Terça-feira, 31/08/2010, 04h49
Caco Barcellos deve estar fazendo falta na tevê. Ausente da grade de programação desde o dia 17 de agosto, em função do Horário Eleitoral Gratuito, que fez sumir momentaneamente das noites de terça-feira o programa “Profissão Repórter”, o jornalista arrastou 1.200 pessoas para o bate-papo promovido pela XIV Feira Pan-Amazônica do Livro, na noite do último domingo, no Hangar.
Apresentado ao público pela mediadora do encontro, a jornalista Adelaide Oliveira, como “gaúcho, ex-taxista, ex-hippie e apaixonado por futebol”, Caco começou a conversa de duas horas relembrando suas passagens anteriores por Belém, na função de repórter do Jornal Nacional.
“Sempre sou bem recebido por aqui. O paraense é um povo muito receptivo. Até mesmo durante a confusão do Círio de Nazaré, eu sempre achava alguém disposto a compartilhar comigo a sua história”, disse o autor dos livros-reportagem “Rota 66” e “Abusado”.
O tema da palestra girou em torno do jornalismo, assunto principal de seu programa, que mostra diante das câmeras os bastidores da profissão. Partindo da distinção entre o bom, o mau e o feio na reportagem, Caco Barcellos criticou o atual descaso com o jornalismo investigativo na mídia brasileira. “Há quem goste de denunciar por denunciar. O jornalismo atual tende a valorizar muito mais o escândalo do que a informação. Confunde-se sensacionalismo com investigação”, afirmou.
Para provar seu ponto de vista, lançou um desafio à plateia. “Quem são os maiores matadores brasileiros?”, perguntou. “Quem disser que é o assaltante ou o traficante, está errado. Quem mais mata no Brasil é o cidadão comum. Se mata no trânsito, por ciúmes ou por despreparo, como é o caso da polícia. Ou se você é goleiro do Flamengo”, afirmou em tom de ironia, fazendo referência ao caso Bruno.
Ao escutar os risos do público, repreendeu em tom de brincadeira. “Não riam que isso é sério. A culpa disso está aqui no palco. Só existe gente mal informada porque os jornalistas não informam direito”, falou o repórter.
Como exemplo de seu mote de “enxergar a notícia além da notícia”, Caco Barcellos citou a investigação que o levou a escrever “Rota 66”. O livro, que consumiu oito anos de pesquisa, revelou a brutalidade da Polícia Militar de São Paulo, que dizimou ao longo de 22 anos, 4.200 pessoas.
“Certa vez demorei um ano e meio para apurar uma matéria de 3 minutos. Dá trabalho? Dá. Mas isso se chama reportagem”.
VIDA DUPLA
Ao lembrar-se do início da sua trajetória no jornalismo, em Porto Alegre (RS), revelou que para pagar a faculdade de Engenharia trabalhava como taxista. Disse também que por um acaso do destino desbancou para a área de comunicação, quando começou a trabalhar em um jornal universitário. “Depois que vi que não queria ser engenheiro, levei uma vida dupla como repórter de jornal e taxista. Tinha complexo de inferioridade. Não queria que ninguém da redação ficasse sabendo”.
LIBERDADE
Ao ser questionado por alguém do público sobre liberdade de expressão e sua relação com a Rede Globo, Caco Barcellos foi surpreendido pelos brados de um manifestante. “A Globo é um laboratório de alienação”, gritou o jovem, enquanto era contido pelos seguranças.
“Essa é uma prova de que em Belém os jovens são inquietos”, disse Caco, amenizando o ocorrido. “Trabalhei em veículos de esquerda, de direita, de centro. E em nenhum eu tive liberdade de imprensa. A liberdade é do grupo. Só existe independência no jornalismo. Concordo com vocês. Não temos liberdade. Ninguém tem”, afirmou, arrancando aplausos da plateia.
Como não poderia deixar de ser, a velha questão da obrigatoriedade do diploma de jornalista veio à tona durante o bate-papo. Caco Barcellos disse não ter opinião formada e preferiu não comentar o assunto. Ao invés disso, desvencilhou-se com uma anedota.
“O maior absurdo foi o Supremo usar o meu nome como argumento favorável à decisão de extinguir o diploma. ‘O jornalista Caco Barcellos não tem diploma e atua na profissão’. E eu tenho dois diplomas”.
Durante uma curta coletiva de imprensa, espremida entre a sessão de autógrafos, Caco foi questionado se em meio a tanto descaso com o jornalismo investigativo, ele não se sentiria o último da espécie. “Talvez seja. Mas eu vejo com grande futuro o jornalismo investigativo, ao contrário do que muita gente pensa. Acho que é uma perda de tempo tentar querer contar primeiro. Para ser um bom jornalista, é preciso saber contar boas histórias. Quem discordar disso pode fazer outra coisa”, afirmou. (Diário do Pará)
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