Delta e ataca o fato de existir uma usina de asfalto que está parada na Alça, enquanto a rodovia fica pior a cada dia.

P: Qual é o maior problema dessa estrada?

R: Não tem um cara do governo que faça manutenção nisso aqui. Tem uma usina lá adiante, tem a Setran, mas eles não fazem nada.

P: O governo paga alguma coisa para o senhor tapar os buracos da estrada?

R: Pra mim? Quem dera que dos R$ 32 milhões que eles estão pagando para recuperar essa estrada me dessem pelo menos os zeros desse dinheiro.

P: O senhor viu a placa do governo aqui na estrada?

R: É, é R$ 32 milhões. Pra mim, ela é a melhor governadora, porque foi ela quem me deu emprego. Ela não tapa buraco, quem tapa

sou eu (risos).

P: Há quanto tempo o senhor tapa os buracos da Alça Viária?

R: Eu moro aqui há cinco anos e a mais de dois anos faço esse serviço na estrada. Mas não é só aqui, não. Eu também tapo buracos na PA-150, em Tailândia, Eldorado dos Carajás. Eu estava pra lá, mas o pessoal me encontrava na estrada e dizia: “Ceará, volta pra Alça, volta pra Alça, que lá os buracos estão quebrando todos os carros”.

P: E aí o senhor voltou.

R: É, voltei. Quando começou a política, ela (governadora) soube que eu estava tapando buracos por aqui novamente e mandou a tal de Maia e a tal de Rural Terra ajeitar a estrada. Agora, os caras estão lá, todos com carros novos, caçamba, rede, alojamento, televisão, uma usina de asfalto zerada. Mas que usina é essa que não tem usineiro? Como é que contratam uma firma dessas que nunca sujou um pneu?

P: Como é que o senhor faz para tapar os buracos? Quem dá o aterro e quem paga o seu serviço?

R: É só problema pra mim. Agora eu estou precisando de umas três carradas de piçarra pra jogar em uns buracos ali, mas eu não consigo, porque um cara me pediu R$ 120,00 por

uma carrada.

P: Como é isso? É você quem paga?

R: Não, eu pedi pro dono de uma piçarreira e ele me cobrou R$ 120,00. O pessoal da JM foi quem jogou um pouco de terra aqui. São os próprios empresários aqui da Alça que ajudam com aterro para tapar os buracos. Às vezes, é a Polícia Militar daqui que liga, pedindo para ajudar a

tapar os buracos.

P: Quanto o senhor recebe por dia para fazer o serviço do governo?

R: Um trocadinho de um motorista aqui, outro trocado ali. É assim que eu vou ganhando pelo meu trabalho. Tem dias que dá uns R$ 20,00, tem dia que

chega a R$ 30,00.

P: Ninguém do governo estadual nunca falou com o senhor sobre o trabalho que realiza aqui?

R: Nunca. Quem me ajuda são os motoristas, que são todos meus amigos. Eu queria que a governadora me desse pelo menos uns R$ 2 milhões desses R$ 32 milhões que estão aí na placa. Eu ia com esse dinheiro comprar um monte de carros e contratar meus amigos que moram por aqui para tapar todos esses buracos.

P: É verdade que o senhor já foi preso por fazer um serviço que é da competência do Estado, através da Secretaria de Transporte?

R: Eles mandaram me prender. Não sei quem mandou, mas diziam que eu estava prejudicandoo governo. No trevo da Alça com o trevo de Abaetetuba, a Delta (empresa contratada pelo governo para recuperar a estrada) deixou um grande buraco. Eu fui lá e tapei. Chamaram a polícia e eu fui preso. Disseram que eu estava tapando um buraco que era da Delta. Ora, no final de semana o buraco causou até acidentes e morte. Eu não podia deixar que isso acontecesse.

P: Qual a tua profissão?

R: Sou motorista. Já trabalhei na Comara, da Aeronáutica. Trabalhei na Venezuela, Bogotá, Quito. Gosto do que faço. Não tenho dinheiro para renovar minha carteira de motorista, vencida há cinco anos.

(Diário do Pará)

Comentários Recentes

  • Josy disse: Comentário postado em 01/09 Quarta-feira às 18:32h "Nossa! Essa é a cara do Brasil. Pará! Maior Estado da Região Norte e a alça viária, obra eleitoreira nunca passará do que tá, se nossos governantes figirem que ela não existe na realidade, que só no orçamento anual para solicitar verba e nada ser aplicado onde deve. Toda semana passo pela alça e não imagina a dor q me causa ver um projeto que deveria ser um dos mais belos do Pará está do jeito que tá. Tantas Rodovias por todo Brasil que tem atenção devida, a nossa PA (Alça Viária) não faz parte. Só para ter uma idéia, estou no AP durante a semana e um trabalho de troca de asfalto que está sendo feito no trecho de Macapá a Porto Grande ta sendo um dos melhores, enquanto que no Pará a governadora ou quem quer que seja não faz nem o serviço de tapar buraco, deixando por conta de um voluntário que talvez nem saibam da existencia desta pessoa. Que absurdo!! Como diz Bóris - Isso é uma VERGONHA!!!!"
  • Marco disse: Comentário postado em 01/09 Quarta-feira às 10:37h "...E eu que pensei que o Pará estava sem Governador! Temos sim! O cidadão Raimundo Nonato fazendo às serviço da nossa omissa administração pública!"
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