Quinta-feira, 26/08/2010, 08h01
Os jovens demonstram ao mesmo tempo descrença e esperança
Desencanto e descrença nos políticos. Preocupação com o futuro e esperanças são os sentimentos que parecem mover os jovens paraenses neste período de plena campanha eleitoral.
No Pará, os eleitores com idade entre 16 e 18 anos somam cerca de 2,3 milhões. Eles não são obrigados a votar e muitos confessam ter tirado o título de eleitor apenas como mais um documento. Para entender o que se passa com esses jovens eleitores que exercerão o direito de escolha pela primeira vez, o DIÁRIO reuniu, num debate, estudantes da escola estadual de ensino médio Orlando Bitar no centro de Belém.
A escolha não foi por acaso. Estudantes de escolas públicas, eles são usuários também de outros serviços públicos como a saúde e estão mais vulneráveis a problemas como a violência.
Elison Soares, 18; Luan Mendes, 16; Thayana da Silva, 17, Raíra Barros, 17; Marcos Melo, 18 anos, Luciane Oliveira, Leonardo Cordeiro, 21 anos e a caçula da turma, Maria Naiane Santos, 15 anos (que ainda não tem título, mas quis participar) conversaram com a reportagem sobre sonhos, medos e, principalmente, sobre expectativas e falta de encanto com os políticos.
Todos, à exceção de Naiane, vão votar, mesmo que alguns ainda não sejam obrigados. Elison confessa que tirou o título por obrigação, mas afirma que agora, com o documento em mãos quer “exercer o direito de votar”, embora afirme que não gosta de política. Sente-se apenas obrigado a acompanhar o processo porque sabe que é importante.
Os colegas fazem coro. Todos dizem que detestam falar de política, mas acham que são obrigados a buscar informações sobre o assunto. Nenhum deles se encantou com o horário eleitoral gratuito. Preferem acompanhar o processo pelos telejornais. Dos oito entrevistados, só metade tem acesso à Internet de casa. Os demais acessam a rede da escola. O site mais popular entre eles é o orkut, mas dizem que vez ou outra procuram também notícias.
Apesar disso, nenhum dos jovens entrevistados escolheu o candidato ao governo. Acham que só vão ter condições de fazê-lo após os debates eleitorais. “No programa (eleitoral gratuito) os candidatos mostram só coisas boas, no debate dá para saber como eles respondem, ver a postura”, afirma Raíra, resumindo a opinião dos colegas.
Além do debate, eles admitem que a opinião da família influencia na hora de escolha. Raíra por exemplo já sabe que votará nos pastores da igreja que frequenta para deputados estadual e federal. Ainda não decidiu os outros votos. Elison tem um parente que é candidato e decidiu que votará nele também.
Jovens, estudantes de escola pública, sem plano de saúde, eles elegem a educação e saúde como as prioridades do próximo governador. “Um dia por acidente caiu álcool nos meus olhos. Esperei 12 horas para o médico me receitar um colírio”, conta Elison, um dos mais falantes da turma. Raíra faz coro: “Meu irmão tomou uma injeção errada no Pronto-Socorro e quase morreu”.
Há preocupação também com a geração de emprego e violência, mas na opinião deles, tudo poderia ser melhor se houvesse mais investimentos em educação. Indagados sobre o que diriam para o futuro governador ou governadora do Pará, foram unânimes em pedir projetos que ajudem a qualificá-los para o mercado de trabalho.
“Se o governo cuidasse 50% mais da educação já estaria bom”, diz Luan. “Existem empregos, mas não tem gente capacitada. Eu pediria projetos que ajudassem a qualificar o jovem”, afirma Elison.
“Educação é o primordial. A pessoa que tiver acesso a uma boa educação ela não vai procurar outras coisas”, afirma Leonardo. “Tendo educação, cultura, algo a mais, não tem por que procurar outro caminho”, concorda Luan.
Dos oito jovens no debate, quatro já foram assaltados. Por essa razão também querem mais segurança. Acham, por exemplo, que o Pará perdeu a Copa por causa da falta de segurança no Estado. Todos reclamam da falta de lazer para os jovens no Pará.
Marcos sugere que as escolas fossem também polos incentivadores das artes e dos esportes. “Isso seria bom para tirar as pessoas das drogas, do crime”, ensina.
DESENCANTO
“Eu até entendo: eles fazem tanta promessa que isso deve cansar tanto que depois eles esquecem o que prometeram”. A frase irônica é do jovem Luan, de 16 anos, que votará pela primeira vez, mas já carrega todo o desencanto com os políticos.
Os jovens não acreditam que os candidatos possam cumprir as promessas e todos afirmam que os políticos roubam. “Eu vi no jornal o caso daquele cara que tem um castelo. Me diz se com um salário dele dava para comprar um castelo daquele porte?”, indaga Elison, referindo-se ao escândalo envolvendo o deputado Edmar Moreira do DEM de Minas Gerais, que ficou famoso por ter um castelo avaliado em mais de R$ 20 milhões.
Apesar do desencanto com os políticos, sobraram críticas também para a mídia. “A gente cansa de ver tanta coisa errada, apesar de a mídia mexer com a imagem das pessoas. Se quiser colocar alguém como mocinho, coloca, e se quiser colocar como bandido, coloca. Vai da gente procurar a resposta certa”, sentencia um desconfiado Luan.
Leonardo acha que o mundo pode melhorar, mas também assume que os jovens podem ajudar. “A gente tem que fazer a nossa parte. Como no caso do lixo, não dá para pensar que porque todo mundo joga eu vou jogar”
Indagados sobre as esperanças para o futuro, os jovens alunos do Orlando Bitar revelam uma mistura de otimismo e incredulidade. “Eu sou brasileiro e não desisto nunca (risos)”, brinca Elison.
“Eu acredito que vai chegar um dia em que vai mudar, mas precisa ter a pessoa certa que queira mudar a nossa situação. A nossa esperança é de mudar” pondera Raíra.
“Tenho esperança sim. Um dia vamos ser um país desenvolvido”, emenda Marcos, o único da turma que diz estar entusiasmado com a eleição. (Diário do Pará)
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