Quinta-feira, 26/08/2010, 08h08
O ano era 1990. De passagem por Paris, o jornalista Zuenir Ventura foi levado ao encontro do escritor Luis Fernando Verissimo, então radicado na capital francesa. O que se deu a partir de então foi uma amizade que perdura ao longo dos anos, com suas diferenças e semelhanças. Sobre esses e outros assuntos, ambos conversam com o público da 14a Feira Pan-Amazônica do Livro, dia 3, no Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia.
Conversar é uma arte, muitos dizem, mas o que acontece entre Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo no livro “Conversa Sobre o Tempo”, registro de um encontro que aconteceu numa fazenda, em julho de 2009, é a união de dois mestres da palavra exercitando suas opiniões e ideias.
Iniciativa da editora Agir, o livro é o primeiro de três que pretendem registrar debates entre intelectuais brasileiros a respeito de temas perenes no questionamento da condição humana. No caso de Verissimo e Zuenir, o adicional saboroso à receita é a amizade profunda que os une.
Se ao leitor sobram perguntas, o livro torna Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo mais próximos, principalmente no aspecto pessoal, já que o pensamento sobre assuntos como política e literatura são amplamente difundidos e o que torna a leitura mais fascinante é conhecer a dimensão humana de duas personalidades tão saudadas.
A seguir, algumas impressões, em entrevista costurada entre dois amigos separados por quilômetros de distância – Zuenir é mineiro e reside no Rio de Janeiro, enquanto Verissimo nasceu e mora na capital gaúcha – onde fica marcada a grande afinidade de pensamentos, dando a impressão de que esta matéria é a mediação de uma conversa semelhante à do livro “Conversa Sobre o Tempo”, com a devida licença a Arthur Dapieve – mediador da obra.
P: De onde surgiu a vontade de registrar uma conversa entre vocês?
ZUENIR: Esse livro é a primeira colaboração entre eu e Verissimo. Helena Carone, que é da Agir, teve a ideia da série, e sabia que nós éramos amigos, por isso nos convidou para começar, o que foi uma boa realização, que teve também o Arthur Dapieve, que diz que eu fui seu primeiro editor. Logo, a amizade perpassa todo o livro.
VERISSIMO: Eles nos alimentaram, ligaram o gravador e o livro ficou pronto.
ZUENIR: Foram quatro ou cinco dias na fazenda, conversando, tendo o Dapieve meio como um psicanalista. Ele ouvia, levantava temas e nós discutíamos tudo, tipo política ou morte.
P: E como começou essa amizade?
VERISSIMO: Roberto D’Ávila nos apresentou. Surgiu uma simpatia instantânea, e desde então estamos sempre juntos, apesar da distância entre o Rio e Porto Alegre. O Zuenir é uma pessoa muito agradável, e as nossas esposas, Lúcia e Mary, também se tornaram grandes amigas.
ZUENIR: Nosso encontro foi há mais de 20 anos, em Paris, onde eu passava uma temporada, e o D’Ávila nos apresentou. Foi amor à primeira vista, inclusive entre nossas esposas. Somos casados há muito tempo, eu há 48 anos com a Mary, e ele há 47 com a Lúcia, elas que cuidam das nossas vidas. Desde então, nós já viajamos para vários lugares juntos e estivemos perdidos no Rio Negro durante a Festividade de Parintins, quando as nossas mulheres nos salvaram dos jacarés (risos).
P: Ambos são escritores, mas dividem os mesmos gostos? Por exemplo, Verissimo já escreveu sobre a gula e Zuenir sobre a inveja. Quais são as paixões dos dois?
ZUENIR: Ele (o Verissimo) fala pouco, é mais contido, é mais cético do que eu, que sou um eterno otimista. Mas Verissimo não é cético blasé e nem é chato. Ele fala de comida e futebol como poucos.
VERISSIMO: Não estou podendo exercer a paixão pela boa comida, devido à idade e alguns cuidados necessários. Mas aprecio um bom convívio e um bom vinho.
ZUENIR: E o Internacional. Verissimo gosta tanto que na final da Libertadores torci muito pelo Colorado, por ele. Não torço tanto por time porque tenho medo de fanatismo de qualquer espécie. Mas nós dois cultivamos hábitos diferentes, ele é conhecedor de vinhos, eu gosto muito de fazer exercícios, caminhada, por exemplo.
VERISSIMO: Ele já tentou me levar para correr, mas eu declinei do convite. Meu único exercício é tocar saxofone. Mas não acredito que Zuenir seja invejoso, agora eu certamente sou guloso.
ZUENIR: Eu defendo no livro que amizade é melhor que amor, pois não tem aquela “ditadura da libido”. Tanto que conseguir transformar amor em amizade é um mérito.
P: O que os aproxima mais?
ZUENIR: Nós falamos pouco sobre trabalho, sobre crônicas ou jornalismo. Eescrevemos no jornal O Globo a cada duas semanas, alternadamente. Mas a família nos deixa muito felizes, é sempre assunto. Até pouco tempo fazíamos parte de um movimento, criado pelo Moacyr Scliar, dos “sem netos”, pois, apesar de eu ter dois filhos e Verissimo ter três, não tinha continuidade. Aí nasceu a Lucinda, neta dele, em 2008, e há pouco mais de um ano nasceu a minha Alice. Nós falamos sempre sobre elas, as descobertas e como são inteligentes.
P: E a empolgação pela escrita, como anda?
VERISSIMO: Acho que à medida que passa o tempo, vai se depurando o texto, e com isso se escreve menos.
P: Na opinião de vocês, jornais e livros estão caducos?
ZUENIR: Minha visão não é apocalíptica. Quando a TV surgiu, já se dizia que o jornal de papel iria acabar. O antagonismo entre as mídias é a convergência. Com isso, o papel do impresso vai mudar, porque num mundo onde se tem informação demais, ela se torna ruído. O jornal vai dar a explicação para o que acontece.
VERISSIMO: O livro não acaba, mas muda. A minha geração tem um apego ao livro, de manusear, cheirar, por isso a minha resistência à tecnologia, que vai exterminar isso. A tecnologia, o excesso de informação, é problemático. Existem muitos textos na internet com a minha assinatura, a página no Twitter não é minha, mas não tenho preocupação e nem posso controlar isso.
ZUENIR: O livro, que já foi de papiro, vai seguir se aperfeiçoando, porque o hábito da leitura é uma necessidade biológica. (Diário do Pará)
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